Tchanxegô
Ok, você tá irritado porque temos BBB, ou por qualquer outra coisa da vida (digamos que seja com este blog, mosqueado, pouco atualizado, etcétera e tal).
Pare de gastar bilirrubina à toda. Tem coisas muito mais importantes para com as quais você deveria estar se descabelando.
O É o tchan voltou a tocar.
Você, que se lembra da banheira do Gugu, que colecionava shortinho malhação de todas as cores, lembra deles.
Não é o caso que o tchan tenha propriamente parado. Mas é o revival da coisa original, com Beto Jamaica e Cumpadi Washington.
Para o pagode baiano, é praticamente a reunião dos beatles vivos.
Segundo eu soube, os caras agora resolveram apelar (agora?) e colocaram sete dançarinas no palco. Não tem mais homem requebrando. Jacaré vendeu sua alma pro establishment e hoje, só na Turma do Didi.
Eu acho digno. É vender o que o povo quer comprar.
Se o lance é bunda, vamo botar bunda no treco.
Deste modo, o É o tchan atual está para o É o tchan original do mesmo modo que um extrato de tomate está para um bloody mary. É a versão concentrada, reduzida a seus elementos mínimos.
É o minimalismo no pagode. Haverá um tempo em que o É o tchan será apenas um pandeiro, 20 bundas desacopladas do corpo de suas donas (talvez numa projeção 3d ou em algum tipo de tecnologia que vira a ser descoberta) e o bigode de Cumpadi Washington, gritando “tchan-an! tchan-an! tututututu pá!”
Cabe lembrar que o Tchan é responsável por algumas das músicas mais antológicas da história recente da MPB.
Você lembra daquela, né? Aquela que tinha um concurso, ou uma roda de samba, onde vinha gente de todo lugar – baiana, italiana, americana… -, mas somente ela, somente a tcheca, bem sapeca, em toda a sua nobreza nórdica, desfilando seu suingue maroto e albino, se destacava.
E o refrão hipnótico: pega a tcheca, bota a tcheca, leva a tcheca, põe a tcheca pra sambar! Olá-lá!
Lindos os tempos em que o politicamente correto ainda não havia se assentado de maneira defintiva cá pras bandas do sul do equador.
Aliás, eu elejo o É o tchan como o grupo mais corajoso do mundo. Ninguém conseguiu traduzir a putaria da formação deste país com tanta finesse, garbo e elegância quanto a garotada do Tchan.
A música, você deve se lembrar, é a tal da TriboTchan. Me parece que a coisa toda data da época do aniversário de 500 anos do descobrimento da terra papagalis, mas eu não posso afirmar com propriedade. O fato é que, nesta música, dois versos chamam a atenção.
O primeiro eu particularmente adoro: “Enquanto Cabral samba, Pero Vaz Caminha”.
Uma pérola do trocadilho nacional. Nós, blogueiros, ansiamos com um momento de enlevo deste tipo, por um trocadilho tão sacadinho.
O outro, se tomado literalmente, também entra pros anais da poesia mundial: “Do Brasil a Portugal, sambando foi Cabral”.
Sem comentários. Haja paradinha nesta sambada oceânica do nobre Cabral.
Mas ainda há mais coisas. O refrão, escrito em pretenso tupi, é um primor:
“Tchancurú, tchanxegô, catchanbá,
Tchan popô
Paquetchan, tchanrerê
Tchansambá, tchanmexê ”
Cumpadi Washington entra na roda e arrebenta: “Vou traduzir:
Na cabeça, no joelho,
No peitinho, no bumbum,
Barriguinha, cinturinha
Essa índia ainda mata um”
Eu també acho que mata. Nem que seja de raiva.

