Brincando de mendigo
Eu, de quando em quando, tenho a impressão verdadeira de que vou terminar meus dias como mendigo. Pode ser apenas um medinho de ser pobre – este que me assola cotidianamente – mas tenho medo de chegar na velhice e ter de ficar pedindo cigarros em mesas de bar para grupos de jovens bem-sucedidos.
Talvez o medo seja do olhar que os jovens bem-sucedidos lançam para os mendigos. Um misto de escárnio irreverente e nojo.
Não ria. É sério.
Mendigo é um treco que me abala e me entristece. Sendo um pouco mais sincero agora que na frase anterior, mais me amedronta que qualquer outra coisa. Um ser humano virar mendigo é pior que, sei lá, morar em Roraima.
Mas, de um modo ou de outro, todo mundo brinca de ser mendigo dentro de casa.
Eu mesmo, durante o que eu calculo ser uma boa parte de minha vida adolescente, passava dias e dias dentro de casa vestindo um short vermelho, velho, furadinho e com o elástico destroçado. O estado do short era tão calamitoso que um dia, meu pai, irritado com aquele trapo que vivia mostrando partes bem favorecidas e cabeludas de minha anatomia, me catou no meio do corredor e rasgou o short na unha pra me impedir de utilizá-lo.
Aí não rola, né, malandragem?
Depois, quer que eu seja um adulto bem-resolvido e maduro.
Depois, quer ganhar presente de dia do papai.
Fato é que, ainda hoje, guardo uma lembrança carinhosa por aquele shortinho.
E sei que todo mundo, assim como eu, tem uma peça de roupa malévola e acabada, mas que usa pra dormir.
O problema é quando você vai dormir acompanhado.
No caso, melhor mesmo é dormir nu. O que facilita bastante as coisas. O problema, malandragem, é que ninguém chega na cama já nu. A não ser que você seja, sei lá, a Carla Bruni. Ou o George Clooney.
Uma coisa que sempre observei, em minha curta – porém atribulada – vida adulta, é que você só conhece de verdade uma namorada quando viaja com ela. Se, na hora de deitar, ela saca da mochilinha um baby doll de seda marroquina, cuidado: é o tipo de mulher que tá escondendo o verdadeiro eu dela para você.
Com isso, não estou defendendo que as namoradas do mundo passem a utilizar camisetas de campanha política quando forem viajar com seus namorados. Mas é fato que ninguém dorme, na vida normal, com uma peça de roupa que, com uns dois ou três acessórios, serviria perfeitamente para ir ao último restaurante japonês da moda.
A roupinha de domir de uma mulher revela mais sobre ela que qualquer outra coisa neste mundo. Se você, sensual leitora, dorme de calcinha de algodão e camisetinha, demonstra ser uma pessoa sexy e despojada. Se você dorme de calcinha bege furadinha… você entendeu. Se você, quando viaja, prefere levar um pijaminha com flores de lótus bordadas e ilustrações japonesas em sumi-e, você merecia estar numa novela.
Eita que hoje eu estou todo nipônico.
4 Comentários em “Brincando de mendigo”
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Larinha falou:
08/08/2009 em 16:49Nem vou comentar sobre calcinha bege ¬¬
Mas roupa de dormir de seda/cetim é a p-i-o-r coisa do mundo…. Eu tb tinha uma roupa de mendiga, mas minha irmã roubou de mim…aquela miserenta!
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nanná falou:
11/08/2009 em 11:42hahaha eu tinha um shortinho lilás que minha mãe lascou de raiva. adoro ser mendiga. Mas vc não falou nda de quem dorme só de…, deixa pra lá
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Jorge Martins falou:
11/08/2009 em 12:18Nadja, darling, você dorme só com o quê?

08/08/2009 em 10:28
Isso tudo por ter acordado sem seu shortinho vermelho? É verdade… o pior é quando a gente está em casa, domingo a tarde, à vontade, brincando de ser mendigo, e chega visita de surpresa…
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