Eu vou quebrar tudo aqui
E Deus permanece numa batalha pesada no sentido de enfiar objetos perfuro-cortantes no meu fiofó.
Eu tinha net, aquele serviço de internet e tv a cabo de bosta que a gente só coloca enquanto não sobe na vida e não tem grana pra meter uma sky fodendo pelas ventas.
Eu tinha.
Mas daí fiquei rico.
Ou melhor: deixei de ser otário.
Pagava uma quantidade de dinheiro escalafobética por um serviço que só pode ser definido como “um acúmulo de restos de meleca goguenta catarrenta cuspéstica de nariz colado na mesa de trabalho, sob um chiclete mastigado, cuspe, pus e bosta do besouro rola bosta”.
Isso num resumo simples.
Eu sei e vocês sabem que eu conseguiria uma blasfêmia melhor.
Aí cancelei a porra toda, contratei a sky e tal.
Ficou mais barato, inclusive.
Isso em março.
Daí hoje a net vai e debita de minha conta a assombrosa quantia de cento e oitenta barão.
o.0
Essa foi minha carinha quando puxei o extrato.
Não o de tomate, anta: o extrato do banco.
Ligo pro chibungo, corno, filho-dum-rói-que-fuça do atendente do SAC.
E o desgraçado maldito com câncer purulento na cabeça do pau, com aquele sotaquezinho mezzo paulista mezzo calabresa que todos os atendentes de telemarketing – inclusive os cearenses – são obrigados a mimetizar, chuta minha cabeça:
- Senhor, o senhor vai ter de estar comparecendo em nossa sede para nós estarmos averiguando o que está se passando com este debitamento que é, claramente indevido, ok?”
- Então, seu viado, se a porra é indevida, me credita o valor e fodeu.
- Só na sede, senhor.
- Pra meter a mão na boceta de minha conta você não queria minha presença física, mas pra devolver minha desgraça de meu dinheiro você quer me ver, né?
- Posso ajudar em mais alguma coisa, senhor?
- Pode sim. Levante de sua baia maldita, tire o headset da cabeça e enfia no cu.
Fui à net.
Na chegada, uma coroa já aos berros com a atendente.
“QUINZE DIAS PRA VOCÊS ME DEVOLVEREM MEU DINHEIRO?”
Peguei a senha. Sentei.
Uma mulher ao meu lado discutia com o marido, no melhor estilo “vem cá, meu bem, vamos colocar no débito”. Me meti na conversa falando alto e disse “olha, não contrata essa merda não que o povo rouba a gente. Vai pra SKY. Liga presse cara que ele instala amanhã. Toma o número”.
A mulher pegou o número e saiu.
A coroa que berrava emudeceu e sentou do meu lado.
Nego chama minha senha. Levanto, meio com medo da coroa. “Olhei pra ela e ela parecia normal, mas me lançou aquele olhar de cumplicidade que só os condenados lançam uns aos outros.
Fiquei com pena da tia.
Eu sou jovem e tenho tempo de me exasperar com essas coisas.
Ela só queria ver os leões comendo gnus no discovery channel.
Calmo e falando num tom de voz soturno, fingindo uns tiques nervosos, me dirigi à cabine da atendente.
- Olá, senhor, posso ajudá-lo?
- Pode sim. Vocês têm seguro?
- Co-como senhor?
- Se-gu-ro. SEGUROOOOOOOO! Aquele negócio que você paga pra cobrir os prejuízos físicos no caso de um incêndio, uma hecatombe nuclear, algo do tipo.
- Perdão, senhor, não estou compreendendo.
- Deixa eu explicar, filha: cancelei essa bosta. E tiraram um dinheiro de minha conta. Eu sou publicitário, eu vivo estressado, e eu saí do escritório, hoje, disposto a ter esse dinheiro de volta. Se vocês não me pagarem hoje, não tem galho: eu vou dar uma de maluco e quebrar no pau todo e qualquer equipamento eletrônico caro que tenha por aqui. Eu vou dar uma de doido. Eu vou desgraçar essa boceta maldita ao tabefes. Eu vou, em bom baianês, “rumaladisgraça” nesse sede feia e que fede a mijo. Entendeu?
- Calma senhor.
- Eu tô calmo.
- Fique calmo, senhor.
- Eu tô calmo, meu bem. Ainda.
- Bom, o senhor preenche esse formulário e, em quinze dias, o valor será ressarcido.
- Não serve.
- Mas senhor…
- téééééééééééééééééééééééééiiiiiim (gritando, imitando uma campainha desses joguinhos de televisão). Resposta errada. Não serve.
- Senhor, por favor, tenha calma…
- TÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMM (louder and louder, baby, I´m not a lady).
- Senhor, se controle!
- Eu quero meu dinheiro hoje.
- Mas senhor.
- Faça melhor. Se esforce. Eu vou quebrar tudo aqui.
- Na minha instância, senhor, é o máximo que posso fazer.
- Então, minha filha, faz o seguinte: chama sua gerente, sua supervisora, o papa, deus, a puta que te pariu, mas eu quero uma solução. Eu vou quebrar tudo aqui.
- Mas…
- Eu vou quebrar tudo aqui.
- Senhor…
- (sombrio) eu… vou… quebrar… tudo… aqui…
Ela levantou, foi chamar a gerente-supervisora-whatever. Daí esta outra mocinha me levou pra uma salinha arrumada. Me conversou, me deu café, preencheu o formulário na hora, me deu duas dúzias de documentos e me disse, ao final de tudo, que vai me ressarcir o valor em dobro. Pra eu aguardar.
Ou seja: toda essa pantomima e me fodi de todo modo.
Vou aguardar.
Quando eu saio da saleta, a tia tá de novo aos berros.
Colei nela: “dá uma de maluca, tia, que a porra anda melhor”
E saí. Com fé na tia. Ela iria brocar tudo, com fé em Deus.
***
Aliás, falando em Deus, another tricky thing desse peralta contra minha pessoa.
Chego em casa e a Sky sem sinal.
E aí não me resta outra opção: mais um post enorme.
Caminho das índias não dá.
