O que pode acontecer a um país.
Estilingado por Jojó da Babá 02/02/2010 às 14:23
Teve o tremor lá do Haiti.
Vocês leram alguma coisa sobre isso.
Ok, foi foda.
Mas pior é a comunidade internacional pagando de porretinha.
“Vamos adotar os órfãos haitianos, coitadinhos”
Um monte de meninos, lá, perderam suas famílias.
Portanto, é um gesto de bondade acolhê-los em nosso país, onde há pouco, mas o pouco pode ser dividido para mais alguns pobres garotinhos vítimas das intempéries da natureza.
Não é?
Soa assim, né?
Famílias de todo o país, munidas de sua boa vontade classe média, se dispuseram a adotar uma criança haitiana.
E daí milhares de garotinhos pretos que mofam em orfanatos brasileiros – e que nem são cogitados para adoção por serem pretos – permanecem mofando em nossos orfanatos, perdendo chance de ter uma família para outras crianças pretas de outro país.
Aí você retruca: “ah, Jorge, mas a tragédia do Haiti foi foda e tal, é uma questão de humanidade. Não se trata de desprezar as crianças daqui, mas de ajudar as de lá”.
Vai desculpando, leitor de classe média, mas uma criança é uma criança. De lá ou daqui.
Não tiramos o lixo do nosso quintal e nos arvoramos a apontar as sujeiras do outros.
E mais:
Ninguém imagina o que, de fato, é melhor praquelas crianças.
O que importa é como soa um gesto assim.
Parecemos bondosos. Parecemos abnegados. Parecemos caridosos.
Como diz aquele ditado, só peço a deus que me livre da bondade das pessoas más e da maldade das pessoas boas.
Já foram esgotadas todas as possibilidades de ajuda possível para permitir que esses meninos e meninas permaneçam morando em seu país de origem?
Sim, porque o Haiti, por mais incrível que possa parecer, é – ainda – um país.
Qualquer tratado internacional zela pelo direito das crianças permanecerem em seus países de origem. A adoção internacional é um recurso extremo, último, que gera sequelas psicológicas danosas e pesadas para as crianças.
Isso sem contar com o tráfico internacional de crianças que, por conta dessa vontade súbita mundial de adotar crianças do Haiti, já tá rolando a todo vapor.
Onde houver um desejo humano, haverá gente disposta a ganhar dinheiro com ele.
Seja um iphone, seja uma criança haitiana.
Outra que já ouvi:
“Implode o que restou do Haiti e vamos acolher nossos irmãos haitianos em países ricos”
Nem comento. Como se já não houvesse xenofobia e preconceito suficiente no mundo, num passe de mágica, sejamos humanos, sejamos caridosos.
Podem apedrejar.
Ai daqueles que ousarem se insurgir contra a boa vontade do mundo neste momento de sofrimento.
Ai daqueles que ousarem pensar com clareza sobre o assunto.
10 Comentários em “O que pode acontecer a um país.”
-
Leo Baiano falou:
02/02/2010 em 14:29Fiquei surpreso com este post, ouvi falar que você estava se preparando para adotar um haitiano de 22 anos cujos pais aviam morrido no desastre.
Brincadeiras a parte, concordo com o que você falou, a impressão que tenho é de que o mais importante é parecer ser bonzinho e não a atitude em sí.
-
Maressa falou:
02/02/2010 em 14:52Boa vontade em adotar crianças do nosso próprio pais não faltam. Se você tivesse na fila de adoção por anos (mesmo se a sua “preferencia” for nenhuma) vc saberia disso.
Concordo quando diz que uma criança é uma criança, mas o que as pessoas querem é simplesmente a oportunidade de poder dar um lar a quem não tem.
A má vontade vem do alto escalão que não faz isso ser possivel. Infelizmente a tragédia no Haiti, foi vista como uma possibilidade para essas pessoas que estão esperando na fila. É claro que tambem foi vista com uma possibilidade para oportunistas, pedófilos, etc. Por isso deve ser pensado e repensado sobre esse tipo de adoção…Jojó da Babá Reply:
fevereiro 2nd, 2010 at 15:31@Maressa, não nego que haja boa vontade, mas milhares de casais preferem adotar crianças “parecidas” com o casal e recém nascidas. Milhares de meninos negros com até cinco anos de idade mofam em orfanatos.
E se você entendeu o lance de que isso possibilita o tráfico de crianças, estamos entendidos. -
Manuella! falou:
02/02/2010 em 19:19Essas são apenas soluções de consciências. É como levar comida pra um pobre no natal, depois da ceia farta e achar que resolveu os problemas do mundo. A questão é simples: classe média é egoísta. É egoísta por achar que metonímia salva o mundo. Metonímia só salva a si mesmo e a sua consciência. Essa história de cobrir um santo e descobrir o outro é um dos pontos chaves pra explicar a falta de desenvolvimento do nosso país. É muito bonito ver Bush e Clinton na TV, unidos por uma causa, é muito bonito encher a boca pra falar que quer adotar uma criança haitiana… Acontece que o mundo é escroto, as pessoas são escrotas. Pensar no Haiti, hoje, é apenas uma questão de transferência de preocupações, pra disfarçar nossas crises de consciência após o jantar, assistindo a TV à cabo. Três vivas para a hipocrisia. ;)
-
Mirdad falou:
02/02/2010 em 23:15Parabéns pela coragem em assumir esta posição que compartilho!
-
Alexandre falou:
02/02/2010 em 23:55É a boa e velha hipocrisia humana. Por unanimidade, concordo com sua posição sobre toda a situação e a reflexão que você produziu; é a verdade nua e crua. Mas veja bem, tudo se trata de imagem hoje em dia(e você bem deve saber). Nem sempre o santo é aquele que se mostra santo, mas se houver algo que o pinte e molde como tal, será feito.
Já diziam os profetas da moda:
Imagem é tudo. O resto? é apenas resto. -
Adiel Seffrin falou:
03/02/2010 em 7:50Claro, porque não ajudar o Haiti?
Se tivessemos alguns locais aqui no Brasil com desastres naturais, alagamentos, desmoronamentos, pessoas morrendo onde ninguém consegue ajudar, perdendo suas casas, coisas e familiares, aí sim poderiamos deixar o Haiti tentar superar os seus problemas enquanto tentássemos superar os nossos.
Aqui no RS é um exemplo, 90% das pessoas não precisa de auxilio médico, por isso que alguns médicos e enfermeiros se disponibilizaram a ir viajar para o Haiti para ajudar. Não é lindo?
–
Mas agora, se eu passo mal, tenho um treco e to quase morrendo e chego lá, o que eu vou ouvir, espera 14 horas aí no corredor que agente tá sem médico/enfermeira/leito e o raio que o parta..É Phoda…
Mutante Reply:
fevereiro 3rd, 2010 at 12:16@Adiel Seffrin, concordo plenamente.
Outro dia ouvindo sobre a tragédia do Haiti e sobre os “esforços” brasileiros pra ajudar o país me deparei com uma notícia que me deixou, pra dizer o mínimo, espantado.
Sabe qual estado brasileiro foi o primeiro a disponibilizar uma equipe de médicos especializados nas mais diversas áreas pra viajar até o Haiti e ajudar o povo de lá?
O CEARÁ!!! Isso mesmo, um estado que tem uma das maiores discrepâncias de nível social, com boa parte da população em níveis críticos de pobreza e o governo do estado é o primeiro a disponibilizar os médicos – que tenho certeza que não devem estar sobrando por lá – pra viajarem pro Haiti e ajudar a resolver por lá!
E aqui, bacana? Nada?
Não sei ao certo o número de médicos, acho que era uma equipe de 10 inicialmente e já estavam formando outra com outros 10.
Não sou cearense, mas fiquei puto com essa história, sério. Estive há pouco tempo no CE e no RS e posso te dizer que a situação médica no Brasil é foda pra todo mundo, mas no CE é bem pior que no RS e ainda assim sobra médico, não é o máximo?!
Duvido que não tenha grana no meio disso.A propósito, sabe qual a melhor coisa que pode ocorrer pra um político, aind mais em tempo de eleição? Um desastre ambiental. E melhor ainda se for em ano eleitoral. Assim ele pode contratar a porra toda em caráter emergencial, dispensando licitação e botando as empresas dos chegados pra trabalhar. E no final restam os cofres públicos vazios, enquanto os dele cheios em virtude das participações nos lucros dos chegados, lógico.
E ainda vai posar de salvador da pátria.Bem, acho que já falei até demais…
Jojó da Babá Reply:
fevereiro 3rd, 2010 at 14:00@Mutante e @Adiel, obrigado por me comprovar que não prego pra uma assembléia de surdos.
Estes posts eu faço muito pra desbafar, mas muito também pra ver o que nego pensa. Pq parece que todo mundo pensa igual e as vozes discordantes têm medo de se expor.
Traduzindo: dou minha cara pra bater pra ver vocês dando também. É bom saber que não tô sozinho.














Jojó da Babá Reply:
fevereiro 2nd, 2010 at 14:31
@Leo Baiano, jovem haitiano de 22 anos: comprei um pra você, Leo Baiano.
[Responda a esse comentário]