Não se leve tão a sério

Nem me leve tão a sério. Mesmo.
É tudo um monte de bobagens. Minhas opiniões, as suas, esse monte de coisas que a gente brada aos berros batendo no peito.
Cheguei a essa conclusão devido aos comentários – alguns bem inflamados – que vocês me mandaram por conta do post sobre o treco do Beirut.

Este post é sobretudo um lembrete pra mim mesmo. Pra não me levar tão a sério. Confira.

***

Por favor, vamos deixar de hipocrisia! Em qualquer outro lugar do Brasil isso teria acontecido (ou não?!), o cara não chamou pro palco? A culpa foi de quem?

…não entendo onde está a minha hipocrisia – se você apontar onde, no texto, eu estou sendo hipócrita, fica mais fácil. E mais: em qualquer lugar do mundo onde ocorresse algo parecido (artista bêbado chama o povo pra subir e alguém rouba um microfone) a falta de educação seria a mesma.

Culpa da cultura baiana? Primeiro essa galerinha aí que foi pra esse show não se considera baiano. Ora! Quanta hipocrisia! Aproveitaram a oportunidade para negar, como fazem todo o sempre, o local onde nasceram. Triste são vocês!

Essa “galerinha”, obviamente, me inclui. Não queria ser londrino. Não queria ser do leste europeu. Sou de nazaré das farinhas, com orgulho, e baiano e cachaceiro e folião de carnaval e tudo o mais.
Talvez, na verdade, eu quisesse mesmo viver em uma cidade com mais gente educada, em que as coisas não virassem oba-oba. So isso.

@Jorge Martins, que é que tem a ver um roubo de microfone com o fato de ser baiano? Só se roube microfones e outras coisas aqui, é? Hum, tá… É esse tipo de associação que é inaceitável. (..) Daí o problema: você acaba fazendo coro com aqueles que confundem cultura com manual europeu de comportamento, e não como expressão autêntica de um povo, e faz isso exatamente quando a Europa e todos os cantos de cultura ocidental sofrem uma super crise de criatividade (e nós não, apesar da mercantilização). Que tal inverter a lógica e tentar buscar culpados por isso, pelo fato de bons artistas não vierem para vá, nas elites e não só no povo, que daqui é sofrido pra caralho e ainda consegue ser feliz e criativo?

Não associei o fato de ser baiano e roubar microfone. Mas aconteceu aqui. Como diversas coisas parecidas rolam adoidado em shows na bahia. Me envergonha. Se não rola com você, ok: você é um afortunado. Atirar “nas elites” é incluir eu e você nisso, cara. Povo sofrido, feliz e criativo é discurso recorrente em cartilha comunista. E dar opinião é se expor – eu faço isso e você também. Qual a lógica subjacente em não tomar partido? Essa é a graça de viver num ambiente democrático, ora pitombas. Mas concordo em discordar.

O leste europeu, de onde esse povinho “indiota” pensa que nasceu, é formado por pessoas supereducadas, sabia? Uma beleza! E de onde vem seus parâmetros de “boa educação”? Já parou para pensar nisso? Já tentou pedir uma informação simples nas ruas de São Paulo? O curitibano é educado porque não joga papel no chão? (..) Se tem uma coisa que a Bahia é única, é o de criar tipinhos insuportáveis. Nada mais tosco que um indie numa cidade tropical. E viva a pós-modernidade! E viva a cultura baiana, que de tão democrática permite que tipinhos com estes andem pelas ruas sem que um skinhead arranque suas orelhas!

São paulo tem algumas das pessoas mais bem educadas que já conheci na vida – e não me refiro a gente chique e intelectual, mas taxista, feirante, etc. Curitiba idem. Lá e aqui, tem gente legal e gente imbecil. Generalizar é sempre um erro – eu só critiquei quem subiu no palco. O resto do povo ainda é meu amiguinho. Ainda.
Não vejo nada tosco em quem quer ser indie em cidade tropical, ou qualquer outra coisa. Se o cara quer dar o rabo prum jegue viúvo, andar de franja ou decepar o próprio dedo mindinho em protesto contra as eleições no irã, problema de cada um.
Me incomoda é a falta de educação. Só. Se conseguirmos chegar a um acordo quanto a isso, valeu meu post e dormirei sossegado.


Desde quando você me conhece para me chamar “da elite”? O que é elite para você? Minhas referência são da ciência polícia e não do senso comum. Por favor, continue se afastando ainda mais da FACOM (nota minha: Facom é a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, berço indie por excelência de Salvador) para ver se um dia vai de encontro com algo além da filosofia de boteco. Eu também acho que pode continuar existindo “indiotas” soltos por aí. Sou eu aqui o defensor da Bahia e não você, ora pois! Pra mim isso sim é democracia, porque respeita as opções de cada. Você critica a pós-modernidade, mas não compreende de onde vêm esse discurso, pois você é um belo exemplo de pós-modernidade. Critica tudo, não assume compromisso com nada, é contraditórios nos argumentos, não os fundamenta para além do senso comum e acha tudo isso lindo. Além disso, tem um pezinho na FACOM, nitidamente. (…) Se você acha que não há contradição social, que sua opinião não assume caráter estratégico… Pimba! Você é um belo exemplo da pós-modernidade. Mas acredite, a democracia não é tão democrática quanto parece e sim você pode ser atropelado pelas suas opiniões em breve. Não por mim, porque apesar de tudo, você é um “companheiro” [já que me chamou de comunista], mas por aqueles que você se faz de porta-voz.

Depois desse comentário eu parei. Pensei “ok, e aí? vou render?”. E desisti de bater boca. E respondi.

Se você tem tempo e vigor pra discutir esses lances nesse nível de profundidade, malandro, então pra mim você é elite. Se não no sentido acadêmico, pelo menos no intelectual. O que vale, de fato. E filosofia de boteco é o menu da casa, compadre. Se eu quisesse levar as coisas pro lado acadêmico da coisa – e poderia fazê-lo, mas não quero – não faria o tipo de texto que faço aqui. Aqui é boteco mesmo, e adoro quando, por mais que o assunto seja denso, a coisa termina em uma boa gelada.
E não há um antagonismo. Você não é o defensor da Bahia. Nem eu aponto o dedo pra bahia. Respeito suas opções, de verdade.
Não tem véu nenhum caindo. Nunca afirmei ser o liberal ou o conservador crítico paladino. Sou um cara que tem algumas opiniões sobre as coisas – e só.
E não leve nada tão a sério, cara. Nem meus argumentos, nem minhas contradições, nem quando, meio de sacanagem e meio pra te deixar pilhado, eu falo que seu discurso é comunista.
Não sou porta-voz de nada e nem ninguém e nem me arvoro a estar com a razão sobre nada. São apenas opiniões – eu posso apenas estar sinceramente enganado, afinal.

***

A vida é assim. Quando você relaxa um minutinho, termina se levando demais a sério, se empolga ouvindo o som da própria voz e, quando menos espera, está batendo boca por uma coisa que não vale a pena.

Eu me vigio constantemente pra evitar entrar nessa armadilha. A gente começa a gostar de ouvir o ressoar da própria voz. Deus me livre disso.

Aliás, bater boca por conta de um post de blog, qualquer que seja ele, é mais ou menos como brincar nasqueles carrinhos de auto-pista de parque infantil (brinquei num treco destes durante o final de semana, daí todas as minhas metáforas são auto-referenciais, as you know). Por mais ódio que você guarde em seu coração, os danos que causamos no outro são sempre mínimos.

Você pode tomar a maior distância do mundo e se arremessar contra a outra pessoa com gana e fúria e violência, mas o máximo que acontece é você ouvir um “pof” murcho.

08/09/09 | Veja mais | 8 comentários;

8 Comentários em “Não se leve tão a sério”

  • Caio Costa falou:
    08/09/2009 em 10:45

    Cara, vc tem toda a razão. É impressionante como tem gente levando as coisas para o lado filosófico em textos como os daqui.

    Eu mesmo passo por isso quando um post q escrevo pra o Blog na TV vai para na capa do Yahoo. Desta vez, no meu post sobre possíveis versões brasileiras #autojabá – http://blogna.tv/2009/09/05/top-10-possiveis-versoes-brasileiras-dos-seriados/ – o que teve gente filosofando como eu denegri a imagem do país, diante de um texto irônico, não está no gibi.

    Como certa vez disse Carballal, que foi meu professor de História no 3º ano: é ótimo quando temos a mesma capacidade de falar de igual com um intelectual e o zé do buteco, sabendo usar a linguagem no lugar certo.

    Também não levo a sério esses comentários, senão ficaria batendo boca pelo blog o dia todo.

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  • Carolina falou:
    09/09/2009 em 0:41

    Caí aqui por acaso e gostei muito desse post, porque está escrito hipocrisia e não hipocresia e opinião e não opnião. Dá gosto. Mas acho a Bahia um lugar um pouco problemático sim, pois é cheio de de calor e axé, a música. Não gosto de pensar nessas duas coisas, ainda mais juntas.

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    Jorge Martins Reply:

    @Carolina, be my guest. Quase todo dia tem. Tirando, obviamente, os dias em que não tem. Aí não tem mesmo.

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