Eu detesto a baianidade nagô.
O termo, para quem não se lembra, vem daquela canção do pré-cambriano de mesmo nome.
O trecho diz:
“eu vou
atrás do trio elétrico vou
dançar ao negro toque do agogô
curtindo minha baianidade nagô”
Baianos lembram disso e cantam como se fosse um hino religioso.
Acho um saco essa obrigação da felicidade que a Bahia vende.
Acho um saco essa coisa de “somos especiais porque somos a soma da cultura negra, miscigenada, africanizante”.
E o povo que é misturado com eskimó? E a cultura anglo-saxônica?
Se alguém ficasse dizendo “somos especiais porque somos a soma da cultura nórdica, europeizante” isso virava racismo, filhadaputagem. Virava não: é uma filhadaputagem.
Mas a baianidade nagô inverte o conceito e ninguém enxerga.
Ninguém é mais ou menos especial porque sua vó, branquela portuguesa, caiu na vara de seu avô, um negão. Não há nada de especial nisso. Para sua vó pode ter sido especial cair na vara com o negão, ou para o seu avô comer a branquelinha, mas o resultado disso é tão irrelevante quanto… você entendeu.
Gente não tem cor, caralho.
É tudo o mesmo amontoado de merda, sonhos, trocadilhos infames, alegrias, vicissitudes e veleidades.
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Acho um saco aquele pedaço da canção fundadora da axé music que canta “despertai-vos para a cultura egípcia do Brasil. Em vez de cabelos trançados, teremos turbantes de tutankamon”.
Que cultura egípcia?
O arrocha? O tomar cachaça em pé no pé da passarela do iguatemi?
A guia de cafézinho mais enfeitada que penteadeira de puta?
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Pra mim, toda música bonita é triste. Nem toda música triste é bonita, mas o inverso é um fato.
Não entendo porque a felicidade tem de ser um estado chamado Bahia.
É possível ser melancólico e isso não ser um problema.
Mas escrever coisas assim num blog pode virar um problema.
Porque aí pipocam milhões de comentários do tipo: “ih, jorginho, tá tristinho? vamo sair, vamo beber, vamo esquecer, é verão é calor, é sal, é sol, é Salvador!”
E nem sempre se precisa esquecer.
Uma cama, um edredon e um bom livro. Uma sessão de cinema meia noite.
Acordar duas da manhã e sair de casa pra tomar um café com conhaque no Franz Café carregando sob o braço o último de Chuck Palahniuk.
Eu me sinto extremamente bem em fazer coisas que a patuléia considera melancólica.
Eu acho um saco essa cultura do “vamo pro último barzinho da moda enquanto ele ainda está na moda. Semana que vem já tem outro. Vamos pro ensaio da banda de percussão pababá purugundum? é lá em narandiba, é lindo, a integração entre favela e mauricinhos”
Eu acho um saco a integração favela mauricinhos.
Eu não sou favela. Eu não sou mauricinho.
Deixa eles lá e eu aqui.
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Eu me divirto em conhecer gente e conviver com pessoas bacanas. Não me importa se elas são negras, amarelas, azuis, mulheres, homens, crianças. Mas do modo como a baianidade nagô vende o treco, o modelo de beleza é a deusa do ébano e bonito mesmo é ver o ilê passar.
Algumas deusas do ébano são lindas, outras são um desastre.
Algumas misses venezuelanas são lindas. Outras são um catálogo de plásticas.
É isso que a baianidade nagô nega, esse facismo disfarçado.
Essa ditadura do politicamente correto+culto exacerbado da miscigenação racial+aê aê aê ô.
Por ser negro como sou que eu não me encaixo. Não me sinto representado.
Existem negros bonitos e negros feios. Existe eu e existe o tião macalé.
Já namorei negras e já namorei loiras, ruivas.
Umas eram gostosas e outras eram filhas da puta.
Acontece. Gente é assim, às vezes é bacana e às vezes não presta.
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Eu acho um saco bloco afro.
Eu já saí de Gandhi e foi bonito durante 5 minutos. Daí passou por cima de minha cabeça um bandeirão azul fedendo a mijo, aquela mistura de alfazema de quinta categoria e aquele fedor que faz quando junta muito homem e o bloco ficou claustrofóbico.
Mas você é apedrejado se disser que aquele ijexazinho do Gandhi é um porre durante cinco horas consecutivas. É primordial dizer a todos que o som é hipnotizante, inebriante.
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O melhor do carnaval é encontrar amigos, tomar cerveja e bater papo vendo umas minas gostosas pra cima e pra baixo. Eventualmente catar uma ou outra, mas minha fase maratonista de beijar 20 bocas por noite já passou.
Sim, porque pra mim carnaval só prestava quando eu beijava 20 meninas.
Hoje acho uma coisa meio porca, sair permitindo que um monte de mulheres que você não sabe onde estavam com a boca há quinze minutos enfiem a língua em sua traquéia.
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E eu, negro, termino o post com medo de comentários que me apontem o dedo em riste “racista”.
Racista é a puta que o pariu.
Só me nego a aceitar uma cultura estupidificante como a baianidade nagô.
Ela não me representa.
06/12/08 | Veja mais
absurdos |
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