Criado Mudo
Uma namorada me disse: não vá morar só.
Você vai se encher de manias. De idiossincrasias. De chatices.
Depois de viver só, você não vai mais prestar pra nada.
Ela estava certa.
Aliás, todas as minhas ex-namoradas tinham um tanto de razão.
Naquele momento do término, aquele momento fatal, elas dizem exatamente o que você precisa saber pra guiar sua vida.
Essa disse que eu não prestaria pra mais nada, e estava correta.
Sou um poço de egocentrismo. Chaaaaato que só.
Um exemplo bobo: peguei a mania chata de não atender o telefone de casa.
Quem quer falar comigo liga pro celular, normalmente.
Se ligou pro número de minha casa, só pode ser:
a) alguém me oferecendo alguma coisa que não quero comprar.
b) gente que não quer falar especificamente comigo, e, portanto, não merece consideração (egocêntrico, lembra?).
c) parente pra passar horas contando problemas que não me interessam.
Corro destes três tipos de pessoas como o diabo corre da cruz. Daí desenvolvi essa mania chata.
Com exceção de minhas irmãs, que vira e mexe me oferecem coisas pra comprar, não querem falar comigo especificamente e passam horas contando problemas.
Mas delas eu suporto. Um pouco.
Mas é por aí. Fiz de minha casa o meu castelinho.
Tudo de um jeito que me faz amar minha caverna demasiadamente.
Outra ex-namorada disse que eu nunca havia me sentido, de fato, confortável na casa dela, e isso influenciava nossa relação.
Ela também estava certa.
Não me sinto bem na casa dos outros.
Desde que tenho minha própria caverna com minhas paredes pintadas e cores berrantes e meus livros e meus cinzeiros e meu lugar no sofá, nunca mais me senti plenamente à vontade em lugar nenhum.
A sorte é que alguns amigos queridos – que frequentam minha casa – também parecem se sentir bem aqui.
Eu entendo muito o bom gosto deles.
Cada detalhezinho daqui foi maniacamente pensado.
Vejam só vocês: os leitores mais antigos daqui acompanharam a epopeia da tv LCD. Passei meses maldizendo a vida, pesquisando, titirrando. O sofá, idem. Meses de pesquisa.
Daí passei um tempo quietinho.
Estava satisfeito com quase tudo.
Daí o comichão voltou a me roer por dentro e passei a achar que eu precisava ter um abajur no quarto (pra ler à noite e tal) e isso implica na compra de um criado mudo, uma vez que não estamos em gravidade zero e abajures não flutuam.
Estou às voltas com a compra de um criado mudo.
Já rodei trocentas lojas. O maníaco do criado mudo.
Nada me agrada.
Uma outra ex-namorada me disse que eu iria terminar meus dias só.
Espero que ela esteja errada.
Mas não chego a me assombrar demasiadamente com isso.
Se ninguém se dispuser a ser uma meia velha para meus pés cansados, sobrarei eu e minhas manias e minhas coisinhas, e elas hão de bastar.
E, obviamente, o criado mudo que comprarei. Este há de me acompanhar por décadas a fio.
E, pensando com um pouco mais de cuidado, a companhia muda do criado e seu abajur, algumas vezes, pode ser bem mais prazerosa que a presença ruidosa de determinadas pessoas.



