A Semana Santa em Nazaré das Farinhas
Naquele tempo, o Pai, no caso o meu mesmo, filho de Vanju e Big (vovó e vovô), andava a mercar calçolas e peças diversas de lingerie em províncias distantes. Maria José, filha de Benedita e minha mãe, foi assim ter com sua família em Nazaré, sua terra natal, não por conta de nenhum recenseamento, mas para poder dar a luz a seu terceiro filho – e ao varão, que sou eu – em condições melhores, que envolvessem mais que uma manjedoura de burros. Assim nasceu o filho do Homem, eu, na cidadezinha de Nazaré das Farinhas. Carrego, pois, esta chaga em minha carteira de identidade desde então – não sendo esta, propriamente, uma marca de predestinação.
Diferente do brodi da galiléia, diz a profecia que nasci num sábado de aleluia, 21 de abril. Sendo este o dia em que se malha o Judas – um feriado – está dito tudo.
Muito cedo (segundo consta nas escrituras, aos dois meses de vida) vim para Salvador, a Babilônia, de modo que de Nazaré só me restou essa indelével referência nos documentos. Por obra e graça deste arranjo de acontecimentos, coube a mim, o filho do homem, ser o único nascido lá. Todas as minhas irmãs, em verdade vos digo, nasceram em lugares melhores. Bem aventuradas as irmãs soteropolitanas, porque delas ninguém pôde fazer chacota na escola.
Nem só de pão vive o homem, mas quando o Pai saiu de casa e o pão começou a faltar, não deu pra continuar vivendo só da palavra de Deus, e Maria José decidiu voltar para sua cidade natal. O filho do Homem já contava com seus nove ou dez anos de idade. Bendito aquele que vem, de ferry boat, em nome do senhor. Durante cerca de dois anos, o filho do homem viveria por ali.
Nazaré não é propriamente uma terra em que mana leite e mel, mas uma cidadezinha conhecida por sua festa mais importante, a Feira dos Caxixis, que ocorre durante a semana santa (Caxixi é um tipo de artesanato em miniatura). É preciso dar a César o que é de César, logo, naquele tempo, rolava em paralelo à semana santa a Micareta da cidade, o que fazia com que a cidade se agitasse. Não era um exemplo de devoção.
Lembro que era comum ficar na praça esperando dar meia noite, no sábado de Aleluia, pra começar a putaria: trio elétrico, cachaça e festa. Quando a missa do senhor morto se extendia, a galera da praça se exasperava, para sossego da lei e segurança da ordem.
Mas o melhor da semana santa em nazaré era a representação da via sacra. Sempre, sempre, a peruca de cristo caia. Uma vez, o ator que representava Caifás exagerou na interpretação, o que fez com que produizíssemos o trocadilho infame “Cai fás, cai pagas”. Cristo, sempre o mesmo ator, era de uma canastrice assombrosa. Certa feita, ao curar um coxo, o nazareno teve a pachorra de anunciar a plenos pulmões “levanta-te e anda-te”.
Domingo de Páscoa nunca era um dia muito pródigo em chocolates e essas coisas. Era dia de micareta, e o pau comia. Depois que voltei a morar em Salvador, passei a voltar pra Nazaré com frequência para visitar minha mãe e irmã, mas durante cerca de dez anos a perspectiva de uma semana santa normal me parecia uma coisa escalafobética. Afinal, a semana santa de Nazaré era o tempo em que mais se comia, se bebia e se fornicava na cidade.
E, durante quase a totalidade de minha vida, domingo de páscoa era dia de pegar ferry boat pra voltar pra casa. Ferry boat era o caminho, a verdade e a vida: ninguém chegava a Salvador senão por meio dele. E todo mundo sabe que o ferry boat, na volta de um feriadão, é a verdadeira barca do inferno (Ricardo Ishmael, sem a menor dúvida, cobrirá a volta pra casa daquela multidão de encachaçados e ressaqueados).
Se você considerar que o primeiro milagre do cristo foi numa festa e envolvia cântaros de vinho, dá pra perceber que, um dia, a cristandade há de se sobrar aos ritos de Nazaré das Farinhas.
6 Comentários em “A Semana Santa em Nazaré das Farinhas”
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Juliana Rocha falou:
04/04/2010 em 20:03E direto de Nazaré das Farinhas, a correspondente substituta de Ricardo Ishmael! Juliana Rocha!
E mesmo sem micareta a furnicação continua! Ontem vi coisas nessa cidade não se pode publicar nem num canto sujo como esse!
E quanto à páscoa, que os ovos do coelinho te peguem por trás!
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Elly falou:
05/04/2010 em 13:21Sem contar os aromas sauves que o povo soltava correndo atrás da peça Paixão de Cristo.
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Marcelo falou:
05/04/2010 em 17:53Quando eu acho que a loucura ja chegou ao limite máximo, abro este post e me pergunto.
- O que houve com meu primo que tomava suco de melancia? hahahahahaha
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Érica falou:
17/05/2010 em 20:48eu to com muita saudades da minha querida e linda cidade a minha nazaré ate agora naõ acredito que troquei minha bahia pelo Rio De Janeiro mais em breve estarei ai para curte as festas maravilhosas que tem na Bahia vou volta para curte o carnaval adoro a minha Bahia de todos os Santos TE AMO NAZARÉ DAS FARINHAS
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HYORRANA falou:
15/07/2010 em 15:24ADORO A CIDADE DE NAZARE NAO MORO AI SOU DE SALVADOR MAS MEU NAMORADO `É DA AI.EU NAO ENTENDO UMA COISA VCS COMENTAM MUITO DO CENTRO DE NAZARE FALA DOS CAXIXIS MAS ESQUECEM DOS OUTROS BAIROS COMO O APAGA FOGO MEU NAMORADO É DE LA A MURITIBA SAO LUGARES QUE TABEM VIVEM PESSOAS DE BEM NAO EXISTE SO VIOLENCIA EU ACHO QUE ESSES LUAGARES MENOPS FAVORECIDOS PRECISAM DDE MAS ATENCAO TA NAZARE NAO É SOP AKELA CIDADE LINDA NAO VIU

04/04/2010 em 14:10
Em prol deste grã-post, muitos ovos pra vc, nazareno!
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