Notículas
Um blogueiro aqui de salvador foi preso porque cobrava um suborninho de alguns empresários para não divulgar calúnias em seu blog.
O mais impressionante é que os empresários pagavam lepidamente o tal suborninho.
O site do cara é tão ruim que eu pagaria justamente pra ser achincalhado por ele.
A última frase é puro despeito: de um modo ou de outro, o carinha lá conseguiu achar uma forma de fazer com que o seu blog passasse a dar algum dinheiro. E saiu na capa dos principais jornais daqui da Bahia – algemado, ok, mas o que é um par de algemas diante da glória da posteridade?
Vocês sabem: qualquer iniciativa, mesmo que ilícita, que possa vir a gerar alguma fama – e qualquer dinheirinho – me interessa. Me vendo barato, como diz uma amiga minha. Sou dado, como diz outra. Se minhas amiguinhas me têm em tão alta conta, não sou eu que vou debater.
Porém, a característica que realmente salta aos olhos, no meu caso, é outra: sou cagão e tenho medo de polícia, daí não tenho culhões de fazer o mesmo que o carinha fez lá. Deste modo, o meu blog só dá prejuízo, dor de cabeça e espaço para adolescentes desajustados virem chorar suas pitangas em minhas caixas de comentário.
Mas a prisão do cara rolou. Melhor pros blogueiros sérios.
Pra este blog aqui, não faz a menor diferença.
Ainda mais quando a gente sabe que a prática de cobrar uma bolinha dos empresários não se restringe a blogs e revistas virtuais, mas é uma coisa praticamente institucionalizada nos veículos jornalísticos da Bahia.
Prendemos o primeiro jabazeiro.
Sem muita esperança, aguardamos os próximos.
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Continuemos falando de pagamentos.
O pagamento, por exemplo, que a campanha eleitoral deseja coibir com uma campanha engraçadinha, onde um eleitor acerta a venda de seu voto e depois vai encaixotado e patati patatá.
A campanha é engraçadinha, mas inócua.
Eu venderia meu voto, se alguém se dispusesse a comprá-lo. Mas nunca me foi oferecido.
Já me insinuei para alguns políticos conhecidos, mas nenhum me fez uma proposta de fato.
Eu aceitaria qualquer coisa.
Um saco de farinha, um milheiro de blocos, uma dentadura.
Apesar de não ser lá muito fã de farinha, não ter nenhum terreno pra construir nada e possuir ainda uma quantidade razoável dentro da boca, acredito que eu sairia em vantagem.
Poderia dizer pros amiguinhos que ganhei alguma coisa com o processo democrático brasileiro. Atualmente, não ganho nada: muito pelo contrário. Pago pra ter segurança, paguei pra ter algum nível de educação formal e, noutro dia que acordei com uma dor de barriga, gastei mais de trezentos paus por uma bolsa de soro com buscopan e um ultrassom.
Neguinho pode achar um gesto de falta de cidadania, mas eu, de fato, creio no contrário. Seria a primeira vez que o estado me ressarciria alguns dos impostos que pago. Se você, como eu, acredita que cidadania envolve deveres, mas também direitos, há de concordar comigo que a venda de votos é uma maneira de receber cash.
É mais ou menos como a redistribuição de renda que os pivetes fazem de faca em punho nos faróis. Uma antecipação. Um recebimento cash. O caixa rápido é a sua carteira, mas não temos como alegar que ele está completamente errado.
Aguardo propostas de dentaduras.
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O neguinho a que me referi há alguns parágrafos já foi citado aqui neste blog. Chamemo-lo de “neguinho retórico”. Eu uso, muita gente usa. Já expliquei o mecanismo. Mas como você perdeu esta aula, eu repito.
O neguinho retórico é utilizado com frequência para identificar o outro, estranho, aquele que não sou eu.
“Neguinho cheira pó e vem fazer passeata contra violência”.
“Neguinho vem falar de cidadania e patati patatá”.
Claro que o discurso é racista. Mas eu sou preto e posso. Do mesmo modo que o judeu pode fazer piada de judeu, o gordo, de gordo, o cego, de cego… você entendeu. Quando eu, que sou preto, me utilizo de um discurso racista, na verdade o objetivo é justamente o de descristalizar o discurso, colocá-lo em perspectiva…
Mas o mais impressionante nesta história é que, pra alguns, eu não sou sou preto.
Ouvi, uma vez: “você, jorge, é tão inteligente que nem parece que é preto”.
Outra ótima: “você quer ser preto, Jorge, mas não é”.
A primeira coisa que me faz parar pra pensar é porque alguém quereria ser preto sem ser. Negros são discriminados, ganham menos, etc, etc. Para além do racismo gritante das frases, ela demonstram uma coisa que é muito interessante - e muito pior. O negro, na visão geral das pessoas, tem de ser mal-educado, ou burro, ou não casa com o padrão de uma pessoa esclarecida, educada, inteligente, bem-sucedida. O negro, quando inteligente, não pode ser negro, de fato. Ele é um arremedo de negro. Uma caricatura do negro padrão.
Daí vale tudo. “Sua pele é morena, mas seu cabelo é liso”. “Você não é negro, você é cabo-verde!”. “Seus traços são finos, logo você não é negro”. “O brasil é um país miscigenado, todo mundo, na verdade, é mestiço, e você, ao se afirmar negro, está sendo incorreto”.
Nojo. Este mundo está todo fodido.
