E aí eu não guento: segue um capítulo do livro
O primeiro.
Sejam caridosos como eu não seria com você.
O primeiro capítulo do livro que eu tô escrevendo.
Lá vai:
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Imagine uma espiga de milho. Assada. Daí a pegue pelas pontas e a torça. Com força. Do mesmo modo como os grãos de milho assado vão pulando inteiros, íntegros, da espiga, era assim que os dentes pulavam para fora de minha boca. Aos borbotões. Às centenas. Uma profusão de dentes se soltando de seus lugares enquanto eu puxava, como uma cortina, as abas de pele repletas de pêlos grossos de meu rosto. Cada dente inteiro que me saia da boca e caia na pia do banheiro do bar tinha uma aparência oblíqua, translúcida, como que de acrílico semi-fosco. E cada um deles deixava uma lembrança sólida de sua ausência na carne mole e machucada de minhas gengivas, à medida que se iam soltando.
Havia começado mais cedo. Ainda à mesa, na primeira dentada em um pedaço mole de batata mal-cozida. Primeiro foram os encavalados – sempre os tive, nunca os estimei, e talvez por saberem da falta de meu afeto, resolveram se despedir primeiramente. Soltaram-se estrepitosamente e não faziam tanta falta porque, ora, eram os encavalados, e sua ausência era suprida de modo automático pelos que estava debaixo. Sempre imaginei que ocorreria algo do tipo. Eles não deveriam estar ali: era uma questão de tempo até que a liberdade.
Gisele não notou nada. Nem ela nem o vestido verde água de alças, bonito e quase transparente, que ela usava. Ou notou, mas foi educada. Porque continuava a falar animadamente alguma coisa sobre o seu primeiro beijo, ou sobre essas coisas que se conversa fingindo extremada animação num primeiro encontro. Eu fingia sorrir com um arremedo de guardanapo na boca, o que a fazia sorrir também e isso, se não funcionava como disfarce, me era extremamente prazeroso, e me fazia esquecer por um átimo de segundo do primeiro dente que se soltara de minha gengiva – um canino inferior, do lado direito, este encavalado de maneira disfarçada, para dentro da boca. Gisele tinha uma cara redonda e uns olhos em cor e formato de amêndoa e uma cor de café com leite, mais leite que café, uns cabelos enroladinhos e umas maneiras de falar as coisas sorrindo que fariam a coisa toda ficar mais encantadora ainda, se eu não sentisse aquela pressão sob os dentes.
Gisele merecia mais que aquele espaço aberto de paredes caiadas e aquele tanto de mofo que recobria essas mesmas paredes. Pelo menos Neusa teve isso, mesmo sem merecer, à época em que começamos a namorar. Gisele merecia um restaurante desses chiques que têm carrinho de sobremesa. Gisele não merecia a estranha decoração de garrafas de cachaça, a mesa de bilhar torta, nem a tigela de ovo, cebola e batata em conserva que apodrecia sobre o balcão ao lado de um velho que, este sim, já apodrecera há tempos. Gisele merecia a finura de um café espresso e música ambiente em algum lugar melhor que aquele.
Mas esses são pensamentos que me ocorrem hoje, pensando sobre aquela noite em perspectiva. O tempo costuma colocar as coisas em perspectiva, e, de todo modo, melhora as lembranças. O que me ocorria de verdade no dia, antes da debandada dos dentes, era cravá-los ao final da noite naquele peitinho pequeno e gostoso de Gisele, que se desenhava tão bem por debaixo do vestido. Hoje vejo que esse vestido parecia extremamente inapropriado para o local, mas era uma das poucas oportunidades que gisele tinha de se arrumar – creio eu – e resolveu partir logo para o modelito festa-baile, sem imaginar que eu a levaria para um pardieiro, a fim de que me sobrasse dinheiro para que pudesse levá-la ao motel na sequência.
O êxodo dos judeus do egito não foi mais rápido. Um tropel de burros e crianças desdentadas fugindo das secas nordestinas não teria mais presteza e velocidade que a debandada de dentes de minha boca. Era um tormento. Um suplício. Olhando para o espelho enferrujado pendurado em frente ao bacio da pia, examinava minha face. Apertava minha cara entre o polegar e os dedos restantes da mão direita, e um dente se soltava. Movia o queixo estalando o maxilar e uma fileira de dentes vinha se somar à verdadeira cordilheira de pedacinhos de coisas que, agora, sambava sobre minha língua. Aliás, passar minha língua em cada um dos buracos de carne avermelhada de minha gengiva me exasperava por completo, porque era uma demonstração cabal de que não era um fenômeno transitório. Não daria para reencaixar meus dentes, como peças de um brinquedo de montar, naqueles intumescimentos de gengiva que me tomavam o espaço da boca, então gorgorejante de sangue e saliva. Aquilo era real.
Resolvi acabar com aquele sofrimento e fiz força com a mandíbula e apertei minha face com as duas mãos e todos os dentes me foram saltando, até não restar um, o que me fez imaginar que, pelo menos, se eu voltasse para a mesa, talvez ao ver a meu sorriso desdentado por completo, do mesmo modo como antes havia a uniformidade de uma parede de dentes nem tão brancos, Gisele nem notaria que me faltavam todos os dentes da boca. Gisele acharia graça quando eu falasse descompromissadamente “vê que coisa: estou banguela”, ao que ela responderia com aqueles dentes branquinhos e pequenos “nem notei” e iríamos embora. Pensei na maciez de minha gengiva indo de encontro à pele macia de seu peito, e o que este momento perderia em voracidade ganharia em suavidade.
Mas era tarde. Eu era todo ilusões de aceitação e resignação, mas ao me virar, resoluto e decidido, para encontrá-la sentada na mesa, o papai, a mana, a Neusa mais atrás e um homem com uma camisa de pano de mangas grandes e correntes e fivelas adentravam o banheiro. Eu havia sido descoberto. Eu voltaria para o sanatório.
Daí acordei. Passei a língua na parede de dentes que continuava firme encrustrada em minhas gengivas, inclusive os encavalados, o que era uma desvantagem da vida real em relação ao sonho. Mas não havia tempo para resmungar: eram 5 e 20 da manhã, o que deixava uns 15 minutos para engolir uma caneca do café queimado de Neusa, sair correndo e pegar o metrô pra chegar no trabalho no horário.

18/05/2009 em 12:23
Taí, nada mal. Bom, era esperado algo bom vindo de você, então não foi muita surpresa. Mas, e aí? Vão rolar outros capítulos aqui no blog? Ou vai ser só este aí?
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