Eris quod sum
É impressionante que meus amigos ainda tenham algum interesse em manter algum tipo de relação com a minha pessoa.
Eu não presto. Totalmente.
Domingo de Páscoa, por exemplo, aquele dia famoso em que coelhos botam ovos de chocolate e é o dia de comemorar Jesus Zumbi, foi aniversário de Scheila Viviane. Uma das minhas mais queridas amigas, apesar do nome de doméstica com que ela foi batizada.
Ela, como vários dentre meus amigos, viajou para Nazaré, o ovo abissal do recôncavo baiano onde nasci.
Eu, como bom amigo que sou, fiz o quê?
Nada.
Dormi o dia todo, esqueci de ligar cedo e depois ficou tarde e fiquei com vergonha de ligar porque era tarde. E no dia seguinte não quis ligar novamente porque já era o dia seguinte.
Escroto, né? Piora.
Scheila, como uma pessoa escrota e desgraçada que é, não poderia deixar passar em branco essa pisada de bola e me ligou para me lembrar que eu sou um péssimo amigo, um escroto, um verme alcalóide das profundas do capeta. Me ligou e disse “OBRIGADO POR NÃO TER ME LIGADO NO MEU ANIVERSÁRIO”.
Obviamente, essa era uma oportunidade de me redimir.
De dizer: Scheu, sorry, vamo, sei lá, enfiar a pica num visa de alguém conhecido (uma vez que o meu encontra-se completamente arregaçado, estuprado de ponta a ponta, fodido e mal-pago) e vamo no Tokai comer Shake Couve e Sashimi grelhadinho na ponta até morrer.
Ou ainda: porra, Scheu, pisei na bola, mas vamos, sei lá, tomar um café, tomar uma cachaça, sentar em algum barzinho copo sujo vagabundo imundo e com gente suspeita. Vamo beber até perder a compostura e batucar na mesa.
Eu tinha essa oportunidade.
Só que aí eu disse: Pô, Scheu, sorry, tá embolado aqui na agência, me dá 10 minutos que te ligo.
E é claro que não liguei.
Mas isso é só a ponta do iceberg.
O japa é um dos meus melhores amigos at all.
Desde quase sempre. Desde o colégio. Primeiro que o Japa fumava desde quando éramos adolescentes e o Japa foi grunge. Logo, antes de ser amigo do Japa, eu era fã do Japa. Enquanto, na hora do recreio, todo mundo saia da escola pra comer um pastel ou, no caso dos menos afortunados (eu, eu, pergunta pra mim), chupar um pirulito em formato de coração porque não havia dinheiro para comer o carésimo pastel de R$1,20 que era vendido na porta do Colégio, o japa se reunia com a galera do mal e ia fumar um Hollywood.
Daí tá.
Somos amigos pra mais de 15 anos. Temos a mesma idade e tal.
Ou tinhamos, porque no dia 7 de abril o japa colheu mais uma flor no jardim da vida (ui).
O japa é a única pessoa que eu conheço que também faz aniversário em abril.
Ou a única que conta, fora eu e Scheu, que também completa idades neste mês magiquinho.
Ou a única que presta – Scheila não é uma boa pessoa e não presta, como eu.
Daí no aniversário dele, eu, cansado igual um mouro, ligo pra ele e falo: cara, tô quebrado, não vai dar pra ir te ver.
Ele, que é um cara doce e fantástico, ainda vira pra mim e fala: velho, não existe isso de quebrado, vem pra cá e tal. Você sabe que com a gente não tem essa, janja!
(AbrePARENTES: o pessoal da escola me chama de janja. Porque eu fazia várias piadinhas sobre meu pinto, chamando-o de coisas como janjão ou janjaboy. O sentido disso acabou se esgarçando com o tempo – faço piadas mais elaboradas hoje e não preciso meter meu pinto (double sense intended) pra ficar engraçado – e quase ninguém lembra que janja era o nome de meu pinto, tanto que até a esposa do Japa me chama de Janja sem que isso seja um motivo de constragimento assombroso. FechaPARENTES).
Eu não entendi direito o que ele falava.
Até que caiu a ficha.
Ele falou como se eu tivesse dito “cara, você vai numa churrascaria e tal e eu estou sem dinheiro”, ao que ele respondeu “oxente, Jorge, relaxe, mesmo que você não tenha dinheiro, pode vir pra cá, porque eu posso pagar pelo menos um suco de laranja de 6 conto e uns dois pastéizinhos de queijo daqueles que vêm quentes no couvert, daí te vejo, porque é um dia especial na minha vida, você é um cara especial na minha vida e dinheiro conta muito pouco nessas horas”.
Eu deveria ter ficado tocado com esse gesto de grandeza, de desprendimento, de amizade.
Mas, obviamente, fiz tudo errado.
Abre aspas pra minha falta de tato e cavalice:
“não, man, dinheiro eu tenho. Só tô cansadão mesmo”.
O que pode ser lido assim, ó:
Verme alcalóide das profundas abissais do capeta, não preciseis, ó, pôr a mão em tua maldita carteira para pagar nada. Em verdade vos digo que sou possuidor de bens diversos e não passo privações financeiras de nenhuma espécie. O pecúlio não me falta, ao contrário da minha maldade, imensa, e de meu egoísmo maldito, ó, nipônico filadaputa, que me sobram. Não se trata de nenhum problema maior, além da minha falta de tato em visitar um amigo especial num dia especial. Não é que eu não vá porque eu não posso. Não vou porque não quero cansar-me em teu aniversário e gostaria de aproveitar mais meia horinha de sono durante a noite.
Ele certamente leu assim, porque só respondeu:
pô, cara, jóia, então. Você que sabe.
Foda, né? Piora.
Eu me arrependi na mesma hora. Eu ainda tentei consertar.
“Nego, vamo tomar um café essa semana (parei de beber profissionalmente, só uma gin tônica em casa de vez em quando), daí a gente bota o papo em dia e tal”.
Ele: “claro, janja, bora, sim!”.
Só que ele não estava sendo educado. Ele, de fato, me perdoou.
Você vai ver como piora.
No sábado de aleluia, Pluto, o carro de minha irmã, quebrou e ela me ligou de manhã cedo.
O problema não foi Pluto quebrar. O que foi foda foi Pluto quebrar num bairro popular da cidade.
Eu não fico feliz de ajudar. Fui porque não tinha jeito.
Eu queria passar o sábado vendo Heroes.
Baixa de quintas.
Puta merda.
Não sabia como chegar lá.
É um bairro popular de Salvador, e eu não sei andar por bairros populares de Salvador.
Sou pobre mas só tirado a gás com água.
Daí, no caminho entre minha casa em Brotas, um bairro popular, e a Baixa de Quintas, outro bairro popular, tive de ligar duzentas e quarenta vezes para Elly. Maldizendo a Deus e ao calor do capeta, cheguei lá xingando.
Pluto agonizava.
Elly tá se fodendo pra arrumar o apartamentinho dela e tal.
O mecânico do bairro popular esfregava as mãos.
E falou o valor do conserto, uma quantidade de dinheiro pantagruélica.
Era o calor, era o ar pegajoso de tão quente, era aquele abafamento que só faz em bairros populares: o fato é que tudo fazia com que eu me sentisse mal, abafado.
Ela ficou meio chateada de ter de fazer isso, mas virou e me pediu “brodi, posso botar um pedaço do conserto do carro em teu cartão? Os meus tão estourados, tô montando casa e tal, daí mês que vem te dou, não tô podendo ficar sem carro, como é que vou fazer minha mudança?, mimimi, mimimi…”
Eu dei meu cartão.
Mas não por ser bom.
Eu queria era sair dali o mais rápido possível.
Eu daria um dedo mindinho do pé para sair daquele abafamento.
Ou seja: até minhas boas ações têm um componente desgraçadamente egoísta.
Dei uma carona pra minha irmã e meu cunhado pra algumas coisas que eles precisavam fazer e tal. De noite, chego em casa cansado de ter dirigido pela cidade em bairros populares.
Me liga o Japa.
Era a chance de compensar.
Daí disse “vamo sair sim, claro, cara, bora tomar um café”.
E dormi.
21 de abril, não esquece. É meu aniversário.
Seja melhor comigo do que eu seria com você.
