Um sonho, três revelações.
Sonhei esta noite que eu era o orgulhoso namorado de una chica que se parecia com a Jennifer Aniston.
Só que a Jennifer Aniston que me namorava trabalhava num shopping center.
Daí a Jennifer (não era a própria, mas vamos chamá-la assim pra facilitar a redação) me liga e pede, manhosa, pra eu passar no shopping por volta de oito e meia da noite para buscá-la.
Nisto, estava eu numa parada que parecia um desfile de moda. E me bato com uma grande amiga de antigamente que é absolutamente louca, surtada e tudo o mais.
Nossa amizade terminou num bate boca monstruoso.
Mas, no sonho, a gente se falava, ficava amiguinho, e duas ou três frasezinhas carregadas de sarcasmo e humor negro depois – como era característico em minhas conversas com esta amiguinha – ela pedia, encarecidamente, meu carro emprestado e eu, otário, emprestava, e por isso não podia ir buscar a Jennifer no shopping.
Jennifer me ligava irritada, daí não tinha processo fodetivo-copulatório e eu ficava chateado.
Fim do sonho.
Seria só uma imbecilidade como as que a gente sempre sonha.
Seria, né? Mas olhe mais de perto.
Observe como um sonho inocente, em dois toques, releva tanto sobre a minha pessoa.
Primeiro: sou megalomaníaco.
Não basta namorar: tinha de ser uma cidadã parecida com a Jennifer Aniston.
Daí você tenta amenizar: ok, Jojó, era a Jennifer Aniston, e realmente a Jennifer Aniston é a maior gostosinha, mas no seu sonho ela era atendente de loja de shopping, o que não é lá muito animador – ou promissor.
Eu entendo a Jennifer.
Ela poderia estar passando por uma fase de aperto.
Eu mesmo trabalhei em loja de shopping aos 18 ou 19 anos.
Quinze dias, mas tá lá no currículo.
E, afinal, sempre há a possibilidade de melhorar de vida ao terminar comigo.
Explicando a última frase: hoje, há ex-namoradas minhas trabalhando em locais fantásticos. Tem namorada em multinacional, tem namorada em construtora, tem namorada empresária, tem namorada na Petrobras e tem até namorada na Vale.
E enquanto elas estava em processos fodetivo-copulatórios comigo, tavam nessa espiral ascendente de fama, sucesso e poder?
Porra nenhuma: todas quebradas.
O que faz com que alguns amigos mais próximos me chamem de âncora de mulher: basta terminar o relacionamento que todas as negas passam a se dar bem profissionalmente.
Não é que o sucesso delas me deixe especialmente feliz.
Meu egocentrismo só consegue imaginar que, depois de mim, todas fiquem em casa, ouvindo Bon Jovi e lembrando de meu sorriso e de minha boca de coringa.
Daí eu, nojeninho, costumo dizer que, depois de mim, elas enxergam que jamais encontrarão um cabra bacana, charmoso, sofisticado e patati patatá como eu, daí passam a se dedicar com todo afinco à vida profissional e o resultado taí.
Ou, como meu sócio falou no outro dia, “depois de você, elas devem chegar à conclusão de que homem é uma raça realmente sem solução, e se dispõem a roubar nossos postos de trabalho e, a todos os homens, subjugá-los profissionalmente de maneira massacrante, e o sucesso vem daí”.
Meu sócio deve ter mais razão, obviamente.
Ou o fenômeno não tem nenhuma relação comigo particularmente – o que minha megalomania não permite que eu considere como hipótese válida, afinal, na minha mente, absolutamente tudo, no mundo, tem uma relação estreita com a minha pessoa.
Espirrei de manhã? Tsunami da Ásia, certamente.
Dormi por cima de meu próprio braço e ele acordou dormente? O técnico da seleção brasileira muda.
Não tente entender. Voltemos a meus defeitos.
Defeito número dois: eu me vendo barato. Brigue comigo, me achincalhe, me trate mal e, depois, me jogue uma migalha de atenção. Eu esqueço a briga e te empresto meu carro.
E, por fim, o pior: sou péssimo com compromissos. Chutei a Jennifer pra cima pra ajudar a surtada. Você diria que isso é um gesto de nobreza – ajudar uma amiga num momento de dificuldade – mas a sua opinião é viciada, uma vez que você gosta de mim quase tanto quanto eu gosto de mim mesmo.
Eu acho.
