Um questionamento filosófico

Ok, o big brother é uma bosta.

Mas não entendo, de verdade, quem fica indignado com o treco.

Bastaria mudar de canal, não?

Mas não: é necessário apontar o dedo, chamar de baixa cultura, etc, etc.

É como naquela velha anedota: saber que o Henrique VIII separou da mulher lá na Inglaterra e fundou a igreja anglicana é história. Saber que o Charles separou da Diana, ou que a Diana tava dando pra sei-lá-quem é fuxico, coisa de gente desocupada.

Gente que se esforça em parecer inteligentezinha o tempo todo me cansa.

Parece que essa galerz vive ouvindo Mozart e assistindo discovery channel, quando na verdade tá vendo os peitos da Jennifer Love Hewitt em Ghost Whisperer.

Se é na tv a cabo, pode ver merda. Se é na tv aberta, chuta-se, cospe-se, esculhamba-se o treco.

Pensamentinho de colonizado da porra.

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E termina nossa primeira enquete

Surpreendentemente, a opção que venceu foi a “bocó é a puta que te pariu”. No início, a opção “viadagem: do jeito que tava, tava bom” disparou. Mas a lei de Jorge agiu e vocês queriam me mostrar que eu tava errado.

Claro que o que realmente interessa foi que algumas almas, as quais presumo femininas, responderam “tão bom que eu tô pensando em te dar uma besteirinha”.

Com relação ao resultado da enquete, fui entrevistar a pessoa mais interessada no processo: minha mãe, chamada de puta pelos senhores. Segue abaixo um recadinho dela para vocês:

“Eu nunca pensei, do alto dos meus 58 anos, ser chamada de mulher fácil. Mas eu desculpo porque é a carência dos jovens hoje em dia”.

O que pode ser traduzido por:
“Bocó é sua mãe. Eu sou phyna”.

E começa uma nova enquete, tão relevante quanto a anterior. Envolve frutas, crianças e o post anterior. Respondam.

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Manual de sobrevivência hepática

- Quando uma amiga liga do mercado dizendo que achou uma garrafa de tequila baratinha, que vai comprar e jogar a tampa fora e tá aguardando você chegar, fique em casa assistindo Discovery Channel.
- Quando o povo te chamar pra uma festa estranha com gente esquisita que bebe coisas esquisitas, decline educadamente.
- Quando, antes de sair de casa, você fica na dúvida se vai de carro ou se pega um taxi porque tem a certeza de que vai se embriagar, desista das duas opções. Mais uma vez, o Discovery Channel é uma ótima opção.
- “A gente desce pra ver a parada, fica gritando pro povo ‘fecha, fecha, fecha‘ e as bichas arrasam”. Quando o principal argumento pra você ir é pra uma festa é esse, pense antes de ir.
- Quando um brodi pega um lençol e faz uma homenagem a Michael Jackson, é hora de ir embora.

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Deu na CNN, no TMZ, no LAtimes: Michael Jackson morreu.

Esse blog tem pitadas de humor negro, por isso não faremos piadinhas sobre a morte de Michael Jackson.

Alguns podem até falar que michel jackson morreu e, supreendentemente, quando chegou no céu, chamou o menino jesus pra assistir um filmezinho num quarto reservado. Outros brincam que os anjinhos barrocos tão andando com a bunda encostada na parede, uma vez que Michael Jackson, antes de morrer, era chegado. Os mais espevitados dizem ainda que é comum a morte por ataques cardíacos em senhores negros com mais de 50 anos, o que não é, claramente, o caso de Michael, mas há também outros, mais precavidos, que dizem que há fortes boatos de que o Micheal Jackson, bad que só, foi visto ensaiando passinhos com os zumbis.

Mas este blog não falará nada.
Michael Jackson tinha a manha.

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Conquista

Silvanoca, amiga de muito tempo e colega de trabalho, no outro dia, largou a lera que se segue.
A gente brinca um monte.
Eu fui estagiário dela. Hoje rachamos contas diversas.

E brigamos todo dia.

A gente se estressa porque eu espero que ela seja o melhor atendimento do mundo, e ela só se contenta quando vê em mim o melhor diretor de criação que uma agência já teve em toda a existência das agências de publicidade desde o big bang.
Somos arrogantes, egocêntricos, irônicos, ultra-bem-informados, modestos (isso salta aos olhos) e não temos pena de descer o cacau no trabalho um do outro, daí o stress.
O nível de cobrança é alto como nos melhores lugares onde se produz propaganda no mundo. Ou baixo, depende do ponto de vista.

Sempre que eu ligo pra ela (e a gente se fala umas quatrocentas vezes por dia) e ela não reconhece minha voz e pergunta assombrada “quem é”, eu sempre respondo “seu macho, mulher” com um sotaque entre o gaúcho e o curitibano, e ela dá uma gargalhada.
De modo que falo “seu macho, mulher” (gaúcho mode on) umas duzentas vezes por dia.

Ela é meio avariada do juízo.
Ela nunca reconhece que sou eu.

Menos DDA: vamos ao post.
No outro dia, lá na agência, falávamos sobre uma conta que estávamos prospectando.
Tem tempo. E, só pra constar, ganhamos a conta depois.

- Você é um sedutor!
- Eu? (fingindo modéstia). Sou nada, sou um cara pá e plis…

Ela me explicou. Se liga na sutileza e na pertinência do raciocínio:

- Sério. Não tô falando no sentido sexual da coisa, não, seu anormal. Ou melhor: com isso não quero dizer que isso não ocorra em outras áreas de sua vida, mas é um traço de sua personalidade. Seu olho brilha quando tem concorrência, quando a gente tá prospectando, quando tem que dar uma palestra em algum lugar. Quando tem de apresentar uma peça pro cliente. Voce curte isso: convencer, dobrar pessoas. De vencer em esgrimas verbais. Você gosta é da caçada. Do gosto de sangue na boca, da presa recém abatida, do troféu.
- Eu? (já sério).
- Sério, Jorge, é um componente seu. A forma como você fala, como você se expressa, o jeito como você coloca as expressões. É o tempo todo uma caçada, uma insinuação, umas sutilezas. Ninguém nunca te disse isso?
- Nunca, Sil. E já fazem 28 anos que eu perambulo por aí.
- Ah, meu filho, desde quando você entrou lá na agência antiga eu via isso. Você era um menino ainda e eu já via isso.

Obviamente é uma coisa carinhosa de uma amiga que convive, proximamente, há vários.
Mas muito disso é verdade.

Não é um post pra eu dizer “ó, jesus, eu sou a bolacha do pacote”.
Mas pensei muito sobre isso e é um componente meu.
Competitivo. Agressivo. Persuasivo.
Eu gosto de ganhar.
Eu gosto da caçada.
Eu não gosto do que vem fácil.

Ao mesmo tempo, eu me desinteresso muito facilmente por troféus já conquistados.
Eu tô pensando no próximo.
E isso é uma coisa horrível de se dizer.

No outro dia, Lila, my big sister, viajou, e fui com meu cunhado ver o Wolverine.
Aliás, Marcelo é mais que um cunhado: é um brodão.
Na saída, tomamos umas cervejas, conversamos sobre diversas coisas e comentei como vinha pensando nessas coisas ultimamente.

Não quero mais colecionar troféus.

Ele, surpreendentemente, me disse que esse era um traço de minha personalidade que ele e Lila já haviam notado em mim, e que se preocupavam com isso porque me amam e tal e não querem que eu passe por dificuldades por conta disso.

As pessoas conhecem você de uma maneira melhor que a gente possa imaginar.

É um traço forjado a facão em minha personalidade.
Vencer.
Convencer.
Ganhar.
E, de certo modo, me desinteressar.

Quer me manter motivado?
Mantenha qualquer coisas como um objetivo inatingível.
Coloque os obstáculos do caminho como pedras irremovíveis.
Eu só vou sossegar quando eu ganhar.

É incrível como isso, essa característica, é um fator determinante em minha vida. Quase todas as grandes decisões que eu tomei na vida foram determinadas por essa competitividade exacerbada.
Como isso se mostra claro em diversos relacionamentos que eu tive, em namoros.
Profissionalmente, nem se fala.

Tô numas de ser uma pessoa melhor.
Venho mudando muita coisa dentro de mim. Revirando gavetas e colocando papéis em seus devidos lugares.

Lutar contra esse gorila da arrogância, que pesa 400 quilos e vive no meu sótão, é um dos passos.

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Uma decisão difícil

Vou colocar um cadeado no computador aqui de casa.
Sério.

Ou então fazer que nem o gmail: vai abrir um pop up, depois das 10 da noite, dizendo assim:

- Olá Jorge. Você quer acessar a internet, né, seu cachaceiro?
Responda à seguinte questão: qual a raiz quadrada de 2048?
Você tem dez segundos para responder.

E aí eu falaria “puta merda”, escreveria na caixa de diálogo da resposta “sua mãe, computador”, dava um tapa na tela e iria dormir.

Mas não: eu chego, tá tudo funcionando e eu vou pro fight.

Respondi um e-mail de uma lista de discussão que participo no melhor estilo Borat:
“Great success. I like it!”.
Imagino o susto de gente que recebe um e-mail escrito em indian english.
Leia o “great success” como um sul-africano falaria “I could kill you, I could kill them all”:
ai quíliu, ai cu quíu dem ol.

Aprendi a falar indian english com uma ex-namorada.
Ela era engraçada falando essas coisas.

Mas voltemos à vaca fria.
Eu agora dei pra fazer essas coisas: chegar tonto da rua e querer escrever post.
Aí tenho de acordar cedão e vir e apagar.
Com dor de cabeça.
Na bancada acabou a neosaldina, o que é um sinal de que o dia será duro.

Ontem mesmo escrevi uns trecos… putz, vergonha total.
Apaguei na hora que acordei hoje sem dó.
E ontem eu tomei umas cinco cervejas só.

Vou fazer uma revelation procês.
É triste, gente, mas eu desacostumei de beber.
Medo de blitz. E, de certo m0odo, falta de vontade.

Já vejo as lágrimas nos olhos de Maradona.
Pros desinformados, Maradona é o nome de todos os garçons dos bares do centro da cidade (eu, pelo menos, chamo todos de Maradona, ninguém nunca reclamou).

No outro dia foi pior: tomei três cervejas e, ao chegar em casa, obviamente vim pro comps. Recebi um tweet do submarino e tava rolando uma promoção das brumas de avalon. Bêbado pra avaliar de maneira suficientemente adequada se valia a pena ou não comprar quatro livros ambientados num tempo da história que eu detesto, resolvi comprá-los. Aí achei pouca a queda e clamei pelo coice: comprei também uns livros que, realmente, vou te contar, malandragem…

Tudo bosta.

Olhando hoje a página de pedidos do submarino, me pus a imaginar o que me fez achar que um livro de actioscript melhoraria minha vida.
Comprei também o retrato de dorian gray. De Wilde. Que já li.

Tava 10 conto. Achei que valia a pena tê-lo de novo comigo.
O que é uma idiotice. Vou relê-lo e achar chato.
Adolescente eu li o alquimista e achei bom. Pra você ver, cumadi, como eu era uma pessoa com problemas.

De modo que eu tenho a opção da senha.
Ou a opção de nunca mais beber.
Não parece uma opção, eu sei.

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Sobre o último post

Claro que não convenci no papel de machão. Não é a minha mesmo. Acho que a gentileza, a delicadeza, a educação e tudo o mais são valores essenciais do homem moderno. O cara que dá, como eu disse, três peidos e dois arrotos e cata a nega é um animal.

Detesto ter de explicar provocações, e o post anterior é claramente uma provocação, mas recebi um comentário em que era xingado pra cacete – que não quis publicar. No lance, o cara dizia que eu era preconceituoso, homofóbico e outras vinte coisas, o que não poderia estar mais longe da verdade. Dizia que meu post era preconceituoso com homossexuais (não vejo onde, sinceramente) e que patati patatá.

O post fala que um cara, em específico, na hora de montar na lambreta – como já dizia o chiclete com banana – amarela. Não é que o cara broxa nem nada: o cara fica se remoendo em dúvidas e aflições e corre do esquema. Comentei com minha amiga que o cara poderia ser gay – e é verdade. Porque não poderia?

Mas não se pode falar nada disso hoje em dia que você é crucificado na mesma hora.

Eu até meio que entendo.
O movimento gay lutou e luta muito pela aceitação. A política de tolerância zero com qualquer coisa que cheire a preconceito é um reflexo.
Mas perder o bom humor não dá. NÃO DÁ.
Perder o bom humor é viadagem.

E sempre vai ter alguém pra ler a última frase como preconceituosa.

Não vou remover o post anterior por vários motivos: os amigos riram, eu ri quando o escrevi pelo tom claramente doentio do post e acho meio um saco essa patrulha do politicamente correto. Já escrevi em milhões de posts que considero o preconceito de qualquer espécie uma coisa abjeta, procura no histórico do site se quiser, porque tô sem saco, mas com certeza tem.

E, a todos que aproveitaram o post anterior pra fazer comentários infames:

Viado é verde
Verde é bambu
Bola na rede
Meu pau no seu cu.

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Life is a funny thing

Hoje rolou uns treco…

Mentira, esse post não é pra começar assim.
É só o comichão de escrever, essa ânsia de botar merda pra fora.
Cansadão.
Na agência tá foda, o regime anda foda e me deixa mal-humorado (retomei a porra agora, dei umas derrapadas na semana passada, mas eu também sou filho de Deus) e não tô bebendo, o que faz a vida ficar inteira numa perspectiva bem torta.

Uma salva de palmas pra quem não bebe e consegue ser uma pessoa normal.
Eu não conheço ninguém assim, mas vá lá que tenha (estou magnânimo hoje).

Meus amigos bebem e eu bebo.
Programa é bar. E um ponto final no final da frase.
Fui educado assim.

Em casa, meu pai comemorava tudo indo tomar uma gelosa. Ou várias.
Foi assim quando o Bahia foi campeão brasileiro em 88 e ele abriu a porta do apartamento em que morávamos no Imbuí, fez uma amizade estranha com um negão vizinho chamado Topázio (pire aí), que devia ter umas duas garrafas de malt 90 na geladeira. Eu tomei Taí, porque era o que tinha e eu era uma criança gordinha e gulosa (o que mudou muito pouco desde então), mas minha vontade era tomar o mundo com cachaça (copyright Pablo).
Foi assim num dia que mamãe ficou feliz com alguma coisa absolutamente irrelevante e torou uma garrafa de martini. Terminou naquela fase “tô em cana dura, me larga que eu vou chorar, você é brodi pra caráio, tô falando isso não é porque não tô bêbada”.

Eu tinha uns sete anos.

Ou quando meu pai virou pra minha mãe cheio do pau e falou que ela era banda-voou.

Durante muito tempo, pra mim, chamar alguém de banda-voou era o último recurso em termos de xingamentos. Assim como quando Elly, my middle sister, aprendeu na escola e chegou em casa me chamando de verme patogênico, e aquilo pra mim era como chamar uma boa alma de Deus e filho-do-cramulhão-cabrunco-istopô.

A fronteira final das ofensas entre irmãos.
Verme patogênico.
Daí eu aprendi a chamá-la de nigrinha, esta se tornou a nova fronteira final e eu passei a apanhar por conta disso.

Tem o caso também de meu tio Bira, que enganava duas namoradas. Marcou, não sei como, com as duas ao mesmo tempo na casa de minha tia e ficou no bar da esquina. Eu ia e voltava pra contar pra ele do fuá, e a cada ida ele me dava um copinho de cerveja.

Eu tinha nove anos, e fiquei chapado.
Foi massa.

Daí que beber é a opção, saca.

Tá tudo bem, vamo pro bar.
Tá tudo na merda, vamo pro bar.

Mas este post se perdeu e já nem sei se o publico.
Muito íntimo demais.

Conversando com um brodi, comentei com ele como esse treco era acessado.
Ele me disse: “por que as pessoas assistem big brother? É o gosto humano pelo asco do espetáculo grotesco (copyright chico buarque em budapeste)”
Daí fiquei cabreiro.
Mas foda-se: um blog é um blog e é um blog.
E nem tudo é real. O que conta aqui é mais a reelaboração do real do que o que quer que seja.
Como já disse Drummond (não o poeta, seu bocó, o meu amigo Drummond), o blog é claro naquilo que vende e compra quem quiser.
E eu sou o grilo falante da humanidade, o paladino patati patatá blá blá blá.

Mas voltando aos meus amigos.
A gente até estranhava quando pintavam uns trecos de teatro, cinema e outros tipos de gobilhice. July parou de beber porque tá com umas paradas lá (vocês lêem o blog dela), Drubs parou de beber porque tá com gordura no fígado (o que é uma extrema chibiatagem e uma falta de fé na vida assombrosa), Peu me ligou dizendo que tá fora de campo porque tá embolado de grana e o verão extorquiu mais dele do que ele poderia suportar, Léo, meu sócio, tá noivo, o Japa não bebe porque tem alergia a álcool e assim a coisa vai.

nhé.

Mudando radicalmente de assunto, um brodi da agência today.
“Velho, acordei cedo, não tinha absolutamente nada pra fazer e dei uma espiada no seu blog”.
“Qual? No Diário da Criação?”
“Não, no outro, de gente inteligente…”
“Ah”
“O preto…”
“Aham”
“Mas só fui nele porque não me sobrou nada mais pra fazer”
“Ah, tudo bem”
“Aí li umas paradas lá”
“Ah, ok”
“Tem umas paradas engraçadinhas, meio diário, né?”
“é, pois é. Curtiu?”
“Legalzinho. Mas quem te conhece já sabe aquelas merdas todas”
“Ah, tá”

Resumindo: o Diário da Criação, que é bacana e tem informação, ninguém vai.
Pra ver o inferno de minha existência, todo mundo acha um tempinho.

Esse blog é a definição perfeita da vergonha de mim mesmo.

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Ouvindo Manu Chao

Definitivamente, eu parei em 1999.

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A magic spell

Eu penso que, na verdade, todos somos menininhos e menininhas aprisionados em corpos de gente grande. Um encantamento de bruxa.
Brincando de pagar faturas e contas.
É uma brincadeira sem graça, mas não deixa de ser.

Em meu ser mais profundo, permaneço um menino de oito anos de idade.
Ainda me assusto quando sento em mesas de restaurante, ou me surpreendo, às vezes, dirigindo um carro.

Talvez sexo seja a única coisa realmente adulta que eu saiba fazer.
Todo o resto é uma projeção das coisas que eu, quando criança, via os adultos fazendo.

Ainda me surpreende, sinceramente, que alguns amigos meus tenham essa cara de adulto que eles têm.
Parece que eu fiz amizade com os amigos de meus pais, sacou?

Falei disso outro dia aqui:
Há um tempinho atrás, eu ainda um adolescente, fiquei com uma menina bem mais velha.
Tipo, eu tinha 17 e ela tinha 24.

Todos, invariavelmente TODOS os meus amigos falavam (não sem uma pontinha de inveja) que ela era “uma coroa”.
Depois lembro que a gente comentava sobre umas mulheres de 30 anos e pensava assim: porra, e neguinho tá pegando aquela coroa…

Hoje, pra mim, uma pessoa de 30 anos é uma pessoa normal.
Não é mais uma coroa. É uma igual.
O que significa que as amiguinhas de minha irmã mais nova devam olhar pra mim e pensar: poxa, Manuella, teu irmão é um coroa!

Foda, hein?

Sei lá, é estranho envelhecer quando ainda existe um menino dentro de minha cabeça controlando o resto.

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