Um ano detestando gente inteligente

Bom, fizemos um ano de veleidades, vicissitudes e idiossincrasias. Um ano bom, em resumo – pra você, eu não sei, pra mim tá joinha.

Fui tentar compilar alguns momentos deste blog. Faltou saco – e pedir a colaboração de vocês, como costuma ocorrer, não deu em muita coisa. Fuçar o que presta em quase 700 posts é um trabalho cavalo.

Vou listar alguns posts, mês a mês. Não os melhores – provavelmente o contrário – mas os mais, digamos, significativos. Ao trabalho.

Setembro 2008

Rolava o mimimi sobre a reforma ortográfica

Foda-se a reforma ortográfica.
Só a trema morreu em boa hora.

Comecei a envelhecer.

E meus textos, em 20 anos, provocarão aquela sensação esquisita de cosquinha no umbigo que a gente tem quando lê o bom e velho Machadão dizendo “sacudi um peteleco e um piparote no Pancrácio. A gente há de dizer que não é cousa boa”.

No futuro, quando todos estiverem escrevendo AxiM, Em IdIoMa De MiGuXo, serei apontado na rua.

…e estávamos na boca das eleições

- Ah, eu vou votar no candidato X.
- Bacana.
- E você, Jorge?
- No candidato Y.
- Ah, mas ele é de direita!
- Sim, e?
- Ah, mas o comunismo é o único sistema de governo que trata as pessoas com igualdade.
- Eu não acho que as pessoas são iguais.
- Ah, sim, claro! Você se acha melhorzinho que todo mundo…
- Não. Me acho pior que alguns e melhor que outros. Mas igual, igual, não.
- Ah, mas todo mundo merece viver com dignidade!
- Concordo.
- Então você concorda com o comunismo, o único sistema que trata todo mundo com dignidade!
- Nego tem dignidade na China? Em Cuba?
- ô
- Então vai morar lá. Sem internet e tomando bala na cabeça.
- Ah, não é assim, e tal. Em Cuba 100% da população é alfabetizada.
- E 100% vive com medo.
- Isso é uma visão arrogante.
- Xô explicar: imagine que a dignidade seja, digamos, uma porção de arroz. Todo mundo tem direito a um punhado de arroz. Isso é fato. Mas o comunismo parte do pressuposto que todo mundo tá satisfeito em ter uma porção de arroz e saber que o seu vizinho também tem. Mas o mundo real é cão, velho. E, tipo, eu não quero só um punhado de arroz. Eu quero uma tv de LCD. Não quero que meu vizinho fique sem arroz, mas se der pra que eu e ele tenhamos arroz e eu ainda puder ter uma tv LCD, tanto melhor. E a TV LCD só compra que for melhor em algum aspecto. Ou mais esperto, ou mais esforçado, ou mais inteligente, ou mais qualquer coisa.
- Ninguém precisa de uma tv de LCD pra viver com dignidade. Basta arroz pra todo mundo.
- Eu viveria de maneira muito mais digna com uma TV LCD.

(eu ainda não tinha uma tv lcd. Vivo mais dignamente, hoje, sem dúvidas).

Outubro 2008

Comecei com o árduo trabalho de tentar me definir. Não fui bem-sucedido.

Daí que a melhor definição pra mim é:

Uma dose generosa de Fernanda Young.
Duas partes de Yuppie deslumbrado de terno e sapato de bico quadrado.
Cachaça, cerveja e destilados a la vonté. Cigarros idem.
Pitadas de auto-indulgência e um instintinho de auto-destrutividade pra gratinar.

Mas sobretudo os sapatos de bico quadrado.
Tem dias que eu acordo querendo ser Christian Bale em Psicopata americano, Michael Douglas em Um dia de fúria, Amélie Poulain e Charles Bukowski. Principalmente Bukowski.

Henri Chinaski.

Duas pastilhas de alka-seltzer, uma boa dose de whisky Jack Daniels com água e um pack de cerveja tuborg. Só muda que Bukowski devia fumar Marlboro, e eu fumo Camel. No resto é o supra-sumo da felicidade. E uma máquina de escrever. Elétrica pra não fazer força. E gente disposta a pagar meus vícios em trocar de um ou dois generosos nacos de minha carne em forma de textos auto-referenciados e, de certo modo, auto-depreciativos.

Novembro 2008

Escrevi um verdadeiro tratado acadêmico sobre o pagode “desce com a mão no tabaco”. É minha constante luta para achicalhar a cultura baiana. Um ano depois, tem professora descendo com tudo enfiado. Sinal de que meu blog não vale um peido de cigano.

Note um componente misógino nesta parte da canção. Se observarmos, o eu-lírico manifesta descontentamento com o fato de que a parceira fume (não sabemos ainda o nível de envolvimento entre o casal). E afirma que já havia negado à personagem feminina o direito de fumar. A repetição das estrofes reitera e acentua o caráter de descontentamento do eu-lírico. À luz das conquistas modernas do feminismo, este comportamento demonstra;

a) Posse: eu, como seu amo e senhor, a proíbo de realizar determinadas ações;
b) A sua insistência em me desobedecer me gera descontentamento;

De modo que, após a repetição incessante deste dístico, o eu-lírico explode num acesso misto de raiva e confusão e proclama, célebre:

“Desce com a mão no tabaco”

***

Em breve, novos posts.

14/09/09 | Veja mais | 15 comentários;

15 Comentários em “Um ano detestando gente inteligente”

  • Daniele falou:
    14/09/2009 em 9:08

    “A chuva cai, a rua inunda, ô Jorge eu vou comer seu bolo” [...]
    Vai fazer um ano que eu frequento essa joça! Com muito orgulho. Mas somente esse ano criei coragem para comentar… descobri o seu blog através do google, procurando alguma coisa útil e de bom conteúdo na internet. O primeiro post que eu li aqui foi esse: http://www.detestogenteinteligente.com.br/2008/11/essa-eu-ja-contei-no-bar.html lembro de ter impresso e retirado as respostas para fazer a brincadeira com meu irmão =D
    E daí fui ficando… tomei a primeira dose, e quando vi, já estava viciada. Me tornei seguidora de Ju e de Pablo vendo os links aqui no blog. E quando eu me toquei, já havia virado blogueira também.
    Adoro poder estar aqui acompanhando as suas loucuras diárias rsrs
    Sucesso, e que venha mais um ano =D

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    Jorge Martins Reply:

    @Daniele, você é uma fofa. Beijoquinhas.

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  • João Paulo falou:
    14/09/2009 em 14:09

    Conheci o DGI numa pesquisa no google. Festa de São João lá do trabalho e fiquei responsável pelas músicas, queria colocar uma sequência só com aqueles forrós sacanas e não sabia quem cantava a pérola “Ela adora o meu kadett, se amarra no meu kadett. Ela se senta em meu kadett e ainda fica a noite inteira alisando meu kadett.”

    Fui procurar e o primeiro endereço era o deste blog de grande utilidade para qualquer fim. Vim, li e passei a voltar sempre (menos nos finais de semana porque tô ligado que o dono não pinta por aqui).

    Continuo sem saber quem canta a música (tenho a impressão que é Zé Duarte), caso alguém saiba, por favor, me ajude. Já tô montando a do ano que vem.

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    Jorge Martins Reply:

    @João Paulo, vou achar essa info pra você, jovem. Resumiu a história, você se amarrou no meu kadett, né?

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  • Marcelo falou:
    14/09/2009 em 18:51

    Isso…!!! eu não tive um pingo de seco para sugerir posts antigos. Eu tenho problema com coisa velha, por isso sou capitalista e consumista, mas sabia que vc não deixaria em braco hahahahaha.
    Parabéns meu primo

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    Jorge Martins Reply:

    @Marcelo, problema com coisa velha eu também tenho: taí meu pai que não me deixa mentir.

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