Dica Cultural

Sexta passada fui com um grupo de amiguinhos ver “Os Cafajestes”, remake da peça que fez muito sucesso nos anos 90. Eu vi a primeira versão, que contava com o quase sempre brilhante Fábio Lago, o engraçadíssimo Osvaldo Mil, a voz possante de Daniel Boaventura e com o talento inigualável de outro ator que não lembro o nome (oi?).

A peça era engraçada, ágil, meio escrota e tal. Tão boa que resolveram fazer de novo, com novo atores e patati patatá. Fica a dica cultural: não vá ver o remake. É constrangedoramente ruim. O que se salva é o Renato Fechine. O resto é ruim que dói. Mas o post é pra contar uma historinha, não é só pra falar mal da peça.

Saí de casa umas 20h40, uma vez que moro relativamente perto do teatro. Cheguei lá e meu relógio marcava: ainda faltavam 10 minutos pro horário marcado nos ingressos, que estavam em minha mão. Parei na porta do teatro, entreguei os convites pra Marcelle, a mais bêbada das irmãs cachaceiras, e fui estacionar meu possante carango.

Quando cheguei na porta do teatro, Drubs me conta:

- Bicho, se você demorasse mais dois minutos pra chegar, a gente iria apanhar aqui.

- Oxe, por quê?

- Vamo entrando que eu te conto: uma mulher chegou aqui, aos berros, perguntando se a gente não iria entrar, que a peça já ia começar e tal. Falei “olha, moça, ainda faltam 10 minutos pras nove”, daí a mulher surtou e começou a gritar, dizendo que no relógio dela faltavam só cinco minutos, e que mesmo que a gente tivesse ingresso a gente ia fica de fora, e saiu batendo os tamancos, falando alto, um verdadeiro piti.

- Vixe! E quando ela disse que vocês iam ficar de fora, você falou o quê?

- Eu disse “tá” e virei a cara. Vou ficar dando trela pra maluca, Jorge?

- Rapaz, que onda. Quem foi essa louca, hein?

Detalhe que esse diálogo se deu enquanto entrávamos no teatro. Quando eu perguntei pra Drubs quem era a louca, já estávamos no foyer do teatro. Uma coroa, loura, com cara de maluca, ouviu minha pergunta e se inflamou. Vira pra mim aos berros…

- A louca sou eu, por quê, hein? Eu que sou a louca, eu que sou a louca!

Aos berros, malandro. Todo o pessoal que tava no Foyer vira pra mim. Eu não sabia onde meter a cara. Em condições normais de temperatura e pressão, eu teria mandado essa mulher se foder. Mas saca quando você é pego desprevenido? Fiquei sem reação com a estupidez da idosa de cabelo mal-pintado lá. Só consegui balbuciar.

- Oxe, ainda faltam cinco minutos pras nove, moça…

- SE EU QUISER NINGUÉM ENTRA MAIS! ISSO É UM ABSURDO, NINGUÉM RESPEITA HORÁRIO NA BAHIA…

E ficou gritando. A galera me resgatou e entramos no teatro, eu não sabia onde botar a cara. Depois de nós, que estávamos em cima do horário – mas ainda no horário, entraram muitas pessoas. Quase todas reclamando da falta de educação da mulher. Suspirei aliviado: não só eu tinha tomado um par de gritos, mas quase todo mundo.

A peça começou com quinze minutos de atraso. Drubs, que não presta, falou bem alto, antes da peça começar:

- Tanta putaria xingando o povo que tá no horário e vocês mesmos não respeitam o horário marcado.

Aí rolou outro treco surreal: um cara começou a bater boca com Drubs, falando que a culpa do atraso era de pessoas que não respeitavam os horários e tal. Drubs reagiu com muito mais nonchalance do que eu – deu de ombros e mandou o cara tomar no cu.

Já eu, que estava amuado e constrangido, fui me afundando na cadeira. Marcele, que, apesar de loirinha e bonitinha e tal, é um verdadeiro peão de obra, me arremata:

- Você é otário, é? Fique com essa cara de cu, não.

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Violência em Salvador

Daí saí do trabalho pra dar uma palestra numa faculdade da cidade de Lauro de Freitas (claro que o assunto foi sério – marketing digital, redes sociais, blá blá whiskas sachê – e não essa patacoada daqui). Atendo e é Namorada:

- Tá onde, namorado?
- Bairro X. Why?
- Olha, não vá pela Avenida Paralela…
- Why?
- Nego tuitando aqui que pousou um helicóptero da polícia militar no meio da Avenida, pra pegar uns bandidos e tal. Vai pelo caminho tal.

Pra você ver como Namorada, além de tudo, é um excelente GPS. Depois que cheguei lá na faculdade, liguei.

- Rapaz, como é que pousa um helicóptero no meio da avenida?
- Ninguém sabe ao certo. Tá foda o treco. O horror, o horror!

Choquei.
Tipo, Salvador tá no esquema Duro de Matar, pousando helicóptero no meio de avenida.

Chego em casa, venho ver seus comentários. My little sister chutou a respeito do post que fiz ontem sobre os ônibus queimados (era ironia, meu povo, não achei que precisasse de legenda):

A questão é: enquanto o fato não atinge nem a mim, nem a você… O assunto se resume a um post em um blog. O duro é sentir na pele a insegurança, as pessoas se tornando prisioneiras de seus lares. O duro é ir pro trabalho sem saber se vai voltar ruffles sabor churrasco pra casa. De toda forma o que está acontecendo é lastimável e enquanto neguinho achar que tudo é festa, a coisa continuará assim. Eu sei do que eu vi e não importa o motivo disso. É algo inaceitável.

Aí eu vou e volto: já não somos prisioneiros, hoje?

Eu não ando com carro destravado.
Eu tenho medo de estranhos.
Não passeio de noite de vidro aberto.
Não paro em sinal fechado.
Não vou em determinados locais.
Se preciso, por algum motivo, parar o carro na rua, fico ligado.

Lembra quando eu falei isso aqui num post antigão?

A gente vive num país de gente pobre.
Nós, que temos tempo pra ler e fazer blogs, que temos grana pra ter banda larga, por mais que fiquemos com a titinhagem de dizer que “não, sou pobre, meu, tem gente rica por aí”, somos a elite do país.

Quando nego fala “a elite tem de pagar”, tão falando de nós.
Quando um sindicato, dirigido por mestiços de língua presa, pendura uma faixa no centro da cidade, como a que vi ontem, que tinha entre seus dizeres “os ricos têm de pagar o custo da crise”, eles estão falando de nós.
É questão de tempo pra que esse desconforto, essa indignação dos mais pobres contra os mais ricos se torne um confronto aberto. E aí, nem os seguranças de nossos condomínios serão aliados, mas inimigos. Eles virão em nossas casas e o pau vai quebrar, velho.

Se você é um verme amorfo e tá pouco se fodendo para a situação dos outros, seja egoísta e faça alguma coisa agora, porque logo, logo, tanta frustração e tolhimento da galera pobre vai se virar contra você.

Eu tento fazer.

Eu acredito que nós somos responsáveis por inserir essa massa amorfa, fedida e desdentada no mercado de trabalho, e nós temos a responsa de fazer com que eles se tornem nós. Porque em pouco tempo, nós, a elite, não mais poderemos desfrutar daquilo que achamos ser um modo de vida confortável.

Vivemos acuados em nossos condomínios, com medo de sair à noite.
Se queremos continuar nos endividando nos cartões de crédito e comendo comida japonesa, temos de fazer com que eles passem, pelo menos, a comer feijão com arroz e um bifinho todo dia.

É triste, velho, mas eu tava certo.

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Hino nacional – versão patrocinada pela vodka absolut

Minha queridíssima amiga Cris Siquara (ô saudades, dear) me mandou esse link da Vanusa, absolutamente bêbada, briaca, cheia do pau e embriagada, detonando o hino nacional de Banânia. Ela executou o hino, na assepção mais própria do termo, no Primeiro Encontro Estadual de Agentes Públicos, na Assembléia Legislativa de São Paulo.

O video, claro, malandragem, você veria em qualquer lugar: seu objetivo, ao vir ao blog, é saber de meus comentários.

E eu curti.

Aliás, acho que, toda vez em que o hino nacional for tocado, deve-se servir aos presentes doses de tequila com pó de café, uns shots de absolut e conhaque.

Se o país é essa esculhambação mesmo, nada melhor que tomar uns gorós na hora de homenageá-lo.

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How now? a rat? Dead, for a ducat, dead!

Ter blog é coisa boa.
E todo mundo quer fazer sucesso, ser reconhecido, ter milhões de acessos, ter uma galera fiel seguindo, comentando e tal e coisa.

Mas bom mesmo é ter blog pequeno.
Sem compromissos com o que se escreve. Nem com quem se escreve.
Porque quanto mais o blog vai crescendo, menos liberdade você tem.

Eu não tenho um blog conhecido.
Nem um décimo disso.

Mas sofro de um mal pior: conhecidos conhecem o blog.

Aí, malandragem, quando você sai do nível da normalidade e tem um turbilhão de coisas que você gostaria de falar livremente, tem de segurar a onda.

Acreditem ou não, eu seguro MUITO minha onda aqui.
Não é big brother, afinal de contas.

Como não posso falar do que realmente me move no momento, como tenho de manter só pra mim essas coceirinhas da alma, vamo falar de bobagem…

***

Na última quinta feira, Fabio, brodi recém chegado da França (não do terminal da França, idiota, mas daquele lugar na europa onde nego anda com baguete debaixo do suvaco), estreiou sua peça.

Não sei onde foi nem o nome. Só sei que a peça é em francês, legendada.

Eu disse pra ele que não ia.
Estreia de peça é foda. Normalmente é ruim.

E quando é de amigo é pior, porque a sua presença, na plateia, colabora com o nervosismo do povo no palco. Fabio tentou me convencer do contrário, mas não me moveu. “Jorginho, eu nem mesmo VEJO a plateia”, disse ele com seu sotaque mezzo Champs-Élysées mezzo Belém do Pará.

Só conseguiu arrancar de mim um ‘TÁ BOM, EU VOU, CARA’ que não se concretizou.

Pra você ver como é minha cabeça: eu me dou tanta importância que acredito que minha simples presença desestabiliza emocionalmente as pessoas. E não acredito quando as pessoas dizem que isso não ocorre. Como napoleão, acredito governar a tempestade, mesmo naufragando.

Daí um bando de ratos – que inclui Pablo, as irmãs cachaceiras, Drubs e a Juliana Curupira – foi pra peça. Conversei com Pablo después:

- E aí, cara, como foi a peça.
- Jorge, foi melhor do que eu esperava.
- Foi ruim?
- Nada, foi massa. Mas você sabe: peça em francês, legendada. Tava com medo. Mas foi bom. Você iria curtir.
- Porque é uma peça profunda, bonita e interessante?
- Não, né, tá doido? Você iria gostar porque dá pra pegar uns lances das peitcholas da atriz principal. Mas não conta isso no blog, senão Juliana me mata.
- Tá doido, jamais iria te expor dessa maneira em meu blog, cara, fica sossegado. E as peitcholas?
- Sucesso. Mas a peça é boa também.

Depois desse diálogo absolutamente verdadeiro, do qual não inventei nem mesmo uma linha para prejudicar ninguém, soube que os malditinhos dos ratos se reuniram pra (o que mais?) tomar cachaça, fazer resenha, falar mal da vida dos ausentes.

E foi aí que napoleão sentiu o cheiro de ratos.

Disseram, esses filhos do istopô, que EU sou o elemento do cão que faz com que as pessoas saiam de casa pra tomar cachaça de maneira excessiva dia de domingo.

Tá vendo essa menina?

marcele 2

Essa encarnação do cão toma um litro de tequila, gente.
Sem fazer careta.
O novo apelido da loira maldita é garganta de arraia.

E eu, que não guento beber, um anjo de candura, um ser do bem, termino acusado de ser o arquitetador da cachaça dominical.

Aí não.
Malandragem, fiquei furibundo.

E, no domingo, na hora em que, comumente, após acordar, ligo para essa corja de ratos para fazermos alguma coisinha (nunca pra beber – nunca!), liguei para todos para avisar que, naquele domingo especificamente, eu não sairia com ninguém.

Pablo contou todos os detahes aqui, aqui e aqui.

No domingo que vem, inclusive, acho que deveríamos marcar uma reunião na pedra furada, tomando uma cervejinha e um caldo de sururu pra esclarecer algumas coisas.

PS – O título, o leitor esperto já descobriu, vem do bardo, quando ele descobre traidores por detrás da cortina na peça do dinamarquês maluco.

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Mais versos inspiradíssimos, de uma pureza melódica acachapante

Vou dar então um passeio
Pelas praias da Bahia
Onde a lua se parece
Com a bandeira da Turquia…

***

Açaí
Guardiã
Zum de Besouro
Um imã
- Branca é a tez da manhã.

***

Eu tive uma grande ideia
Você na minha teia

***
Subo bem alto pra gritar que é amor
Eu vou de escada
Pra elevar a dor.

***

E o campeão de lirismo e docilidade:

Me deu o dedo
Eu quis o braço e muito mais
Agora estou a fim
De ficar entre os seus rins

#vewrgonhaalheia

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Antes que me cobrem coerência…

… tô numa ressaca brutality.
Mas Pablo e July, que não valem um pedaço de pão dormido, prometeram me desmascarar hoje.
Eu admito: eu fui pro Sarau du Brown. E tava bem legal.

Fiz tudo o que se faz nessas festas: arregacei as mangas da camisa, fiz passinho, tomei cachaça, fiz amizade com gente desconhecida e dancei. Só não saí pulando e girando na mão uma garrafa de água mineral porque tenho medo de apanhar de gente estranha.
Logo pipocarão fotos disso aqui e acolá.

Segundo Pablo, isso é uma prova irrefutável de que, apesar de criticar tudo, eu sou baianidade nagô.
Traduzindo: eu sou um embuste.

Mas aí, agora, quase oito da manhã, enrolado no meu fodástico edredom preto e degustando um saboroso sonridor caf, me pus a pensar sobre o assunto. E acho que fui mal-interpretado. Eu nunca disse que era contra o axé ou as festas ou nada disso. Sou contra o endeusamento do que quer que seja. Adoro festas. E o axé e o carnaval.

Não me cobre coerência. Não sou bom nisso.
O melhor de mim é ser uma perfeita contradição: detestar a baianidade nagô e ir a ensaios. Tomar café no Franz e ouvindo Banda Eva no ipod.

Caso vocês não saibam, eu sou o sócio majoritário da verdade sobre as coisas, o grilo falante da humanidade, o paladino blogueiro da justiça e patati patatá.

Mas pode ser que o verão esteja, de fato, tomando conta de mim também.
Não é justo com vocês que gostaram tanto do textinho sobre a baianidade nagô.
Mas quem disse que a vida é justa?

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Uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Tem horas em que você se sente pequeno, uma angústia, um movimento estranho por dentro (lá ele), uma coisa que não se sabe nomear.

Aí você come e passa.

Chama-se fome.
Vou almoçar.

Beijos, tchucos!

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