Chico Buarque é o caralho. Ouçamos o brado das ruas.
O pagode da Bahia é uma coisa acadêmica. Dizendo pouco, diz-se tudo.
Mas dizendo-se esse pouco não se esclarece o sentido último das coisas.
Analisemos despidos de preconceitos, assim como as meninas rebolam freneticamente despidas de roupas.
Mas antes cabe um preâmbulo:
Em alguns poucos casos um artista tentou colocar como nome da música uma coisa diferente do refrão. Aquela música de Ivete, por exemlo, chama-se “Sorte Grande”, mas na Bahia é “Poêêêraaaaa!”, sem dúvida. Outro caso assaz aprazível foi o Afrodisíaco, que lançou a cançoneta “Café com Pão”, mas a massa a acolheu como “Vixe Mainha”.
O nome do grupo até mudou pelo sucesso do negócio e Jauperi e Pierre Onassis, em comparação a outras bandas, tiveram uma longa e sólida carreira – duraram uns três meses juntos.
Fim do preâmbulo: voltemos ao samba.
Tomemos o exemplo da música infernal “Desce com a mão no tabaco”.
Uma pérola do imaginário popular. Uma estrutura lírica que surpreende.
Basta ter olhos para ver.
Duvida?
Então chupa essa manga.
O compositor concebeu o refrão primeiro, sem sombra de dúvidas – o já referido “desce com a mão no tabaco”, uma vez que, na Bahia, todo refrão é o título da música, conforme explicado no preâmbulo deste post. O “desce com a mão no tabaco” equivale, aqui, para o compositor, às Madeleines de Proust (não sabe quem é Proust? Esquece. Ouve Psirico que é mais jogo). Aquele estalo fundamental que desencadeia o processo criativo-putarístico.
Isso se deu, no meu entender – e é um mero exercício de inferência não-fundamentada – provavelmente devido ao molejo insinuante dos quadris de alguma moçoila que requebrava as ancas com a mão sobre o sexo, uma vez que o “tabaco”, aqui na Bahia, é uma maneira chula de se referir ao órgão sexual feminino (variante: tabaca, xoxota e outras mil).
Mas “desce com a mão no tabaco” não é um duplo sentido. Não fornece uma dupla interpretação. E o double-sense é parte integrante da mística pagodística baiana. O composiutor se coloca, então, diante de um problema sério: como gerar um outro sentido para a frase lapidar?
Daí ele resolve subverter o sentido denotativo da coisa, fazendo com que a personagem, de fato, desça com a mão no tabaco, não apenas no sentido figurado (que aqui é mais presente) mas também no sentido denotativo. Que ela tenha, de fato, nas mãos, o tabaco físico, do mesmo tipo utilizado para produzir cigarros. E monta duas ou três estrofes de modo a contextualizar isso.
A canção começa com o eu-lírico avisando à garota que ela já havia sido avisada anteriormente de que não tinha permissão para fumar. Ouçamos:
“Eu te avisei: você tá proibida de fumar!
Mas você não pode sentir o cheiro do Tabaco…”
Note um componente misógino nesta parte da canção. Se observarmos, o eu-lírico manifesta descontentamento com o fato de que a parceira fume (não sabemos ainda o nível de envolvimento entre o casal). E afirma que já havia negado à personagem feminina o direito de fumar. A repetição das estrofes reitera e acentua o caráter de descontentamento do eu-lírico. À luz das conquistas modernas do feminismo, este comportamento demonstra;
a) Posse: eu, como seu amo e senhor, a proíbo de realizar determinadas ações;
b) A sua insistência em me desobedecer me gera descontentamento;
De modo que, após a repetição incessante deste dístico, o eu-lírico explode num acesso misto de raiva e confusão e proclama, célebre:
“Desce com a mão no tabaco”
Ou seja: a discussão do casal se dava em um apartamento/sobrado/cômodo elevado de alguma edificação e, como punição pela desobediência, ele a expulsa do recinto. É como se dissesse: não honra a minha ascendência sobre você? pois pague o preço, carregando nas mãos o símbolo de sua desobediência!”. O arquétipo é deveras conhecido. Eva, adão e tantos outros.
Mas o eu-lírico é romântico e possui sentimentos pela personagem feminina. A posse é apenas o sinal exterior de um arrebatamento interior (paixão). E a dúvida toma conta do eu-lírico, que fica sem saber se expulsa ou se acolhe a pecadora. Daí vem a segunda frase, igualmente importante em termos cognitivos, do refrão:
“Sobe com a mão no tabaco”.
Observe a dúvida, a ânsia, a tensão do mundo interior do eu-lírico. Devo deixar de lado minha autoridade sobre ela ou devo reafirmá-la. Daí começa um jogo de espelhamento interessante entre as dúvidas do narrador:
“Desce com a mão no tabaco
sobre com a mão no tabaco”
A dúvida não se dissipará. Pelo contrário, se extende por toda a obra. Vejamos a e última estrofe:
“Eu te dei, você não quis…
Me promete agora e diz:
‘Vou parar de fumar’.”
Note, nobre leitor, o tom conciliatório com que o eu-lírico tenta desfazer o inbróglio resultante da questão entre os personagens. Ele mostra que já deu e ela não quis. O que? Chances? Oportunidades de tratamento? A redenção? o perdão em falhas anteriores? Não fica claro no texto e carregaremos esta dúvida por século, tal qual traição de Capitu, a ronronar em nossas mentes. Mas o fato é que na sequência o eu-lírico dá mais uma chance à pecadora. Permite que ela reate o compromisso. É como se dissesse: “tudo bem, você errou, mas agora me prometa novamente ´vou parar de fumar´”. No entanto, todos os esforços são em vão. Veja a segunda parte da estrofe, que é uma resposta da personagem…
“Se rolar whisky com redbull
A galera não aguenta”
Ou seja: não há uma declaração, de fato, de compromisso. A moça afirma que, a depender das circunstâncias, ela pode vir a cair de novo em tentação. E o dominador volta com suas dúvidas:
“Desce com a mão no tabaco
sobre com a mão no tabaco”
Resumindo: toda a aparente força e domínio do eu-lírico sobre a personagem é uma falácia, construída e arquitetada. Na verdade, a dominada se torna dominadora por meio da força do arrebatamento apaixonado.
Viu?
Jorginho é cultura.