Olá, rebanho de demônios.
Saudades daqui, de vocês e tudo o mais. Mas não é apenas a saudade que me move.
O mote deste post, na verdade, é a estupefação.
Indignado estou.
Irritado. Danado. Perturbado.
Coisas diversas vêm acontecendo no planeta neste exato momento: tem gente trepando (seria bem se fosse eu, mas aí eu não estaria escrevendo), tem gente comendo salmão, tem gente comendo broa de milho com café (espírito de pobre feelings), tem gente comendo a Suzana Vieira e gostando (o.O), mas nada me deixou tão surpreso quanto esta… esta… esta coisa!
A música da minhoca.
Você já ouviu falar. É mais ou menos assim:
- Minhoca, Minhoca,
me dá uma beijoca?
- Não dou, não dou!
- Então eu vou roubar.
- Minhoco, minhoco
Você é mesmo louco!
Beijou do lado errado!
A boca é do outro lado!
Um acinte.
Um tapa na cara da sociedade.
Cadê os militares quando precisamos deles?
Cadê o conselho tutelar?
Cadê o Ministério Público?
Cadê o Bono Vox?
Cadê o Olodum brandindo suas baquetas como clavas em direção aos tambores da ilegalidade?
Entenda o porquê comigo:
A coisa, caros amigos, começa bem.
Em tempos modernos, educar as crianças a respeito da plêiade (ui!) de opções sexuais e esclarecer os pimpolhos sobre o respeito às diferenças é válido.
Mais: é imperativo.
Mais ainda: é vital.
Logo, os versos iniciais da cançoneta – dita – infantil desempenham um papel de extrema valia dentro da gnosiologia metafísica patabológica e – quicá – probiótica da aceitação da alteridade.
O ser, enquanto minhoca, solicita ao seu semelhante, ao seu igual, uma demonstração física, carnal (lânguida em certa medida, porém pungente) e intensa de afeto.
É como se dissesse: “eu, minhoca, solicito a ti, meu igual, que preencha a vacuidade de minha existência com o vosso carinho. Tu, ó minhoca na qual me espelho, serás o artífice de minha felicidade”.
A minhoca, fálica, e o encontro com outra minhoca, com o outro, com o seu duplo, sendo este fálico também…
Freud e coisas diversas.
Favor amplificar o léxico para possibilitar o entendimento.
Isso – posto desta forma, caros – essa motivação do amor romântico, esse desvelar-se em possibilidades de afeto será despedaçado, destroçado, enlameado na sequência da estrofe.
Você,cognitivo leitor, já sabe como isso se dará.
A recusa é reiterada, repetida, especificada. Dizer “não dou” seria suficiente, mas a segunda minhoca – que, daqui por diante, será denominada Minhoca 2, para efeitos de análise – repete a frase, de forma a reforçá-la, a deixar clara a sua repulsa pela minhoca 1 – “não dou, NÃO DOU”.
A minhoca 1, ressentida, abalada em seu vigor, em sua honra, em sua integridade minhocal, exaspera-se.
Motivada por sabe-se lá quais traumas de infância, abandona qualquer possibilidade de amor romântico e, plena a minhoca de lascívia incontida, afirma, com os olhos marejados de fúria e desalento: “então eu vou roubar”.
Comportamento passivo-agressivo?
Classicamente, é o perfil que se vê em tal cançoneta!
Esclarecendo para os menos dotados de faculdades intelectuais avançadas na interpretação memética de textos…
Fica claro o caráter misógino-escafandrista-epiléptico da minhoca 1.
A minhoca 1 recusa a recusa.
Não se satisfaz com a perda.
Sua vacuidade espiritual minhocal necessita ser preenchida.
E assim o mal se dá.
Pela minhoca violada, desrespeitada, invadida: oremos.
Não sabemos bem como se dá o processo de agressão, a tomada à força do carinho da minhoca 2 pela minhoca 1. Porém, podemos supor, uma vez que, na estrofe seguinte, o eu-lírico já é a minhoca 2, refletindo, entre lençóis, a tensão da violação.
“Minhoco, minhoco, você é mesmo louco” – observe como a minhoca dois reafirma a insanidade da minhoca 1.
“Beijou do lado errado, a boca é do outro lado”.
Eu nem consigo exprimir o tamanho de minha indignação com este último verso.
Ou melhor: consigo, sim.
A minhoca 1, movida por um frêmito de qualidade sexual duvidosa, se arremessa rumo à minhoca 2 com gana e violência, sem nem considerar o lado a ser beijado.
O ósculo prometido torna-se, assim, sodomia, putaria, libertinagem. Negado o beijo, a minhoca 1 não se interessa apenas em roubar-lhe o contato labial, mas também a dignidade circumpregosa do orifício rugoso peidante.
Em linguagem chula: “negaste-me o beijo? tomarás no furico, ó minhoca”
Pausa para que eu possa me recompor de tamanho descalabro.
..
..
..
..
..
Andiamo, cazzo…
Que mensagem fica para nossos pimpolhos?
O que consegue-se extrair de uma mensagem assim?
Nossos filhos somente aprenderão que a força é a melhor forma de obter proventos de cunho sexual.
E também que os dois lados da minhoca podem proporcionar satisfação sexual.
Sinceramente, não era isso que uma música infantil deveria comunicar.
Espero que as autoridades competentes venham a tomar uma atitude contra essa mocinha, a tal da Eliana, já conhecida nos meios acadêmicos pela pérola do double-sense “os dedinhos”. Espero poder analisá-la em uma outra oportunidade.
Sem mais,
Jojó da Babá.