Programação de carnaval em Salvador

Dia 01:
- Acordar, tomar duas neosaldinas, abrir uma cerveja, dar a famosa mijada matinal, tomar um caldo de feijão, escovar os dentes e decidir:

1.a) Devo ir pra rua?
1.b) Devo ficar em casa?

Decidindo ir pra rua, abrem-se duas possibilidades:
2.a) pagar um valor escorchante num camarote bunda, ou
2.b) arriscar ser roubado na pipoca.

Decidindo pagar uma grana no camarote, abrem-se duas possibilidades:

3.a) Pensar “porra, vou gastar duzentos conto pra tomar red label e cerveja quente. Desisto”. Daí pego os duzentos contos, compro dois litros de black e volto pra casa. Namorada fica feliz. Eu também, e demonstro isso ficando bêbado dentro de casa. Durmo. Acordo e tá namorada colhendo abóboras no farmville. Eu tomo duas neosaldinas, abro uma cerveja, dou a famosa mijada matinal, tomo um caldo de feijão, escovo os dentes. Namorada vem, me dá um beijo e vem contar coisas que eu fiz enquanto estava bêbado in da house. Eu, no entanto, só consigo me lembrar que, apesar de tudo que rolou, estou de volta à primeira questão: “devo ir pra rua? Devo ficar em casa?”.

3.b) Penso “foda-se, carnaval é uma vez por ano”. Vou pro camarote carão. E, ao invés de ouvir timbalada, vou passar a noite ouvindo psy trance. Todo mundo no camarote tem sotaque paulista, mano, tá ligado? Fico me sentindo um idiota disputando uma nesga da varanda do camarote com uma tia velha, gorda, bêbada e de cabelo azul só pra poder dar um tchauzinho, sei lá, pro Eri Johnson. Aí acho pouco e resolvo ficar bêbado. Depois do terceiro empurrão da tia gorda eu aplico o golpe do cuecão nela. A calçola da tia é, obviamente, bege. Fico fingindo que ninguém viu (vocês sabem que todo bêbado desenolve o magnífico poder da invisibilidade, né?). A tia velha é mulé de um coronel. Namorada fica puta comigo e vai embora. Eu vou preso. Delegacia, tomo meia dúzia de tabefes de um meganha, pago propina, volto pra casa na certeza de que vou levar um corno até a quarta de cinzas. Abro um litro de Jurubeba leão do norte. Durmo abraçado com a garrafa de Jurubeba. Acordo, tomo duas neosaldinas, abro uma cerveja, dou a famosa mijada… Estamos de volta à primeira questão.

Mas aí, digamos que, no segundo questionamento deste post, eu fui esperto e decidi sair na pipoca. Abrem-se duas possibilidades.

4.a) Vou pra pipoca. Sou assaltado assim que desço do taxi. A gente leva 45 minutos andando até encontrar um lugar meio vaziozinho e bacana pra poder ver as atrações. Em cinco minutos, o lugar tranquilinho vira palco de uma batalha sangrenta e mortal entre um vendedor de cachorro-quente e um carinha vendendo cerveja num isopor. No meio da putaria alguém passa a mão na bunda de minha nega. Eu quebro uma garrafa de vodka na cabeça do sujeito. Abre a roda, os puliça ficam me olhando com o caco de vidro na mão. Minha nega, nesta altura, já está chorando e me chamando de assassino. Delegacia. Tabefes. Pagamento de Propina. Volto pra casa e bebo um litro de uísque. Durmo. Acordo, neosaldinas, mijada… De novo, estamos na primeira questão.

4.b) Decido sair de pipoca. Aí vou de carro e tenho de pagar 30 reais pro marginal que se apossou do canteiro central da avenida Garibaldi, que fica a uns 200 quilhões de quilômetros do circuito. Dou 10 conto pro cara e falo “na volta eu acerto com você”. O guardador de carro, basta eu dar meia volta, puxa do bolso do short uma chave e arranha a lateral do meu carro. Namorada estica o braço, pega uma garrafa de vodka e quebra na cabeça do sujeito. Puliça. Propina. Voltamos pra casa e namorada bebe um litro de vodka. Hospital. Soro. Casa de namorada. Volto pra casa e estou, mais uma vez, na primeira questão.

***

Dia 02

Acordo. Tomo três neosaldinas.
O resto é igual.

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E sai o resultado das gostosas do twitter

Bom, vocês acompanharam e sofreram com o concurso e tal.

Muitos me cobraram o resultado.
Mas tive alguns problemas com a comissão limadora.
Em bom português: os caras não se mobilizaram.

Recebi alguns e-mail com endereços de algumas gostosas do twitter, é fato, mas ninguém superou a nossa ganhadora, que, inclusive, fez um ensaio especial para ganhar o concurso.

Alguns, sem dúvidas, reclamarão que houve marmelada.
Eu não descarto a possibilidade, uma vez que a ganhadora é mulé de um dos brodis da comissão limadora e eu, suspeitamente, já havia avisado, em um comentário no blog da ganhadora, que iria mafiar essa bosta pra fazer ela ganhar.

Mas nem precisei: vocês verão abaixo, com seus próprios olhos, que ela tem atributos que dispensam qualquer máfia.

Chega de punhetação:
The winner is…

tcham tcham tcham tcham

Ela! Juju paracundê!
Confira algumas fotos do ensaio matador que ela produziu especialmente para nosso blog, neste momento de glória e regozijo!

Com todo respeito, Pablo, tua mulé tá o barro nessas fotos.
Repare a carinha moleca dela deitada sobre esse monte de pimenta. Sucesso!

Sensualidade é tudo.

Modelos profissionais conseguem manter a mesma carinha de sensualidade em todas as fotos. Impressionante!
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Expectativas

Tantos esperam posts inspiradores deste blog e eu só solto merda.
É o meu estilo.

Vicissitudes diversas não vêm necessariamente de grandes observações relevantes sobre a vida.
Vê como a vida é: agorinha mesmo, minha batata da perna ficou com uma coceirinha.
Cocei, passou.

Assim também são as tentações da vida: se você não procura grandes explicações e as coça com vigor, elas passam.

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O nome dele é Johnnie, sim.

Eu tuíto, ontem de noite, puto:
- Chegando do trabalho AGORA. Meu fds dura 4 horas até eu desabar na cama. #mariadobairrowayoflife.
Não entendo, sinceramente, quem acha que publicitário vive uma vida glamurosa. Se glamour é chegar puto do trabalho, passar no mercado e comprar um garrafa de johnnie walker, so, baby, i´m miss monroe.

Charles Marcelino, canalhinha alcóolatra que já trabalhou na CDLJ, responde.
- A solução não estão nas drogas e cabe a cada um descobrir a sua “solução”. Gastar num johnnie ou analista, ou se entregar a JESUS.

Eu ri.

Johnnie pregava “keep walking”.
Jesus dizia “tomai todos e comei”.

Eu sou um cara que crê.
Mentira.
Mas não gosto de desagradar gente bacana, como Jesus, ou como Zito. Para quem não conhece, zito é o apelido de Johnnie, conhecido nas bocadas como “Joãozito caminador”.

Daí segui ambos:
continuei andando em direção ao bar;
tomei todas (o que é uma leve licença poética em relação à ordem de Cristo) e comi.

No caso, um tempurá joinha.
Mas poderia ser gente.
Tamo na rua, afinal, pra negócio.

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Pequenos pensamentos esparsos

Pequenos pensamentos esparsos.

***
Sílvio Santos botou a Maísa lá pra chorar, e agora o Ministério Público tá apurando o fuá porque a menina está exposta a maus tratos.
Ok. Tudo certo.
Palmas pro MP.

E antes?

Antes ela era uma menina que ganhava 20 paus por mês.
E todo mundo achava engraçadinha.

Agora, se ela crescer e começar a fumar maconha e dar a xoxota adoidadamente, a culpa é de Sílvio.

Era menos exposição o pessoal do pânico fazendo “Malisa, a menina monstro”?
É menos exposição a quantidade assombrosa de vídeos no you tube, piadinhas, coisinhas e tudo o mais?

Velho, Criança é coisa séria.

Nunca achei muita graça naquilo. Sempre achei escroto com a menina.
Colocar a menina na selva cedo.

Não pode ser legal.
Se fosse meu sobrinho Lucas, eu estapearia minha irmã, Marcelo e tantos quantos tentassem se interpor na história.
Lucas dança arrocha e faz piada e fala merda em casa.
Com a gente.
Aí pode.

Pegar os vídeos dele dançando merda (que são gravados só pra mostrar pra ele mesmo quando ele crescer – e pra ele morrer de vergonha) e botar no youtube pra ganhar dinheiro, pra mim, é tão foda pra cabeça de uma criança quanto um abuso sexual.

E não exagero.
A maior chaga que carrega uma criança abusada é, sem dúvidas, o psicológico do treco.
Por isso, voltemos à Maísa.

Nunca assisti àquilo com muito entusiasmo, sempre achei meio asqueroso botar a menina pra fazer milhões de macaquices pra nego dar risada.
E agora me emputece a tiração de onda da classe média porque o Sílvio botou a menina pra chorar durante uma apresentação.

Onde tá a mãe dessa menina? Se o Sílvio tem culpa, a mãe dessa menina merecia uma surra de gato morto, até o gato começar a miar.

Faz favor: pau que dá em chico dá em francisco.
Vamos nos indignar, ok, mas coerência é parte do processo, não?

***

Aí a Fast Shop errou uns preços lá no site, uns povos compraram coisas e agora a Fast Shop não vai entregar. O fuá é recente, ninguém sabe em que pé vai dar.
O povo alega pro código de defesa do consumidor, diz que a loja “tem porque tem” de entregar macbooks a 10 reais.

Não vai dar em nada. E nem tinha que dar.

O código existe pra preservar o direito do povo.
Pra impedir que você veja uma propaganda e vá na loja comprar e o cara fale “ahahahaha. Otário. Mentira, o preço é tal”.

O código presume, também, e isso ninguém fala, que todas as relações comerciais são balizadas por “boa fé”.

Traduzindo em bom português:
Eu quero comprar a parada e não quero te foder.
Você quer vender e não quer foder com meu time. Só quer foder o meu Visa.
(a brincadeirinha com o Visa é porque eu não consigo evitar. Mas o assunto é sério).

As relações comerciais são balizadas pelo bom senso, pela boa vontade das partes.
Ninguém comprou positivo de 999.
Só macbook.
Só vaio.
Só TV full HD.
E vem posar de santa puta.

“Ah, mas anunciou, o consumidor não tem como saber”

É, darling?
E só tinha macbook por 9,99?
Não tinha prancha cerâmica não?

O povo tentou dar um golpe.
É justo e lícito pra quem acha que é bacana.
Problema de quem acha.

Não sou palmatória do mundo, mas eu, em meus valores éticos e dentro daquilo que eu acredito que é melhor pra mim enquanto ser humano, não faço.
Nem fodendo.
Nem dvd pirata eu compro.
Eu acho escroto.

Daí o povo com síndrome de comunista senta a pua.
“É isso mesmo: vamo comprar pra quebrar a Fast Shop. Os caras ganham muito dinheiro”

É o que eu chamo, com certa tristeza, de inveja do sucesso.
A síndrome do caranguejo.
Coloca uma corda de caranguejo no pé de uma cortina. O primeiro que começar a subir será puxado pra baixo.

A gente, o Brasil, não admite que alguém esteja se dando bem.
Como se fosse uma vingança contra o fato do povo ganhar dinheiro.
Aliás, no país, quem ganha dinheiro tem vergonha de falar.
Tem medinho de soar arrogante.

Como se ganhar dinheiro estivesse necessariamente vinculado a ser desonesto.
“Ah, comprou uma tv LCD. Deve sonegar. Não paga aos funcionários”.

Some-se a isso um sistema moral profundamente ligado à culpa católica e voilá: somos nós.
Quem tem uma empresa honesta “tem de ser quebrado”.
Quem ganha dinheiro “é desonesto”.

Eu acho que a Fast Shop deveria abrir um processo contra todo mundo que tentou dar esse golpe.
Pra ver se o povo acorda.

Mentira. Aí exagerei.
Mas, tipo: vamo baixar a crista, pessoal-do-golpe. Vocês tentaram ser espertos e não deu. Fica de boa.

Quando a gente culpa os políticos pelo país, a gente esquece que eles agem exatamente como nós agimos.

***
Acordei lembrando desses versos

Auriverde pendão da minha terra
Que a Brisa do Brasil beija e balança

É Castro Alves, anta. Filou essa aula, hein?
Mas dava um samba, dava não?

***
Sábado é casamento de um grande amigo.
Fui tirar o terno do armário.
Eu trabalharia de terno e grava todo dia, se salvador não fosse esse inferno dantesco que é.
Eu curto.

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Aventuras do gordinho bandido

Eduardo Sales Filho, proprietário deste blog, chefe de cozinha, professor universitário, diva do Twitter e instrutor de ritmos latinos, como salsa, lambada e merengue – sobretudo quando o merengue vem acondicionado numa bacia de leite condensado, acompanhado de uns moranguinhos – me convidou gentilmente para inaugurar essa seção nova do novíssimo (e muito mais bacana) Papo de Gordo. Eu, sendo gordo e saidinho, fiquei feliz em conversar com gente nova e aparecer por aqui. Mas o problema era o tema…

Assim começa o guest post que escrevi especialmente pro papo de gordo, de meu amigo Dudu. Lê o resto lá, abestado!

Daí você, proprietário de um blog decadente e mal-visitado (não é o caso do Eduardo, que ganhou como melhor blog de saúde do país no Best Blog Brasil e tem um podcast cult), deseja também ter um post meu no seu blog.

O que fazer?
A QUEM SUBORNAR?

Ficou fácil, danadão!
tah dahhhhhhhh!!!!!
É só pedir.

E aguardar.
Dudu aguardou e não me cobrou e ganhou um.
E o assunto tinha a ver.

Claro que eu, do alto de minha sapiência assombrosa, posso escrever sobre uma plêiade de assuntos imensa, incluindo fusão nuclear e casamento de ciganos, mas vocês, que me acompanham, sabem que meu talento reside mesmo em escrever merda, daí, se precisar foder com seu blog, você já sabe a quem recorrer.

E, se você tiver um post bacana que queira compartilhar com nossa nobre e estrepitosa audiência, manda, ué.
Se for bom, eu publico.
JURO. Sem comentar nadica.

Nesse esquema daqui, né: coisas irritantes, provocativas e considerações escrotas sobre a vida. Veleidades, vicissitudes, idiossincrasias e bobagens. Mas o bom mesmo seria receber respostas a posts que te ofenderam mais profundamente neste blog.

Eu acho tão engraçado gente que se ofende porque me levou a sério!
A-do-ro!
Eu adoro um bate-boca sem sentido, principalmente quando a parte que “ganha” não ganha nada.

Também valem pedidos sinceros de casamento ou de dinheiro emprestado, a juros camaradas – agiotagem com classe é uma área que dá muito retorno no país deste operário-presidente-cotó de merda que vocês (eu não) colocaram na cadeira de chefe.
Daí, abençoado, o espaço tá aberto.
Porque Deus é amor, mas é justiça!

E assim, vamos fazendo uma blogosfera mais humana, mais feliz e devotada ao próximo e à mulher do próximo, sobretudo quando este está distante.

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Acordei de novo agora

Mas vou voltar pra cama.
Foi bom paca. Mas pode ser melhor.

Comentando um comentário de Lila, minha irmã, sobre o último post.
“O seu post foi tão agressivo, tão ‘comunista’, que nem parece discurso seu. Aliás ultimamente seus posts têm sido agressivos ou depressivos. Estou preocupada contigo bebê!”

Ela me conhece.
Eu tenho dormido mal, como vocês têm acompanhado.
Eu tive problemas sérios na empresa.
Mas depois de dormir um monte acordei melhor.

Não precisa se preocupar, liu. Nem vocês, leitores.
O próximo post será sobre os ursinhos carinhosos.

Só não me chama de comunista. COMUNISTA?
Eu não sou fã de comunistas. Assim como padres católicos, eles comem criancinhas.
Eu prefiro adolescentes de 16 ou 17 anos lambuzadas de Nutella.

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São 3h40 am.
Trabalho em cinco horas.
Tive um pesadelo e não consegui dormir mais.

Tomei uma taça de vinho branco e fiquei com azia.
Merda.

Este é um momento perfeito pra escrever um post filosófico e sensível.
Sobre a passagem do tempo, sobre a vida, suas vicissitudes, veleidades e idiossincrasias.

Tudo bem, eu consigo fazer isso. Um mini conto.
Um post sem uma única ironia.
Lá vai.

Esquece.
A vida sem ironia não vale nem um post insone.

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Xóin

Tem dias que dá.
Tem dias que não dá.

Hoje eu tô xóin.

***

Mainha fez temaki.
A casa encheu e foi legal.
Amo tanto tanta gente que é legal ver as pessoas vindo aqui em casa por livre e espontânea vontade.
Mas era dia para ver filmes tristes comendo brigadeiro de panela.

***

Oremos.

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Pensando nas palavras

Eu sou uma pessoa cuidadosa com as palavras.
Mas tem umas coisas que eu penso, sério, e que preciso compartilhar com vocês.
Não me chamem de maluco.

***

Não entendo porque tanta gente escreve cu com acento. Não assenta.
Cu é liso. Sem acento.
É que nem o coco. Nego bota acento no “côco” pra diferenciar de “cocô” mas, para mim, o coco com acento é muito mais próximo da merda que o coco nu, sem acento.

***

Ou então nego escreve “vai se fuder”.
Eu acho muito mais bacana mandar alguém se “foder”.
Sonoro, aberto!
Quando alguém escreve “vai se fuder”, para mim, o que fica é um tentativa de menosprezar a expressão, de trazê-la para o chulo, de subordiná-la ao nível da patuléia.
Como se mandar alguém “se foder” fosse mais sério do que mandar alguém “se fuder”.
De certo modo é, mas prefiro, nesse caso, a grafia correta e etimológica dos palavrões.

Sim, porque eu sei a etimologia da palavra foder.

Foder vem do verbo “embainhar”.
Enfiar a espada na bainha.
Daí o tempo passou, ninguém mais anda enfiando espadas em nenhum tipo de bainha, mas o povo continua se fodendo.

***

Do mesmo modo, “caralho” era aquela paradinha que fiicava na ponta do mastro dos barcos onde um carinha ficava para ver se havia navios piratas chegando.
Logo, quando você manda alguém pra casa do caralho, há um sentido nisso.
Mas não sou um esnobe. Normalmente prefiro a norma, nos casos em que citei.
Já acontece o contrário com outras expressões.

***

“Viado” soa melhor que “veado”.
Quando alguém fala veado, só lembro das Brumas de Avalon, quando Artur se veste de Gamo Rei e parte pra cima da Morgana.
Traduzindo para a patuléia que não leu os livros: Artur se veste de veado e vai pro mato caçar Morgana, num ritual maluco de prova de virilidade lá dele. Depois descobre que a Morgana era sua irmã, mas aí já tinha enfiado a vara nela e a porra empena. O que se depreende disso é que o veado, em quase todas as culturas do mundo, é um símbolo de masculinidade. O cervo, o gamo, a corsa. Só aqui na Terra papagalis e no desenho da Disney a porra empenou e o veado é sinônimo de gay.

***

Escrevendo o post e lendo, pensi nisso aqui:
Pegue a mesma frase daí de cima e tire do contexto:
“Artur se veste de veado e vai pro mato caçar”, e você logo imagina um cara vestido como o Rodrigo Santoro em 300 numa rave gay catando os bofes.
É estranho isso.
O pior não é nem a associação. É como uma palavra vira palavrão e isso é homofóbico e a gente nem nota.
“Fala, viaaaaaaaado!” é, provavelmente, o modo como eu mesmo cumprimento, sem nenhuma maldade consciente, a maior parte dos meus grandes amigos. O discurso oculto e homofóbico subjacente é claro, mas você só se dá conta de que é um comportamento reprovável quando você se bate com um brother que é, de fato, gay, e fica com vergonha de fazer a mesma brincadeira.

***

É que nem a expressão “neguinho”. É racista.
Porque nunca o neguinho faz a parada correta, repare.
A frase é quase sempre assim:

“Neguinho gosta de se exibir, mas eu sou discreto”.
“Neguinho bebe pra caralho e depois finge que esquece as coisas”.
“Neguinho adora criticar, mas eu sou uma pessoa legal”.

Eu uso demais o “neguinho” em frases do tipo, no sentido de dizer que “o outro”, alguém que não sou eu, o errado, o vacilão, fez alguma coisa e eu não fiz, sacou?
O neguinho é o estranho, o estrangeiro, o outro, aquele que não sou eu, aquele que não somos nós.
E assim se alimenta um preconceito subjacente.
As palavras têm (e, pra mim, “têm”, mesmo como a reforma ortográfica) uma puta força oculta.

***

Boceta é estranho e buceta é pior ainda.
Xana é coisa de sacana, se fala sibilando.
Grota é coisa de conto erótico peba.
Vagina é técnico, vulva é a puta que te pariu e os outros nomes não lembro, mas a xoxota é um termo com muitos sinônimos.

Prefiro xoxota.

Porque xoxota se fala de boca cheia. Às vezes, literalmente.
Não consigo enxergar essa apalvra como uma coisa chula.
Sempre que leio “boceta” lembro de um conto do velho Machadão em que ele fala sobre alguém que andava com uma caixinha de rapé e de vez em sempre “tamborilava na tampa da boceta de rapé”.

Imagine-se, imaginativo leitor, tamborilando na tampa de uma boceta.
Não tem lá muita graça tamborilar na tampa, uma vez que, em frente a uma boceta, seja de rapé ou seja da Nega Isabé, da música do Caymmi, a graça mesmo está em destampá-la.

Imagine-se, imaginativa leitora, com um filho da puta tamborilando na tampa da SUA boceta. Deve ser dolorido.

***

Alguém, não lembro quem, disse que as palavras são como pontes frágeis rumo ao significado.
Se você passa por cima delas rapidamente, você chega ao outro lado.
Mas se você se demorar sobre elas elas desabam.
Desde pequeno, quando aprendi a ler, uma das coisas que mais gosto de fazer é olhar para uma palvra impressa até o momento em que ela se descola do seu significado e vira só um desenho bonito sobre o papel branco. Adoro fazer isso.
Sou só eu que sou maluco ou alguém mais já sentiu como se as palavras, depois de observadas intensamente, perdessem o significado?

***

Sou publicitário, como vocês sabem, ou como minha pretensão me faz pensar que vocês saibam. E sou diretor de arte.

Uma das coisas mais fodas da profissão é nome de cor.

Cliente chega na agência falando que quer uma parada “bege clarinho” e cada um na criação tem uma cor específica que considera ser o bege clarinho. Ninguém se entende.
Mulheres enxergam cores e definem mais tonalidades do que homens. Se uma mulher olhar pra uma piscina e disser que é verde, eu acredito. Se um brodi falar também, eu duvido.
Isso sem falar em nomes de cores que são absolutamente afrescalhados, como fúcsia, alabastro, grená, magenta.

E sabe o que realmente me incomoda: será que o que eu chamo de azul será o mesmo que você enxerga como azul. De repente, o que eu nomeio de “cor-de-abóbora” é o que você entende como azul. Já pensou que piração seria entrar em sua cabeça e ver o mundo com as cores que você vê?

***

Eu conheço o nome das fontes de olhar pra elas.
Não é dom, é treino, faz parte de meu trabalho.
E daí lá na agência todo mundo vive me consultando a respeito das fontes com que as coisas são escritas.
Uma ex-namorada minha confessou que tinha viagens desse tipo. Para ela, cada palavra tinha uma cor. Ela imaginava as palavras coloridas. Eu não imagino a cor das palavras, imagino suas fontes.

E assim passávamos muuuuito tempo juntos, ela dando cores pras palavras e eu as imaginando eem fontes manuscritas, góticas.
Não sei se ela pensava mesmo que as palavras tinham cores ou se ela inventava as cores à medida que eu ia pedindo para que ela me dissesse a cor das palavras “abajur, tangerina, rinite”.
Mas essa era uma das coisas mais apaixonantes nela.

***

Como vocês sabem, adoro onomatopéias.
Smack, cabum, nheco, ploft, póin.
Sempre imagino onomatopéias como explosões de histórias em quadrinhos.

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