Violência em Salvador
Daí saí do trabalho pra dar uma palestra numa faculdade da cidade de Lauro de Freitas (claro que o assunto foi sério – marketing digital, redes sociais, blá blá whiskas sachê – e não essa patacoada daqui). Atendo e é Namorada:
- Tá onde, namorado?
- Bairro X. Why?
- Olha, não vá pela Avenida Paralela…
- Why?
- Nego tuitando aqui que pousou um helicóptero da polícia militar no meio da Avenida, pra pegar uns bandidos e tal. Vai pelo caminho tal.
Pra você ver como Namorada, além de tudo, é um excelente GPS. Depois que cheguei lá na faculdade, liguei.
- Rapaz, como é que pousa um helicóptero no meio da avenida?
- Ninguém sabe ao certo. Tá foda o treco. O horror, o horror!
Choquei.
Tipo, Salvador tá no esquema Duro de Matar, pousando helicóptero no meio de avenida.
Chego em casa, venho ver seus comentários. My little sister chutou a respeito do post que fiz ontem sobre os ônibus queimados (era ironia, meu povo, não achei que precisasse de legenda):
A questão é: enquanto o fato não atinge nem a mim, nem a você… O assunto se resume a um post em um blog. O duro é sentir na pele a insegurança, as pessoas se tornando prisioneiras de seus lares. O duro é ir pro trabalho sem saber se vai voltar ruffles sabor churrasco pra casa. De toda forma o que está acontecendo é lastimável e enquanto neguinho achar que tudo é festa, a coisa continuará assim. Eu sei do que eu vi e não importa o motivo disso. É algo inaceitável.
Aí eu vou e volto: já não somos prisioneiros, hoje?
Eu não ando com carro destravado.
Eu tenho medo de estranhos.
Não passeio de noite de vidro aberto.
Não paro em sinal fechado.
Não vou em determinados locais.
Se preciso, por algum motivo, parar o carro na rua, fico ligado.
Lembra quando eu falei isso aqui num post antigão?
A gente vive num país de gente pobre.
Nós, que temos tempo pra ler e fazer blogs, que temos grana pra ter banda larga, por mais que fiquemos com a titinhagem de dizer que “não, sou pobre, meu, tem gente rica por aí”, somos a elite do país.
Quando nego fala “a elite tem de pagar”, tão falando de nós.
Quando um sindicato, dirigido por mestiços de língua presa, pendura uma faixa no centro da cidade, como a que vi ontem, que tinha entre seus dizeres “os ricos têm de pagar o custo da crise”, eles estão falando de nós.
É questão de tempo pra que esse desconforto, essa indignação dos mais pobres contra os mais ricos se torne um confronto aberto. E aí, nem os seguranças de nossos condomínios serão aliados, mas inimigos. Eles virão em nossas casas e o pau vai quebrar, velho.
Se você é um verme amorfo e tá pouco se fodendo para a situação dos outros, seja egoísta e faça alguma coisa agora, porque logo, logo, tanta frustração e tolhimento da galera pobre vai se virar contra você.
Eu tento fazer.
Eu acredito que nós somos responsáveis por inserir essa massa amorfa, fedida e desdentada no mercado de trabalho, e nós temos a responsa de fazer com que eles se tornem nós. Porque em pouco tempo, nós, a elite, não mais poderemos desfrutar daquilo que achamos ser um modo de vida confortável.
Vivemos acuados em nossos condomínios, com medo de sair à noite.
Se queremos continuar nos endividando nos cartões de crédito e comendo comida japonesa, temos de fazer com que eles passem, pelo menos, a comer feijão com arroz e um bifinho todo dia.
É triste, velho, mas eu tava certo.
16 Comentários em “Violência em Salvador”
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Diu Mota falou:
11/09/2009 em 0:38Rápida:
Cheguei do curso e louca por um pastel especial daqui do lado da minha casa. Pego meia carona, e portanto, tive que pegar um ônibus pra chegar em casa. As ruas estavam vazias, me apressei. Porta na cara…Sai o pizzaiolo e pergunto:
- O que foi? Fechou cedo?
-É, melhor fechar…Não tem um policial por aqui… E você ainda na rua? corajosa, heim?!
Entrei depressa.
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Alexsandra falou:
11/09/2009 em 10:47Eu só ouço falar… não vi nada pessoalmente, será que existe um exagero da mídia? interesse político?
Não sei mesmo.
Mas que devemos praticar algo para mudar a situação da miséria, isso devemos.
bj
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João Deiró falou:
11/09/2009 em 12:10Claro que somos prisioneiros, claro que vivemos com limitações decorrentes da violência, etc. Mas discordo de você no sentido de que temos que fazer alguma coisa. Já não pagamos impostos? Já não financiamos sistemas de saúde e educação que não utilizamos? Já não respeitamos os direitos, a intimidade e a personalidade alheias? Já não votamos em quem entendemos ter capacidade de conduzir as Prefeituras/Governos/Presidências? O que mais precisamos fazer? Não é culpa nossa se essa mesma massa amorfa elege incompetentes com nove dedos que acham que uma obrinha aqui, uma inauguração acolá e cinquenta merréis por mês vão resolver alguma coisa, desde que a Dilmaaaaaaaaa seja eleita. Não tenho problemas em admitir e responder por meus erros (e não são poucos), mas não queira me culpar pela merda dos outros. Abs!
Tiago Sena Reply:
setembro 11th, 2009 at 14:53@João Deiró, precisamos fazer algo sim. Cobrar q o dinheiro dos impostos q pagamos como vc bem falou seja bem utilizado. Não dar desculpas de que é a “massa amorfa elege incompetentes com nove dedos que acham que uma obrinha aqui, uma inauguração acolá e cinquenta merréis por mês vão resolver alguma coisa”. Ninguem esta culpando ninguem pela merda dos outros, mas sem dúvida a merda geral esta melando você, eu, o jorge e cada vez mais e mais gente.
Falar, eu pago meus impostos e o governo q se vire é a mesma coisa que tampar os olhos e fingir q essa realidade nao existe.
Eu ajudo ongs para melhorar a qualidade de vida do meu bairro, e nao é com grana, é fazendo o q sei, criando pequenos flyers educativos para distribuição nas escolas daqui. Varios pequenos gestos podem fazer este país melhor, não importa se para mim, para você ou para a “massa amorfa”.João Deiró Reply:
setembro 11th, 2009 at 15:11@Tiago Sena, pois é, Tiago, eu admiro gente como você que consegue contribuir ainda mais. Eu, contudo, disponho de muito pouco tempo para mim mesmo e minha família, meu trabalho não deixa muita brecha.
Agora, acho um absurdo sim eu pagar quase 40% de imposto sobre meus rendimentos anuais e ainda ter que escutar gente dizendo que “faço pouco pela sociedade”. Você diz que devemos cobrar a boa aplicação de nossos impostos. Cobrar como? Nossa força está no voto! E de que adianta o meu voto se quinhentos pobre coitados trocam os deles por uma lata de farinha ou um cheque cidadão?
Por isso que perco a esperança em nossa sociedade. Enquanto existirem mandatários populistas, jamais poderemos bem escolher nossos governantes.Jorge Martins Reply:
setembro 11th, 2009 at 19:47@João Deiró, Tiago definiu melhor o que coloquei como uma provocação, cara. Não acho que fazemos pouco. Mas acho que cobramos pouco. Me incluo nessa, bicho, também.
Nossa força está no voto. Ok. Mas está também em tenter fazer com que os 500 pobre-coitados entendam que aquela lata de farinha não paga 4 anos de putaria no governo às nossas custas.
Só a educação salva este país. E nisso, nós, educados e conscientes, podemos ajudar. Com pouco, com muito.
Entendo toda a sua revolta e compartilho da mesmíssima indignação. Mas, a cada dia que nós dizemos “não tem jeito”, aí, compadre, é que não tem mesmo.
Não tô culpando a elite de nada. Só daquilo que nós temos culpa mesmo: fumar maconha e alimentar o tráfico, comprar cd e dvd pirata e tals.
Pequenos gestos nossos mudam tudo.
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Sergio falou:
11/09/2009 em 13:29Eu to fazendo a minha parte. Buscando programas de migração qualificada na Austrália, Nova Zelândia ou Canadá. Enquanto não sai, estudo sair do Rio para o interior de Minas.
João Deiró Reply:
setembro 11th, 2009 at 13:51@Sergio, é bem por aí mesmo…
Jorge Martins Reply:
setembro 11th, 2009 at 19:49@Sergio e @joão_deiró, eu já pensei muito assim, também, e entendo completamente a vontade de pular fora daqui.
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Ana Paula falou:
11/09/2009 em 13:46Bah, eu fiquei quase uma semana sem entrar aqui (mentira, eu entrava, mas sei lá como, pq não via os post recentes, o ultimo que aparecia era o do Beirut)
e tem muita coisa nova. Nem consegui ler tudo ainda.
Mas enfim, depois de mto tempo, escrevi no meu blog. Falo sobre vc lá. =D Pouca coisa, puxando o saco, claro.
beijos
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Ana Paula falou:
11/09/2009 em 14:14eu tinha deixado um comentário aqui, não tinha?!
Jorge Martins Reply:
setembro 11th, 2009 at 19:25@Ana Paula, se deixou, taí. Se não tá, você se enganou…
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Daval falou:
11/09/2009 em 20:41Ficou falando mal de carioca viu no que deu né? Vou viajar praí e dar um curso de sobrevivência urbana 101. Quando tiver nego correndo de AK-47 na rua tu me avisa.
Do grande caralho roxo o seu blog. Coisa fina mesmo.
Jorge Martins Reply:
setembro 11th, 2009 at 21:05@Daval, tamo precisando, jovem carioca.
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Daniele falou:
12/09/2009 em 1:47Desde cedo que eu ia comentar, mas enfim…
eu, mera escrava da faculdade, na ponte Stella – Lauro de Freitas, não sabia que a cidade estava desabando assim. Vi as notícias de ônibus queimados e postos policiais baleados. Mas parecia algo tão distante que não me toquei da gravidade do problema… Prisioneiros já somos, e a tendência é recuar para fins de mundo…
Linha verde, lá vou eu…

Jorge Martins Reply:
setembro 11th, 2009 at 19:31
@Alexsandra, em certa medida, é claro que há um interesse político de alguém em divulgar o fuá da maneira como vem sendo divulgado. Mas que o bicho tá pegando, tá.
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