Alalaô
É chegado o tempo das fantasias.
Não as sexuais, necessariamente, mas nada impede você, leitora turística que vem passar o carnaval em Salvador, de se pendurar nos beiços dos caras que puxam cordas em blocos de carnaval.
Mas, no caso, eu falo é de roupa, mesmo.
O carnaval, em outros tempos, era uma época em que as pessoas se fantasiavam.
Eu mesmo tenho algumas fotos vestidinho de palhaço ou de capoeirista. Mamãe fazia questão dessas coisas.
Hoje em dia as crianças se fantasiam de personagens de mangá, tipo o Naruto.
Ou – pior ainda – Dragon Ball Z.
Dá pra antever a quantidade avassaladora de seres perturbados e emos que nossa geração está formando.
Todas essas criancas que hoje se fantasiam de mangá, em dez anos, estarão tomando vinho chapinha ou sangue de boi em cemitérios, cantando canções do Legião Urbana e criando franjas.
E a culpa é nossa. Não se fantasia, impunemente, uma criança com roupas de mangá.
Ainda há concursos de fantasias – o que rola aqui em salvador é na praça municipal, me parece. Mas lembro que, antigamente, a coisa tinha um tanto mais de glamour – era transmitida pela tv manchete e tal (entreguei a idade).
Eu ia escrever que virou uma viadagem só, mas sempre foi uma viadagem esse treco de fantasia. A começar pelos nomes. As fantasias, todas, eram basicamente pena e paetê e lantejoula (alguém sabe a diferença entre paetê e lantejoula?), mas os nomes faziam parecer com que todas fossem absurdamente diferentes.
Havia, acredito, um profissional no staff de cada biba fantasiada, só pra bolar o nome da fantasia. Era um tal de “Esplendor do sol imperial sobre a capital inca” ou “quetzalcoatl: da origem do mundo à devastação nuclear” que me intrigava…
E, ainda hoje, me deixa intrigado o poder de síntese dos caras. Como é possível falar de tudo que já ocorreu no período compreendido entre a origem do mundo e a devastação nuclear em uma fantasia, apenas com penas e paetês e lantejoulas?
Essa galera parece se divertir, mas não mais que os cordeiros de salvador (cordeiro não tem nada a ver com animaizinhos bucólicos – no caso, cordeiro é o cidadão que segura a corda que separa quem pula dentro dos blocos e a patuleia), que pulam carnaval, batem nos foliões e vivem com seus dois ou três dentes pra fora da boca em um sorriso um tanto vazio, arriscando suas vidas em troca de um sanduíche (iche-iche) de mortadela (às vezes com uma fatia tão fina de mortadela que dá pra confundir com celofane) e 15 reais por dia.
Esses, sim, se divertem como poucos.
(observações que comecei a rascunhar também na época do carnaval. Depois o carnaval passou e fiquei sem coragem de publicar – piada fora de hora é chato. Mas meu sobrenome é incoerência e, hoje, já não importa mais: resolvi publicar!)

02/05/2010 em 7:49
tinha esquecido que as fantasias tinham nome! e eles são tão estranhos e estapafúrdios quanto os nomes que os criadores de animais de competição dão às suas criaturas. já reparou?
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