Presentear

Já fui bom nisso.
Já fui chuva grossa nesse quesito.
Hoje, não sou nem garoa.
Estou ficando velho e acabado.

Creio que os últimos presentes relmente interessantes que dei na vida foram ofertados ainda na década de oitenta.
Lembro que pintei uma gravata para o papai e, ainda, hoje, a coisa não parece totalmente demodê.

Não tinha dinheiro, daí catava um vidrinho velho e decorado, pingava duas gotas de água de lavanda dentro e chegava nos brodis dizendo “recebes agora duas gotas de suor de dragão, ó amigo, como prova de nossa amizade”.

Hoje estou ficando velho e sem tempo e – pior – cada vez mais autocentrado, e ser autocentrado me impede de sentir uma empatia verdadeira pelos outros e aí eu apelo pra fórmula “presente caro” e pá.

Dar um presente é se colocar no lugar do outro. O grande presente é aquele que demonstra que você gastou tempo pensando naquela outra alma, desvendando seus meandros mais profundos – ui – e disso tira uma coisa que é mais que um presente: é uma experiência.

Namorada sabe disso. Daí me deu – sabe-se lá como ela encontrou isso – um Banco Imobiliário dos Beatles. Ao invés de comprar a Vieira Souto e a Brigadeiro Faria Lima, você compra discos dos beatles. Os pininhos do jogo são personagens prateados de canções dos fab four, como strawberry fields forever (o pino é um morango, obviamente), rocky racoon (uma raposinha), octopus garden (um polvo) e um martelo de prata, aquele mesmo com o qual, segundo Paul McCartney, o Maxwell sai martelando a cabeça de gente desafortunada. Em todo o dinheiro do jogo, ao invés da clássica “in god we trust”, há a expressão “all you need is love”, e se todo o jogo em si fosse sem graça, este toque de ironia já salvaria o conjunto da obra de maneira espetacular.

Ela, ao me dar o banco imobiliário do beatles, combinou duas de minhas maiores obsessões: beatles e dinheiro. Ela poderia ter-me dado, sei lá a coleção completa remasterizada de discos da banda, mas gastou meno de um terço do valor que gastaria fazendo isso e agradou.

Aí você me pergunta: deu o que pra namorada?
Um perfume caro. Clichê.
E ela nem gostou da essência do treco: foi na loja e trocou por outra.

Tudo bem que eu tava sem tempo, tudo bem que há bilhares de desculpas pra isso, mas sacou qual o conceito do treco?
É triste dizer isso, mas nem tudo é grana. Sometimes, all you need is love.

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3 Comentários em “Presentear”

  1. emmibi falou:
    26/12/2009 em 12:24

    a idéia é bem essa: comprar quando achar algo a cara do outro. por isso que o ideal é comprar presentes o ano todo – quando vc ver algo que é a cara de alguém, pimba!
    aí depois guarda pro aniversário, ou natal, ou faz uma surpresa inesperada.
    o meu problema não é escolher – tenho um ego presentífero que me diz que nunca erro.
    o problema é, depois que compro, ficar guardando até a ocasião…

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  2. Elly falou:
    28/12/2009 em 9:34

    É bom saber que nem se preocupou este ano no q realmente iria me dar.
    Dinheiro não é tudo, não gostei do sabonete Mousse francês(careeerrrrriimo) que me deu, mas sua presença lá em casa foi meu maior presente.
    Te amo sá bocó

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    Jojó da Babá Reply:

    @Elly, adoro quando os posts daqui são interpretados literalmente.

    [Responda a esse comentário]

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