O valor da educação
Estilingado por Jojó da Babá 29/12/2009 às 7:54
Dá pra se ser plenamente feliz – e por plenamente entenda a coisa de maneira geral, ampla e irrestrita – sendo uma porta. A felicidade não está atrelada ao seu intersse pelos aspectos mais ordinários da cultura pop ou pelo seu interesse em música clássica alemã do século dezenove.
Inclusive, eu desconfio tenho certeza que saber mais sobre o mundo te faz ter uma consciência das coisas que te impede de viver de sorrisinho na boca o tempo todo.
A ignorância, já disse Cypher em Matrix (enfiando os dentes num belo bife), é uma benção.
Claro: o leitor mais esperto sabe que a frase não é de Matrix, é uma citação que deriva do Eclesiastes: “Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quem aumenta a ciência, aumenta a dor” (Eclesiastes, 1,18).
Ok, você poderia afirmar que não é religioso e não tinha como saber – como se a bíblia só pudesse ser lida por pessoas religiosas. Eu li Ulisses, de Joyce – ou tentei ler e fracassei, e ainda me cobro por conta disso – e sei que aquilo é uma releitura da Odisseia, de Homero.
Saber que Ulisses ou Dedalus ou Capitu são personagens de ficção não me impede de ler e me apropriar do treco.
Mas a frase poderia ter vindo diretamente do título daquela música do Ramones, “Ignorance is bliss”, não? Bom, de qualquer modo a frase, de maneira enviesada, existe também em 1984, do George Orwell (lá ele fala que ignorância é força, mas o sentido no texto tem uma certa ironia) e John Lennon falou a mesma frase numa entrevista com o Jann Werner, à Rolling Stone, em 1970 – uma entrevista reveladora sobre o final dos Beatles e tal.
Em qualquer dos casos, a frase tem lá a sua razão. O cara pode desconhecer esses caminhos que a frase já trilhou, mas entende o filme do mesmo modo, ou, se não do mesmo modo, em outro nível (referências são importantes, mas ninguém morre pela falta delas – Matrix é bom de todo modo).
Jogadores de futebol não estão entre as parcelas mais letradas da população. No entanto, muitos deles fazem fortuna e não morrem necessariamente no ostracismo: administram a grana que ganhara devido a uma habilidade muito específica e levam uma vida digna, feliz e patati patatá.
Na verdade, então, qual o valor da educação?
A erudição é como a grama do vizinho: sempre parece ter mais valor quando está nos outros.
Mas o conhecimento das coisas tem um valor: a busca da verdade.
Se um cara vira pra você e diz “o resultado da megasena da virada é amplamente conhecido: pegue o seno da inclinação do eixo terrestre, multiplique pelo fator da matriz determinante da data da lua nova dos meses ímpares do ano de 2012 e voilá: você obtém cinco números. O sexto é uma incógnita, mas tudo indica que é 42 (Douglas Adams se revira no túmulo)”.
Essa pseudo-amostra de erudição pode cegar muita gente (o argumento como um todo é uma extrapolação, entenda o conceito e estamos bem) e não é raro neguinho dizer “uau, é por aí mesmo”. Outros, cegos pela mistificação, poderiam ainda responder “bobagem. É amplamente sabido que os números da mega sena são a quantidade de pentelhos de Deus catada por cada um dos querubins assistentes de Deus em seu trono na última quinzena”.
Alguns, poucos, diriam :”será mesmo?”
Cultura, educação, erudição, tudo isso serve com o único propósito de fazer com que nos perguntemos “será mesmo?”.
E, se isso não é a felicidade em si, é ainda um jeito excepcional de encarar a vida.
Um comentário em “O valor da educação”
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Fábio Barreiros falou:
29/12/2009 em 9:07Serei muito sincero, eu não entendi nada, mas sou feliz! Tenho uma lôra me esquentar a costela…
Entretanto, vou me arriscar resumir todo o texto em uma simples interrogativa: “Quer beber?”













