Como acordar bem?
Fui dormir duas e meia da manhã.
Acordei seis da manhã. Um horário de peão de obra.
Levantei, tentei meter o carão de “sou trabalhador”, mas não deu. Deitei na cama de novo pra dormir mais uma horinha.
Aí acordo. Morrendo de sono.
Fiquei babaqueando. Com sono. Acendo um cigarro, cochilo, tomo um par de gritos de minha mãe “menino, desgraça, vai tocar fogo na merda do sofá”.
Levanto. Tomo banho mezzo dormindo, mezzo acordado.
Chego na sala, programa especial de aniversário da Ana Maria Braga.
Toca meu celular.
- Jorge, eu tinha de compartilhar isso com você!
Fingi saber quem falava, fingi entusiasmo e chutei “fala”.
- 10 anos de programa da Ana Maria Braga. E adivinha quem tá no paço do Pelourinho, aqui em Salvador, comemorando?
- Olodum?
- Isso. Que nem você falou no blog! Você é foda.
- Brigado.
- Você tá com voz de sono. Já acordou?
- Já. Tô assistindo.
- Mentira. Você tá dormindo. Tchau e bom dia.
Ok. Venho pro computs, ver e-mail, essas coisas.
Café. Outro cigarro.
Toca o telefone de casa. Elly, middle sister. Fala alguma coisa com minha mãe. Minha mãe me passa o telefone.
- Colé, Elly.
- Rei, tá demais. Falei com mainha agora: “mãe, encontrei, noutro dia, numa delicatessen daqui, um sarapatel de carneiro. Minha mão vira e pergunta ‘quem é esse?’. Faz um post aí. ahahahaha!”
- Joia.
- Sério, ela achou que “sarapatel de carneiro” era tipo um apelido. Entendeu? Apelido do segurança!
- Entendi.
- Ahahahahahahahaha. O apelido! Do segurança! Sarapatel de carneiro!
- …
- Faz um post.
- Vou fazer.
- Vou cobrar.
- Ok.
- Jura que vai fazer?
- ô.
- Vai nada.
- …
Outro café. Me liga um cliente.
- Jorge, tá na agência?
- Ainda não. Em casa. Algum problema?
- Ê vidão. Na minha próxima encarnação eu quero vir publicitário. Não faz nada, acorda tarde…
- Pois é – esse tipo de coisa eu nem discuto – Algum problema?
- Não, olhe só, tô querendo só ver com você sobre aquela peça que você me mandou ontem de noite. Linda. Gênio. Você é muito bom.
- Brigado.
- Sério, cara, você tem a manha. Você captou completamente a aura do produto. Só tem uma mudancinha.
- Claro que tem. Fala aí qual é.
- Assim, eu tenho uma dúvida se o título deve ter artigo ou não. Não sei se fica melhor “O spluft é splaft” ou só “spluft é splaft”. Se a gente for analisar, “Spluft é splaft”, sem artigo, fica mais impactante. Mas o artigo compõe a coisa, né? Ai que dúvida! Você acha o que?
- Olha, cliente, eu acho que não é uma diferença assim tão relevante.
- Como não é? Jorge, você, homem que vive da palavra, sabe bem a diferença que um artigo faz. Faz ou não faz?
- Faz. Ok. E aí?
- Bom, vamo analisar com calma: prepara 72 opções diferentes, com artigo, sem artigo, com o artigo de cor diferente, com o artigo em negrito, em itálico, em outra fonte…
- Pô, bicho, vai foder o cronograma da campanha.
- Nada, faz aí rapidinho. Foi feito em Corel? Manda que eu mesmo faço aqui.
- Não foi feito em Corel. Foi feito em outro programa… E, desculpa, mas não mando arquivo aberto pra cliente.
- Ah, cara, bobagem, a gente é parceiro. Manda aí o arquivo editável.
- Desculpa, cliente, mas arquivo editável não sai da agência. Daqui a pouco você pega, fode tudo no arquivo e é meu nome assinando a peça. Não passo arquivo editável.
- Nunca?
- Nunca.
- Ok, então. Faz mais 128 opções. Me manda até 9 horas?
- Nove horas eu tô chegando na agência. Não dá.
- Ok, então: 9 e 15 dá?
- Escuta, brodi, não é fábrica de salsicha. Não dá pra enfiar o porco de um lado e tirar a linguiça pronta do outro. LEVA TEMPO!
- Joia: Fico esperando seu e-mail às 9 e dez.
Outro café. A primeira neosaldina do dia. Me liga minha irmã. De novo.
- Escuta, vai fazer o que no sábado?
- Não sei.
- Vai trabalhar?
- Provavelmente.
- Vai almoçar lá em casa.
- Claro.
- Mentira: quando você fala assim, confirma logo de cara, você tá mentindo. Você adora enrolar as pessoas, marcar coisas e depois sumir. A gente é família, cara, não faz isso. Porque você não diz, simplesmente, “não vou”?
- Porque, se eu digo “não vou”, você começa uma ladainha dizendo “ahhhhh, vá, por favor, por favor, por favor…”
- Oxente, não sou maluca, Jorge. Pode falar. E aí, vamo almoçar no sábado lá em casa?
- Tudo bem. É mentira. Não vou almoçar em sua casa.
- Ahhhhh, por favor, por favor, por favor…
Desligo. Troco de roupa. Minha mãe permanece na sala, vendo o especial da Ana Maria Braga.
- Filho, tão dando um carro no programa.
- Joia.
- Só tem de mandar um sms pro número tal. Manda aí do seu celular?
- Mãe, custa 5 paus esse sms.
- O que é cinco conto pra quem vai ganhar um carro?
- Mãe, a gente não vai ganhar.
- Eu tô sentindo aqui no fundo do meu coração que hoje a gente ganha.
- Chega. Não vai mandar porra nenhuma de sms do meu celular.
- Grosso. Estúpido.
- …
- Aquele ali é o Washington Olivetto, né?
- É.
-Nossa, fico imaginando o dia em que você vai ser um publicitário famoso que nem ele e vai aparecer na tv em programas assim.
- …
Me liga minha outra irmã.
- E aí, irmão?
- Quié que tu qué?
- O blog anda parado, né? Nem no twitter você pinta, só retuitando.
- Trabalhando. Muito.
- Tá com uma vozinha. Tá no pique, né?
- Ô.
- Entusiasmo…
- Tô com sono.
- Porra, você antes fazia duzentos posts no blog, agora fica nessa, fingindo que tá trabalhando.
- Pois é. Vai rolar.
- FAZ UM POST AÍ NO BLOG, PORRA!
- Tô fazendo.
- Sobre o que?
- Você vai ler. Você acaba de entrar nele.
Passa aquela propaganda da coca-cola, em que uma mãe fala “eu sou essa coca-cola toda.
- E aí, filho, eu sou essa coca cola toda?
- É sim.
- …
- …
- Porra nenhuma: coca cola dá celulite.
O dia começa.
Será longo.

Jojó da Babá Reply:
novembro 5th, 2009 at 23:11
@Katrine Abatti, “taquipario” tá de bom tamanho :D
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