Silvanoca, amiga de muito tempo e colega de trabalho, no outro dia, largou a lera que se segue.
A gente brinca um monte.
Eu fui estagiário dela. Hoje rachamos contas diversas.
E brigamos todo dia.
A gente se estressa porque eu espero que ela seja o melhor atendimento do mundo, e ela só se contenta quando vê em mim o melhor diretor de criação que uma agência já teve em toda a existência das agências de publicidade desde o big bang.
Somos arrogantes, egocêntricos, irônicos, ultra-bem-informados, modestos (isso salta aos olhos) e não temos pena de descer o cacau no trabalho um do outro, daí o stress.
O nível de cobrança é alto como nos melhores lugares onde se produz propaganda no mundo. Ou baixo, depende do ponto de vista.
Sempre que eu ligo pra ela (e a gente se fala umas quatrocentas vezes por dia) e ela não reconhece minha voz e pergunta assombrada “quem é”, eu sempre respondo “seu macho, mulher” com um sotaque entre o gaúcho e o curitibano, e ela dá uma gargalhada.
De modo que falo “seu macho, mulher” (gaúcho mode on) umas duzentas vezes por dia.
Ela é meio avariada do juízo.
Ela nunca reconhece que sou eu.
Menos DDA: vamos ao post.
No outro dia, lá na agência, falávamos sobre uma conta que estávamos prospectando.
Tem tempo. E, só pra constar, ganhamos a conta depois.
- Você é um sedutor!
- Eu? (fingindo modéstia). Sou nada, sou um cara pá e plis…
Ela me explicou. Se liga na sutileza e na pertinência do raciocínio:
- Sério. Não tô falando no sentido sexual da coisa, não, seu anormal. Ou melhor: com isso não quero dizer que isso não ocorra em outras áreas de sua vida, mas é um traço de sua personalidade. Seu olho brilha quando tem concorrência, quando a gente tá prospectando, quando tem que dar uma palestra em algum lugar. Quando tem de apresentar uma peça pro cliente. Voce curte isso: convencer, dobrar pessoas. De vencer em esgrimas verbais. Você gosta é da caçada. Do gosto de sangue na boca, da presa recém abatida, do troféu.
- Eu? (já sério).
- Sério, Jorge, é um componente seu. A forma como você fala, como você se expressa, o jeito como você coloca as expressões. É o tempo todo uma caçada, uma insinuação, umas sutilezas. Ninguém nunca te disse isso?
- Nunca, Sil. E já fazem 28 anos que eu perambulo por aí.
- Ah, meu filho, desde quando você entrou lá na agência antiga eu via isso. Você era um menino ainda e eu já via isso.
Obviamente é uma coisa carinhosa de uma amiga que convive, proximamente, há vários.
Mas muito disso é verdade.
Não é um post pra eu dizer “ó, jesus, eu sou a bolacha do pacote”.
Mas pensei muito sobre isso e é um componente meu.
Competitivo. Agressivo. Persuasivo.
Eu gosto de ganhar.
Eu gosto da caçada.
Eu não gosto do que vem fácil.
Ao mesmo tempo, eu me desinteresso muito facilmente por troféus já conquistados.
Eu tô pensando no próximo.
E isso é uma coisa horrível de se dizer.
No outro dia, Lila, my big sister, viajou, e fui com meu cunhado ver o Wolverine.
Aliás, Marcelo é mais que um cunhado: é um brodão.
Na saída, tomamos umas cervejas, conversamos sobre diversas coisas e comentei como vinha pensando nessas coisas ultimamente.
Não quero mais colecionar troféus.
Ele, surpreendentemente, me disse que esse era um traço de minha personalidade que ele e Lila já haviam notado em mim, e que se preocupavam com isso porque me amam e tal e não querem que eu passe por dificuldades por conta disso.
As pessoas conhecem você de uma maneira melhor que a gente possa imaginar.
É um traço forjado a facão em minha personalidade.
Vencer.
Convencer.
Ganhar.
E, de certo modo, me desinteressar.
Quer me manter motivado?
Mantenha qualquer coisas como um objetivo inatingível.
Coloque os obstáculos do caminho como pedras irremovíveis.
Eu só vou sossegar quando eu ganhar.
É incrível como isso, essa característica, é um fator determinante em minha vida. Quase todas as grandes decisões que eu tomei na vida foram determinadas por essa competitividade exacerbada.
Como isso se mostra claro em diversos relacionamentos que eu tive, em namoros.
Profissionalmente, nem se fala.
Tô numas de ser uma pessoa melhor.
Venho mudando muita coisa dentro de mim. Revirando gavetas e colocando papéis em seus devidos lugares.
Lutar contra esse gorila da arrogância, que pesa 400 quilos e vive no meu sótão, é um dos passos.