Daí você, herege, grita logo “antes ele do que eu”. Tudo bem que você não tá de todo errado, mas foi chato. Saramago era bom. Continuará sendo em seus livros.
Acredito que não só eu ache os parágrafos de Saramago meio claustrofóbicos. Nem de longe é uma crítica. Mas isso me fode, porque me influencia muito (ritmo é metade de um bom texto) e porque termino lendo Saramago muito rápido, e vou acelerando na leitura, sem pausas, sem respirar, daí preciso, de quando em quando, jogar o livro pra longe e tomar um ar.
Acho linda a mancha uniforme de tinta negra de fora a fora na página, sem espaços, sem travessões, texto emendado com texto.
E, também por isto, alguns livros de Saramago estão entre meus preferidos de todos os tempos.
O evangelho segundo Jesus Cristo – top five - e Ensaio sobre a cegueira – não sei se top five, mas perto.
O que, no caso, não é pouco.
O Evangelho tá pertinho de Dom Casmurro, e só isso já motivo para que Saramago faça uma festinha no inferno dos ateus, que o deve ter recebido com banda de fanfarra e acepipes diversos.
O pior da morte dele – que me deu, na hora exata em que soube, uma tristeza fininha, quase como a que deve dar com a morte de um primo distante, de um amigo de outros tempos – foi o povo na interwebs fingindo chocadinha sem nunca ter lido uma vírgula do Velhinho de Lanzarote.
Eu sou leviano gratuitamente. Outros devem ter lido Saramago.
Mas todo mundo tinha uma citação prontinha na ponta da língua?
Se fosse, sei lá, o Chuck Palahniuk, seria aceitável que pululassem no twitter frases do ideário de Tyler Durden (“você não é a calça que você veste” e tal), afinal o Clube da Luta virou filme de sucesso – diferente do excepcionalmente bem filmado Blindness, do Fernando Meirelles, que – acredito – só eu adorei e assisti umas 20 vezes.
Alguns, mais corajosos, lembrariam de Misty, do Diário (“o que você não conhece tem que significar alguma coisa”). Chuck é foda em frases gancho, que marcam e que são marteladas nos livros de fora a fora…
Mas, sério: se morresse o Malcolm Gladwell, do Tipping Points e tal, um escritor que eu adoro e compro tudo que encontro pela frente (não é literatura, mas serve a título de comparação), não teria de cabeça nenhuma citação prontinha.
Falando de literatura, propriamente: sei lá, se morresse a Isabel Allende, saca? Melhor: se o Bukowski morresse hoje (pronto, este é o exemplo definitivo), não saberia dizer uma frase como citação, saca? E olha que bukowski, tipo, eu já li pra caralho. Ainda leio.
Não fica claro que a galera foi no google pra pagar de possuidor de grande cultura?
Daí no twitter uma chuva de citações fora de contexto, aquele festival de exibição de pseudocultura como se fôssemos uma matilha de cães correndo atrás de coelhos de pelúcia.
Pra quem ainda não entendeu o título deste blog – sempre há 1) gente estúpida o suficiente para tomar qualquer ironia ao pé da letra 2) tábulas rasas quando se trata de sarcasmo e ironia 3) comentaristas de blog com a percepção cognitiva de um legume -, é este tipo de inteligência, de pesudo cultura, que me dá um certo nojo.
Muita gente citou a famosa frase do Ensaio…
Uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos
…(or something like, não tô com o livro em mãos pra consultar) como se fosse um epíteto, como um texto de lápide que pudesse resumir a vacuidade da vida e a tristeza/estupefação/qualquer coisa dos pseudo intelectuais diante do mistério magnífco da morte. No caso, da morte do Saramago.
No livro, é outra coisa. No contexto, é parte de um processo de redenção dos personagens, etc, etc. No twitter, meu deu náusea.
Mas é óbvio que ninguém é obrigado a gostar dos mesmos escritores que eu, e fingir ler deve ter lá o seu valor – não entendo qual, sinceramente, numa sociedade que valoriza tanto outros atributos e que lê tão pouco no geral. Cada um tenta se promover como pode, e ninguém é obrigado a respeitar as coisas que me são caras. Cada um dá valor pras coisas que quiser. Assim é o mundo, e assim somos.
Uma coisa que não tem nome.