I read the news today, oh boy
About a lucky man who made the grade
And though the news was rather sad
Well, I just had to laugh.
Do mesmo modo que o fodástico John fala na primeira estrofe de A day in the life, eu rio de notícias ruins. Sobretudo quando elas acontecem comigo.
A diferença entre Lennon e eu, no caso, é que o cara da última música do sargeant peppers ganhou na loteria e, depois (tá na segunda estrofe, mas você tem a obrigação moral de saber) o cara estoura a cabeça numa batida de carro.
Eu só tive minha agência inundada.
Mas pra entender o treco, você tem de voltar pro começo.
I woke up, fell out of bed, and dragged a comb across my hair.
Até aí, tudo normal.
Toca meu celular. Um menino da agência. Observe o tato e a calma pra dar notícias ruins.
- Já tá sabendo, né, man?
- Qual foi?
- Cara, a duchinha do banheiro estourou de madrugada, a agência tá com água pelas canelas.
- E os computadores? (que ficam embaixo das bancadas)
- Velho, tamo vendo aqui se salva alguma coisa.
Vendo se salva alguma coisa.
8 anos de arquivos, uns 15 computadores. No-breaks. Estabilizadores. Uma quantidade de cabos que conseguiria ir da terra à lua.
Vendo se salva alguma coisa.
Uns 250 gigabytes de arquivos.
Aquilo que eu consegui construir na vida, virando noite e desenhando panfletinho.
Vendo.
Se salva.
Alguma coisa.
E o que é que você faria?
Sairia correndo de cuecas pra ver como tá o treco, né?
Eu não: tomei um café e fumei um cigarro.
E troquei de roupa. Afinal, não iria chegar no escritório para me deparar com o final da minha existência vestido igual mendigo.
Dignidade é essencial em momentos de desespero.
Cheguei. Aquele clima aaaaaah, look at all the lonely people.
A estagiária do atendimento, loira e de roupa de grife, com a calça embolada até o meio das canelas, além do rodo na mão pra completar o look. Minha secretária olhando pro chão, certamente pensando “vou mandar meu currículo pro Catho”, e a estagiária da criação com carinha de chororô. O coroa do financeiro “não sabia como te ligar pra dar a notícia”.
Não tive outra opção.
- Gente, manda pegar umas cervejas lá embaixo. Compra uma carne e uns espetos também. Vamo fazer um churrasco. Afinal, piscina já tem.
Você, adocicado leitor, dirá “que espírito! que líder! que homem! diante da adversidade, o homem marcha para dentro da boca do leão sem esboçar pavor”.
Claro que essa é a versão que me interessa.
A verdade dos fatos é que eu estava como que com o cérebro anestesiado. Se coragem pode ser confundida com a atitude zumbi que acomete os homens após uma lobotomia, então eu sou praticamente o Charles Bronson.
Queimaram algumas coisas (estabilizadores e no-breaks), mas o servidor se salvou. O que não se salvou foi o carpete da agência, que tá mal, mas vai sair dessa, eu sei que vai.
Você me pergunta, querido leitor: e por que você tá tão felizinho?
Ora, essa… porque sim. Porque deu tudo certo, e eu acho que vai dar tudo certo sempre.
Não morreu ninguém. Ninguém tá mal de saúde. Inclusive algumas pessoas importantes tão melhorando de saúde.
Isso é o que realmente importa, não?
Vamos virar umas noites a mais, trabalhar um pouco a mais pra compensar o tempo perdido de hoje, mas vai solucionar.
Me perguntam se eu acredito em Deus.
Não acredito, sério.
Eu posso estar sinceramente enganado a respeito disso.
Porém, acho que se Deus existe, ele não é nada disso que nego fala que é.
É tipo uma criança com um gigantesco palito de dente bolindo com formiguinhas e dando risada. É um menino com um canivete cortando o rabo de lagartixas pra ver o pedaço cortado mexendo.
Nós somos as formigas. Nós somos as lagartixas.
Hoje ele me cutucou com um palitinho. Só que, se ele tá brincando, eu também acho a maior graça nessas coisas.