Viço

Envelhecer é bom. Ou quase.
Como a opção que resta – ir por ladelá – não parece muito interessante, a coisa fica ainda melhor.
Quase tudo fica melhor com o tempo. Vc conhece melhor o mundo, sabe o que quer dele e, talvez o mais importante, sabe que só depende de você mesmo para conseguir.
Em tudo é melhor ter 30 anos do que 20. Mais dinheiro, menos ingenuidade, mais esperança, mais humildade. Mas em uma coisa a experiência se perde: o sabor de novidade.
Tipo: você tá a fim de uma gata, a leva num restaurante bacana, pede um vinho legal, bate um papo joinha e patati patatá. Mas nunca, nenhum restaurante consegue trazer de volta o sabor daquela primeira vez em que você foi a um restaurante com a gata.
Esse primeiro apaixonar-se. Esse sabor de descoberta da vida.
Uma namorada costumava dizer: a juventude, por si só, encerra em si uma beleza, um viço, que a gente só percebe nos outros quando envelhece.
Sabida ela. Mais sabido eu, que só namorei gente sabida.

01/06/11 | Veja mais | 10 comentários;

Criado Mudo

Uma namorada me disse: não vá morar só.
Você vai se encher de manias. De idiossincrasias. De chatices.
Depois de viver só, você não vai mais prestar pra nada.

Ela estava certa.
Aliás, todas as minhas ex-namoradas tinham um tanto de razão.

Naquele momento do término, aquele momento fatal, elas dizem exatamente o que você precisa saber pra guiar sua vida.

Essa disse que eu não prestaria pra mais nada, e estava correta.
Sou um poço de egocentrismo. Chaaaaato que só.

Um exemplo bobo: peguei a mania chata de não atender o telefone de casa.
Quem quer falar comigo liga pro celular, normalmente.
Se ligou pro número de minha casa, só pode ser:

a) alguém me oferecendo alguma coisa que não quero comprar.
b) gente que não quer falar especificamente comigo, e, portanto, não merece consideração (egocêntrico, lembra?).
c) parente pra passar horas contando problemas que não me interessam.

Corro destes três tipos de pessoas como o diabo corre da cruz. Daí desenvolvi essa mania chata.
Com exceção de minhas irmãs, que vira e mexe me oferecem coisas pra comprar, não querem falar comigo especificamente e passam horas contando problemas.
Mas delas eu suporto. Um pouco.

Mas é por aí. Fiz de minha casa o meu castelinho.
Tudo de um jeito que me faz amar minha caverna demasiadamente.

Outra ex-namorada disse que eu nunca havia me sentido, de fato, confortável na casa dela, e isso influenciava nossa relação.
Ela também estava certa.
Não me sinto bem na casa dos outros.

Desde que tenho minha própria caverna com minhas paredes pintadas e cores berrantes e meus livros e meus cinzeiros e meu lugar no sofá, nunca mais me senti plenamente à vontade em lugar nenhum.

A sorte é que alguns amigos queridos – que frequentam minha casa – também parecem se sentir bem aqui.
Eu entendo muito o bom gosto deles.
Cada detalhezinho daqui foi maniacamente pensado.

Vejam só vocês: os leitores mais antigos daqui acompanharam a epopeia da tv LCD. Passei meses maldizendo a vida, pesquisando, titirrando. O sofá, idem. Meses de pesquisa.

Daí passei um tempo quietinho.
Estava satisfeito com quase tudo.
Daí o comichão voltou a me roer por dentro e passei a achar que eu precisava ter um abajur no quarto (pra ler à noite e tal) e isso implica na compra de um criado mudo, uma vez que não estamos em gravidade zero e abajures não flutuam.

Estou às voltas com a compra de um criado mudo.

Já rodei trocentas lojas. O maníaco do criado mudo.
Nada me agrada.

Uma outra ex-namorada me disse que eu iria terminar meus dias só.
Espero que ela esteja errada.

Mas não chego a me assombrar demasiadamente com isso.
Se ninguém se dispuser a ser uma meia velha para meus pés cansados, sobrarei eu e minhas manias e minhas coisinhas, e elas hão de bastar.
E, obviamente, o criado mudo que comprarei. Este há de me acompanhar por décadas a fio.

E, pensando com um pouco mais de cuidado, a companhia muda do criado e seu abajur, algumas vezes, pode ser bem mais prazerosa que a presença ruidosa de determinadas pessoas.

16/08/10 | Veja mais | 14 comentários;

Um sonho, três revelações.

Sonhei esta noite que eu era o orgulhoso namorado de una chica que se parecia com a Jennifer Aniston.
Só que a Jennifer Aniston que me namorava trabalhava num shopping center.

Daí a Jennifer (não era a própria, mas vamos chamá-la assim pra facilitar a redação) me liga e pede, manhosa, pra eu passar no shopping por volta de oito e meia da noite para buscá-la.

Nisto, estava eu numa parada que parecia um desfile de moda. E me bato com uma grande amiga de antigamente que é absolutamente louca, surtada e tudo o mais.

Nossa amizade terminou num bate boca monstruoso.

Mas, no sonho, a gente se falava, ficava amiguinho, e duas ou três frasezinhas carregadas de sarcasmo e humor negro depois – como era característico em minhas conversas com esta amiguinha – ela pedia, encarecidamente, meu carro emprestado e eu, otário, emprestava, e por isso não podia ir buscar a Jennifer no shopping.

Jennifer me ligava irritada, daí não tinha processo fodetivo-copulatório e eu ficava chateado.
Fim do sonho.

Seria só uma imbecilidade como as que a gente sempre sonha.
Seria, né? Mas olhe mais de perto.

Observe como um sonho inocente, em dois toques, releva tanto sobre a minha pessoa.
Primeiro: sou megalomaníaco.
Não basta namorar: tinha de ser uma cidadã parecida com a Jennifer Aniston.

Daí você tenta amenizar: ok, Jojó, era a Jennifer Aniston, e realmente a Jennifer Aniston é a maior gostosinha, mas no seu sonho ela era atendente de loja de shopping, o que não é lá muito animador – ou promissor.

Eu entendo a Jennifer.
Ela poderia estar passando por uma fase de aperto.
Eu mesmo trabalhei em loja de shopping aos 18 ou 19 anos.
Quinze dias, mas tá lá no currículo.

E, afinal, sempre há a possibilidade de melhorar de vida ao terminar comigo.

Explicando a última frase: hoje, há ex-namoradas minhas trabalhando em locais fantásticos. Tem namorada em multinacional, tem namorada em construtora, tem namorada empresária, tem namorada na Petrobras e tem até namorada na Vale.

E enquanto elas estava em processos fodetivo-copulatórios comigo, tavam nessa espiral ascendente de fama, sucesso e poder?
Porra nenhuma: todas quebradas.
O que faz com que alguns amigos mais próximos me chamem de âncora de mulher: basta terminar o relacionamento que todas as negas passam a se dar bem profissionalmente.

Não é que o sucesso delas me deixe especialmente feliz.
Meu egocentrismo só consegue imaginar que, depois de mim, todas fiquem em casa, ouvindo Bon Jovi e lembrando de meu sorriso e de minha boca de coringa.
Daí eu, nojeninho, costumo dizer que, depois de mim, elas enxergam que jamais encontrarão um cabra bacana, charmoso, sofisticado e patati patatá como eu, daí passam a se dedicar com todo afinco à vida profissional e o resultado taí.

Ou, como meu sócio falou no outro dia, “depois de você, elas devem chegar à conclusão de que homem é uma raça realmente sem solução, e se dispõem a roubar nossos postos de trabalho e, a todos os homens, subjugá-los profissionalmente de maneira massacrante, e o sucesso vem daí”.

Meu sócio deve ter mais razão, obviamente.
Ou o fenômeno não tem nenhuma relação comigo particularmente – o que minha megalomania não permite que eu considere como hipótese válida, afinal, na minha mente, absolutamente tudo, no mundo, tem uma relação estreita com a minha pessoa.

Espirrei de manhã? Tsunami da Ásia, certamente.
Dormi por cima de meu próprio braço e ele acordou dormente? O técnico da seleção brasileira muda.

Não tente entender. Voltemos a meus defeitos.

Defeito número dois: eu me vendo barato. Brigue comigo, me achincalhe, me trate mal e, depois, me jogue uma migalha de atenção. Eu esqueço a briga e te empresto meu carro.

E, por fim, o pior: sou péssimo com compromissos. Chutei a Jennifer pra cima pra ajudar a surtada. Você diria que isso é um gesto de nobreza – ajudar uma amiga num momento de dificuldade – mas a sua opinião é viciada, uma vez que você gosta de mim quase tanto quanto eu gosto de mim mesmo.

Eu acho.

28/07/10 | Veja mais | 9 comentários;

A Semana Santa em Nazaré das Farinhas

Naquele tempo, o Pai, no caso o meu mesmo, filho de Vanju e Big (vovó e vovô), andava a mercar calçolas e peças diversas de lingerie em províncias distantes. Maria José, filha de Benedita e minha mãe, foi assim ter com sua família em Nazaré, sua terra natal, não por conta de nenhum recenseamento, mas para poder dar a luz a seu terceiro filho – e ao varão, que sou eu – em condições melhores, que envolvessem mais que uma manjedoura de burros. Assim nasceu o filho do Homem, eu, na cidadezinha de Nazaré das Farinhas. Carrego, pois, esta chaga em minha carteira de identidade desde então – não sendo esta, propriamente, uma marca de predestinação.

Diferente do brodi da galiléia, diz a profecia que nasci num sábado de aleluia, 21 de abril. Sendo este o dia em que se malha o Judas – um feriado – está dito tudo.

Muito cedo (segundo consta nas escrituras, aos dois meses de vida) vim para Salvador, a Babilônia, de modo que de Nazaré só me restou essa indelével referência nos documentos. Por obra e graça deste arranjo de acontecimentos, coube a mim, o filho do homem, ser o único nascido lá. Todas as minhas irmãs, em verdade vos digo, nasceram em lugares melhores. Bem aventuradas as irmãs soteropolitanas, porque delas ninguém pôde fazer chacota na escola.

Nem só de pão vive o homem, mas quando o Pai saiu de casa e o pão começou a faltar, não deu pra continuar vivendo só da palavra de Deus, e Maria José decidiu voltar para sua cidade natal. O filho do Homem já contava com seus nove ou dez anos de idade. Bendito aquele que vem, de ferry boat, em nome do senhor. Durante cerca de dois anos, o filho do homem viveria por ali.

Nazaré não é propriamente uma terra em que mana leite e mel, mas uma cidadezinha conhecida por sua festa mais importante, a Feira dos Caxixis, que ocorre durante a semana santa (Caxixi é um tipo de artesanato em miniatura). É preciso dar a César o que é de César, logo, naquele tempo, rolava em paralelo à semana santa a Micareta da cidade, o que fazia com que a cidade se agitasse. Não era um exemplo de devoção.

Lembro que era comum ficar na praça esperando dar meia noite, no sábado de Aleluia, pra começar a putaria: trio elétrico, cachaça e festa. Quando a missa do senhor morto se extendia, a galera da praça se exasperava, para sossego da lei e segurança da ordem.

Mas o melhor da semana santa em nazaré era a representação da via sacra. Sempre, sempre, a peruca de cristo caia. Uma vez, o ator que representava Caifás exagerou na interpretação, o que fez com que produizíssemos o trocadilho infame “Cai fás, cai pagas”. Cristo, sempre o mesmo ator, era de uma canastrice assombrosa. Certa feita, ao curar um coxo, o nazareno teve a pachorra de anunciar a plenos pulmões “levanta-te e anda-te”.

Domingo de Páscoa nunca era um dia muito pródigo em chocolates e essas coisas. Era dia de micareta, e o pau comia. Depois que voltei a morar em Salvador, passei a voltar pra Nazaré com frequência para visitar minha mãe e irmã, mas durante cerca de dez anos a perspectiva de uma semana santa normal me parecia uma coisa escalafobética. Afinal, a semana santa de Nazaré era o tempo em que mais se comia, se bebia e se fornicava na cidade.

E, durante quase a totalidade de minha vida, domingo de páscoa era dia de pegar ferry boat pra voltar pra casa. Ferry boat era o caminho, a verdade e a vida: ninguém chegava a Salvador senão por meio dele. E todo mundo sabe que o ferry boat, na volta de um feriadão, é a verdadeira barca do inferno (Ricardo Ishmael, sem a menor dúvida, cobrirá a volta pra casa daquela multidão de encachaçados e ressaqueados).

Se você considerar que o primeiro milagre do cristo foi numa festa e envolvia cântaros de vinho, dá pra perceber que, um dia, a cristandade há de se sobrar aos ritos de Nazaré das Farinhas.

03/04/10 | Veja mais | 6 comentários;

10 coisas fantásticas para fazer quando se está sozinho em casa.

Companhia é legal, mas sou uma alma solitária por definição.

En español: soy una alma solitaria. Mais dramático.
Soa mais a Thalia, mas é verdade.

Adoro momentos de solidão. Adoro. A-TO-RÓN!
Tenho muitos amigos (talvez mais do que consiga administrar de uma maneira decente sem marcar compromissos que sei que não poderei cumprir), amo minha família e namorada e patati patatá, mas é fantástico poder ficar absolutamente sozinho de quando em quando.

Não entendo gente que precisa viver cercada de gente.
Como diria o mestre Bukowski, parece gente que tem que ficar se coçando continuamente pra lembrar que está vivo.

Daí segue uma lista, absolutamente idiossincrática, de coisas legais pra fazer quando se está sozinho.

Pequenos prazeres. Je suis Amelie Poulain.
Ela enfiava a mão em sacas de cereais, e certamente minha mão vai dar uma passadinha no meu saco para uma coçadinha básica no intervalo que ocorrerá dentre tantas atividades divertidas que proporei abaixo..

1 – Abrir a porta da geladeira só de cueca.

É o primeiro passo: ficar de cueca.
Morei com mamãe muitos anos, mas era guri e vestia o que me mandavam.
Depois com papai e madrasta e irmã e milhares de pessoas, mas aí eu era adolescente e vivia de pau duro, logo só andava de bermudão.
Depois que fui morar só, adulto e pagando conta, descobri que coisa fantástica é ficar de cueca.

Ou nu. Depende da pegada do dia.
De cueca é mais confortável.
Se, someday, eu tiver um filho, ele só vai andar de cueca.
Só vou comprar roupas pro jovem peraltinha quando ele completar uns cinco anos. Até lá, só cueca.

É a minha forma de contribuir com a educação emocional de meu filhote e de garantir que ele seja um adulto pleno de felicidade.

Eu achava que era coisa de gente doente andar nu ou de cueca dentro de casa. Não é. É massa.
Aí você abre a geladeira sem nenhum motivo e toma um “pá” geladinho no meio dos quiba.
Bastante agradável. Sinal de gente independente.
Quem nunca tomou um barrufo gelado no saco não sabe o que é a felicidade verdadeira.

Claro: se você for homem, é bastante pertinente lembrar que, assim, de cueca, você deve andar distante de mesas com quinas afiadas, longe de fogões e coisas que possam vir a prejudicar o seu instrumento de trabalho. Isso sem falar de toda a plêiade de vegetais de duplo sentido (pepinos, cenouras – Mario Gomes feelings – e outras coisas laelísticas – lá ele).

2 – Ficar com fome e inventar as coisas mais escalafobéticas do mundo pra rangar.

Todo cara que mora sozinho só sobrevive à base de delivery.
Mas tem dias que você não tá a fim. Ou tá sem grana.
Aí rola misturar duas coisas completamente idiotas que estejam sobrando em sua combalida geladeira e arriscar.

Acho, inclusive, que a brilhante mistura de salmão cru com cream cheese foi inventada por um brodi solteiro, de cueca e com preguiça de pedir pizza.

Hoje, mesmo, rolou pão ázimo (aquele pão judeu, ignorante) com salsicha.
Não foi de todo mal.
Levando em consideração que judeus não devem, segundo preceitos religiosos, comer carne de porco, a refeição da noite foi uma blasfêmia bem humorada.

Quer dizer: bem humorada para mim. Eu ri enquanto comia.
Se algum leitor deste blog é, como diria eufemisticamente Sílvio Santos, isreaelita, deve estar resmungando mais que aqueles senhores que ficam se balançando em frente ao muro das lamentações, naquela praça de guerra que deve ser Jerusalém.

Realiza, malandragem: fiz tipo um cachorro quente com o pão usado para comemorar o pessach. De certo modo, ofendi os estadunidenses também, ao profanar o hot-dog. Se tivesse Homus (para o povo burro, aquela pasta árabe de grão de bico) e eu tivesse passado a pastinha no hot-dog do Osama (batizei agora) não tenho dúvidas que <ironic feelings> meu amado palacete na mais garbosa cobertura do Alto de Brotas – bairro nobre onde resido, </ironic feelings off> seria bombardeado de maneira truculenta por todos os envolvidos direta ou indiretamente no quiprocó do Oriente Médio.

Você, fatídico leitor, pode me apontar o dedo, dizendo que ninguém liga pro que eu como ou deixo de comer, mas eu insisto em pensar que até comendo pão, trajado de cuecas em minha casa, eu abalo a geopolítica mundial.

Suco de uva Tang acompanha. Azia comendo no centro, mas tá joinha.

3 – Dormir no sofá da sala.

Precisa explicar por quê isso é altamente transgressor?
Confio em sua inteligência.

4, 5, 6 e 7  – ver putaria e libertinagem vídeos educativos no computador que fica na sala sem me preocupar com o volume dos gemidos das palestras.

Oh yeah, baby.

8 – Ler ouvindo música alto até de madrugada

Gooooooood.


9 – tomar café na padaria.

Ok, não se faz em casa. Mas é tipico de morar sozinho.


10 – Escrever no blog

Ok, aqui é uma puxadinha no saco dos leitores.

29/10/09 | Veja mais | 91 comentários;

Coragem é meu nome

Ok, você perdeu seu tempo vindo aqui e vou te brindar com um acepipezinho.
Não vai acostumando. É boa vontade e gentileza, artigo raro por essas paragens.
Vamos ao causo.

Ser um cara frouxo, frango e mané tem suas vantagens.
Noutro dia, um puta engrrafamento.
Uma hora e meia em meia embreagem andando a 5 por hora.
Tudo parado e ouço aquele “bonk”, tipo de plástico amassando.
Olho pra trás e um carro coladinho no meu.

Realiza: no dia, eu passei 4 horas e meia numa reunião.
Daí mais uma hora no engarrafamento. E um filho do cão encosta no meu carro.

Pego um desvio, o cara pega também, estaciona atrás de mim.
Aí a cena: se fosse Jojó da Babá guiando o meu carro, saltaria assim, ó:

“Puta que pariu… Ô, seu filho da desgraça, você não viu que a caralha da pica do meu carro tava na frente do seu não, seu corno? Chibungo, fio dum rói que fuça? Por que não deu uma encostadinha no grelo da puta que te pariu? Ah, já sei porquê: sua mãe está dando a xoxota agora pra poder comprar vitamilho pra fazer mingau pros próximos clientes do porstíbulo, né, viado?”

Assim seria Jojó da Babá.
Jorge Martins desceu do automóvel assim:
“Mas rapaz, que foi isso, hein? Puxa vida…”

O cara todo suado, nervoso, pediu desculpas e tal. Só deu uma arranhadinha de nada, ele me deu o telefone e tal (nem liguei) e tal.
Daí falei:

- Mas bicho, como foi que você conseguiu encostar em um carro parado num engarrafamento?
- Velho, mil desculpas, saí da delegacia já nervoso hoje, daí o cara que tava do lado começou a jogar o carro me fechando. Eu já tava pelas tampas, desviando dele pra não fazer uma besteira. Tô aqui com o sangue quente, já pensou se é outro policial que nem eu, mas doido? puxava a arma, fazia uma miséria que Deus me livre e guarde…

Agradeci à autoridade policial e agradeci aos céus o fato de ser um frango. Não tava a fim de virar peneira. E, além do mais, o que é um arranhãozinho na lata, né mesmo? A dignidade do cabra frouxo que eu sou saiu muito mais arranhada do episódio.

20/10/09 | Veja mais | 11 comentários;

O Romantismo em tempos de crise

Tudo bem, amado leitor, admitamos:
Você é um fodido de pai e mãe e vende o café da manhã pra comer mortadela no jantar.

Assuma que é pobre. Fodido.
Sem verba.
Isento no imposto de renda.
Não é feio.
Ou melhor: é.

mendigo

Mas não tem muito jeito.
Você não tá sozinho nessa.
Tem muita gente por aí pegando ônibus e tomando umas encoxadas da peãozada na volta pra casa.
Ainda tem muita mocinha que se esforça, vai na C&A e compra vestidinho parecido com o da Christiane Torloni na novela.

Tem sim, eu juro: perguntei pra alguns pobres que gravitam à minha volta e grande parte confirmou.
O resto me mandou à merda, o que eu não entendi direito.

Mas eu falava de você, desvalido.
Não tem muito jeito de resolver o treco rapidamente.
Ainda lhe falta, que eu sei, aquela coragem que os marginais têm de meter um berro na cabeça da madame num sinal de trânsito. Ou, quiçá, a habilidade com os pauzinhos (lá ele) pra fazer malabarismo e tirar um troco.

Ou, ainda, se aventurar na seara dos esportes radicais…

Rafting de pobre

Mas não é porque você tem um nome composto de dois prenomes absolutamente incongruentes, como Scheila Viviane, que você precisa se abster de saborear o sabor saboroso e romântico do romantismo repleto de romance.

Jojó é brodi. Vou te dar a manha.

Vai até parecer que você teve berço e é bem nascido na hora de comer gente.
Olha aí a sua carinha no ofurô improvisado, tomando uma chamapnhota…

Piscina de Pobre

Primeiro, não custa te explicar algumas coisinhas: o ritual romântico de acasalamento copulatório compilado neste texto se baseia no ritual fodetivo-copulatório dos ricos.
Com pequenas e restritas adaptações orçamentárias.

Mas a base – e essa é a informação mais importante deste post – é a mesma.
Seu objetivo é meter a vara em alguém.

E tamos juntos nessa. Meu pau agora é o seu pau. Tá tudo em sua mão. É questão de honra.

Uma vez que o objetivo final da coisa é descer a madeira, e pobre, até onde eu sei, também tem caceta e xoxota (não ao mesmo tempo, com exceções a serem devidamente tratadas pelo SUS), muda pouca coisa.

ABREPARÊNTESES: os leitores ricos vão desculpando o linguajar pouco apropriado, mas tenho de me fazer entender com as parcelas mais desfavorecidas dentre os leitores deste blog, de modo que vocês encontrarão algumas expressões chulas, grotescas ou meramente patulêicas neste texto…
FECHAPARÊNTESES.

Como eu sei que você só conhece rico em novela da globo, deixa eu te explicar como é que os ricos se reproduzem.
Não é por cissiparidade. Rico também trepa. Com estilo.

O rico se arruma, se perfuma, pega a nega e leva pra jantar uma ave rara, tipo faisão. Daí, entre vinhos finos e sabores exóticos, a moça começa a se soltar. Daí o casal sai leve como pluma e vai dar uma dançadinha numa boate da moda. Luzes coloridas, jamiroquai comendo no centro e aquela tensão sexual crescendo. Ou então pegam um cineminha (filme francês). Lá pelas duas ou três da manhã, eles saem de lá direto pro apartamento do brodi. Ligam uma musiquinha (aí já vale um sonzinho estilo Diana Krall), tomam um uisquezinho e, na cama extra king size, transam loucamente até o varar (sem duplo sentido) da madrugada.

Gostou, hein?
Quer fazer igual sem gastar essa grana toda? Se ligue:

Faz assim, ó: quando você sair da obra, hoje, finalzinho da tarde, assim que você destrepar de cima dos andaimes, dá uma passadinha no mercado. Compre um sabonete. Tudo bem, eu sei que é foda, não se começa um manual pra pobre mandando comprar nada – nem mesmo um sabonete – mas esse investimento tem duas funções: serve pra higienizar as partes pudendas e também já é um presente pra nega. Quando abrir a embalagem do Phebo, tome cuidado pra não rasgar a embalagem e, deste modo, reutilizá-la no presentinho:

Você vai precisar de:

- Um galeto
- Um garrafão de sangue de boi
- Um CD pirata do Harmoina do Samba
- Papel celofane
- Embalagem de fogão em papelão.

Você é pobre mas não é burro: o galeto serve de faisão. Não tem restaurante porque, ora essa, você é pobre, mas o galeto e duas velas de sete dias compõem perfeitamente o cenário. O CD do Harmonia, com Xanddy cantando “Oceano”, do Djavan, completa o clima.

Aqui você já mostra suas habilidades: arranque com jeitinho uma coxa do galeto e, de maneira sexy, passe sobre os lábios de sua amada. Largue a coxa e imediatamente dê uma passadinha nos cabelos alisados com Kolene da nega. É batata: ela vai ficar de graça. O Sangue de Boi também é bom amigo nessa hora.

De pança cheia, pegue um palito de dente. É sexy. Tem gente que fala que não, mas é mentira: pode espalitar todas as cavidades onde anteriormente havia dentes em sua boca. Se sua nega não curtir isso, é hora de pensar se você quer realmente enfiar a jambreta numa menina tão cheia de frescura.

Importante: não peide. Você não está sozinho num elevador.

Não tem boate, mas você trepa numa cadeira, enrola o celofane na lâmpada e coloca a música “Agachadinho”. E tcharam: temos uma boate. O papelão do fogão você desmonta e faz a super king size. Ou ainda – isso é opcional – você pode pegar aquela versão pirata de “As Brasileirinhas”, pra já ir dando aquela esquentada básica na nega.

É batata: depois dessa, malandro, é caixão e vela preta. Sem trocadilho.
Depois vem aqui e me conta o que rolou.

UPDATE: Depois do ato, você vira pra nega e fala: “pensa que acabou, mãe? olha só!” e tira do cu uma caixa de bombom garoto. “Só separa o it coco pra mim”…

20/08/09 | Veja mais | 22 comentários;

Carnet de notes

Não sou lá um entusiasta de esporte. Não vejo muita graça.

Tirando, é claro, o vôlei feminino.

Mas desconfio que meu maior interesse, mesmo, é em ver aquelas mulheres grandes de shortinho e chachoalhando os peitos em saltitelas.

***

O nome dos peitos femininos é um treco interessante. Seio é quase neutro – ou quase neutro demais. Mama é só coisa de médico.
Peito é comum, mas só soa comum na boca de mulher.
Não o peito, a palavra em si, até porque o peito, em si, na boca de mulher é uma coisa bem interessante..

Na boca de homem, peito sempre tem um aspecto safadinho.
De novo, falo sobre a palavra…
(desligue um segundinho o disjuntor do duplo sentido).

E peitchola, que usei aqui neste blog em mais de uma oportunidade, é o batismo dos peitos pela malandragem.
Não use, nunca, na vida real, com uma mulher.
Aqui cabe, mas só aqui.

Ao vivo, in loco, “peitchola” parece nome de coisa derrubada, e a última coisa na vida que você quer é que a figura perceba que você achou alguma coisa derrubada entre o pescoço e o umbigo dela.

***

Não sei porque homem tem mamilo.
Cabe numa putaria ou outra, mas no geral é de uma inutilidade gritante, como o cóccix vestígio de rabo, os dentes do siso e as unhas do pé.

***

Não entendo, aliás, muita coisa do universo masculino.

Tome-se o churrasco, por exemplo.
Todo homem é entendedor de churrasco no país.
Arme-se uma roda de fusca sobre uns vergalhões e voilá: todo macho vira um Bassi.

Aí tem o cara que praticamente sai da festa pra ficar mexendo de dois em dois segundos no carvão, virando a carne e se achando importante por conta de uma atividade que, na moral, poderia ser bem desempenhada por qualquer analfabeto.

E o orgulho com relação ao modo de acender o fogo?
Aí nego pega pão, embebe de azeite e toca fogo, ou pega garrafinhas de álcool gel, ou jornal (nunca o segundo caderno).

Não sei vocês, mas me dá uma preguiça danada disso.

***

Me dá uma certa preguiça, por exemplo, de gente que entende MUITO de vinho.
Preguiça mental. A física, vocês sabem, é permanente.

Vamo explicar: eu bebo, como vocês sabem.
Talvez mais do que seria recomendável, mas aí é meu estilo destrutivo de viver.

E sou curioso.
Daí fico querendo saber de que é feita a vodka, o gin, o vinho.
E conhecer essas coisas pra beber coisas melhores é válido.

Porém, o verdadeiro conhecimento só vem bebendo.
Você só entende porque o johnny walker black label é bom e o old eight é mijo engarrafado bebendo uma quantidade considerável de um e do outro.
Absolut e Smirnoff: a mesma questão.
Dreher e Osbourne.
Tequila José Cuervo e Tequila corazón (sei lá, inventei).
Os exemplos são infinitos, a depender da quilometragem do seu fígado.

Só que com vinho é diferente. Há uma gradação quase infinita. E o cara acha uma coisa muito chique conhecer em profundidade o treco.

Me explico mal, o texto patina e não sai do lugar. Deixa esclarecer.

Não há mal em se saber das coisas. Nenhum, de fato.
Eu mesmo entendo um pouco do treco. Saber que um borgonha é feito de pinot noir, entender a diferença entre um cabernet e um sirah é básico. Ajuda você a descobrir seu próprio gosto.
Mas meu conhecimento é instrumental. Ele serve pra ser bebido.

Quando alguém, antes de abrir a primeira garrafa de vinho, faz uma dissertação de 20 minutos sobre o terroir da região sul da planície de Grignon, beber aquele vinho se torna uma coisa chata.
Porque você fica obrigado a gostar do treco. E, às vezes, não se gosta.

Eu entendo quem gosta de vinho doce.
Tem gente que faz um escarcéu em cima disso.
Chato.

Tem um tempo: reunimos uma galera de amigos, cada um levou um vinho, conversamos superficialmente sobre a parada e passamos uma noite agradabilíssima.
Não falando sobre vinhos, mas bebendo.
Sem frescura, sem afetação.

A única ocasião, na vida, em que é necessário fazer um monólogo sobre a qualidade de um vinho, é jantando com um sogro tirado a gás com água.
Ele abre um bordeaux, você faz elogios à cultura vinífera dele (do sogro) por uns quinze minutinhos e ganha uma moral.

No mais, legal mesmo é abrir as garrafas e beber.

***

Tecnologia é outra coisa que me dá um enfado assombroso.
Tem gente que enche o saco: “como assim você não prefere um mac?”
Eu tenho um mac. Nada demais.

É um computador.
É bonito e tal, mas é um computador.
Só serve pra se fazer coisas.
Gente que se acha muito especial por coisas que estão fora da alma, pelo local onde mora, pelo carro que dirige, pelo sofá que possui, tem algum problema.

Pode desfranzir o cenho: falei do sofá de sacanagem.
Meu sofá, minha tv, essa coisas todas só valem no sentido de darem conforto.
Não me acho melhor que o cara que tem o sofá com a estampa do bob esponja.

Mentira.
Mas você entendeu o treco (espero): não estou pregando uma vida espartana, sem prazeres imbecis e sem ambição por coisas que proporcionem conforto e tal. Mas as pessoas valem por outras coisas. Sério.

***

Aliás, gente que fica de saco cheio com tudo tamém torra.
Gente que tem de ficar se coçando continuamente pra se sentir vivo.

***

Eu gosto de cinema. E não tenho grandes problemas em ir sozinho ao cinema.
Mas tem gente que sofre com isso.
“Parece coisa de gente derrotada”.
Ou seja: o cara se priva de um prazer fantástico porque, durante 10 ou quinze minutos, alguém na fila vai achar alguma coisa sobre você, sozinho, esperando pra entrar numa sessão às 11 da noite.
Não tenho saco pra gente que pauta sua vida com base na opinião dos outros.

19/07/09 | Veja mais | 13 comentários;

Insônias

Dormi igual a uma pedra.
Isso deveria ser o normal. Mas como durmo acordando de cinco em cinco, isso vira motivo de post.
Comemore. Ou não.
Afinal, não muda nada em sua vida.

30/04/09 | Veja mais | 3 comentários;

Pra mim mesmo

Eu sei que você, hoje, tá se sentindo meio imbecil.
Se sinta mesmo.
Você deu uma puta pisada de bola.
Puta, puta, puta pisada de bola.

Aí ficou chato. Eu fiquei pirado com você.
Mas tudo bem, bola pra frente.

Tem dias que fica foda, mesmo, man.
Melhora.
Creia.

Você continua sendo muito legal, principalmente comigo.

Você me deu um edredon preto, que está sendo de muita utilizade nesses dias em que chove copiosamente em soterópolis.
Você poderia estar em um dos barracos que vêm apostando corrida toda noite. Uma corrida com data marcada, porque o poder público sabia que ia rolar corrida de barraco no dia em que pingasse uma gota d´água em Salvador e nada fez.

Portanto, meu caro e barbudo amigo, creia, poderia ser pior.
Aliás, melhora quando você der o primeiro passo. Termine o post (e o leia amanhã cedinho, antes de ir trabalhar), e vá fazer a barba. Aproveite e corte o cabelo.

Ajuda um monte. Mas não corte o cabelo você mesmo. Não vai ajudar.
Vá naquele lugar caro que nego fala sempre pra você não ir cortar o cabelo, onde tem um shampoo cheiroso e uma nega que vai ficar massageando sua cabeça por duas horas depois de cortar seu cabelo.
É legal.
Aliás, gastar dinheiro que não se tem é sempre legal.

Aliás, faz melhor: saindo de lá, toma um chopp no Ferreiro.
E come uma coxinha de caranguejo. Lá no Salvador Shopping.
Um dia a menos num regime que tende a durar anos não fará toda a diferença.
Mas vai te dar um help quando já que você tá chateadinho.

Chuta tudo pra cima e vá na Bienal do Livro.
Da última vez, você não foi e passou dois anos se recriminando por isso.
Aproveite as oportunidades que a vida dá. São raras.
E, afinal de contas, House passa quase toda noite.

Sai de casa, vai encontrar com gente bacana, dar uns beijos na boca e é nóis.
Eu vou gostar deveras.

E não fica regulando neosaldina nem café.
Você sabe que precisamos disso.

Te cuida, cara.
Você é importante pra cacete pra mim, e te ver tristinho me corta o coração.
Nada que duas neosaldinas não resolvam adequadamente.

23/04/09 | Veja mais | 2 comentários;