Uma demonstração insofismável de minha pujante e inquebrantável força de vontade
Eu não queria ir ao Festival de Verão Salvador.
Eu tenho uma péssima relação com a festa.
Quando, há onze anos atrás, o festival surgiu, eu tinha entre 15 e 16 anos e, obviamente, eu não tinha dinheiro para ir ao festival.
Diferentemente de agora, eu não PODIA ir ao festival de verão salvador.
E, como a raposa de Esopo, passei a desdenhar o festival como se fosse um cacho de uvas verdes.
Eu acho aquele paninho que jogam sobre a terra da arena a coisa mais nojenta do mundo. Só perde na escala de nojentice para o bandeirão dos filhos de gandhi que fui praticamente obrigado a carregar na única vez em que saí de filho de gandhi no carnaval.
Os shows são curtos e inexpressivos, aquele curral que separa a área dos camarotes da área da pista é uma coisa nazista, tem 352 shows diferentes acontecendo ao mesmo tempo (o que faz com que você tenha de ficar circulando igual a uma barata tonta) e o clima em geral do negócio é muito adolescente pro meu gosto.
Resumindo: eu não gosto do Festival de Verão Salvador.
Again: Eu não queria ir ao Festival de Verão Salvador.
Eu falei mal do festival para absolutamente TODAS as pessoas que me conhecem. Milhões de pessoas me ligaram querendo marcar para ir pro festival e disse a todas que não iria.
Melhor dizendo: eu disse para milhares de pessoas que não iria nem por decreto, nem fodendo, nem para ganhar mil reais.
Eu me programei para ir ao cinema.
Eu pensei em alugar um monte de DVDs e ficar em casa, na manha e tal.
Trabalhei como um mouro durante a semana e queria ficar numa relax.
Durante a semana, assistindo à transmissão da festa durante a madrugada, fiquei muito feliz de ficar em casa.
A atração principal de sábado era Alanis Morissete.
Eu não gosto mais de alanis. Eu gostava quando eu era adolescente.
Como um surto de espinhas, passou.
Eu não queria ir ao Festival de Verão Salvador.
Só que na manhã de sábado tive de ir à agência resolver uns pepinos. E Pablo e Drummond precisavam de uma ajuda pra um negócio novo que eles tão montando. Falei com eles para irem para lá pra gente fazer as paradas todas.
Terminado o trabalho, fomos rangar. No Líder, lá no Largo Dois de Julho.
Eu fiquei cabreiro. Eu sabia que isso não iria terminar bem.
Eu já sabia que eles iriam para o festival.
E eu, como vocês deveriam lembrar, não queria ir ao Festival de Verão Salvador.
Eu pensei em dizer a eles que não iria almoçar e que iria pra casa, mas terminei indo.
Almoçamos, começamos a tomar uma cerveja e Pablo, que é um agente do capeta com carteirinha, me disse:
- Jorge, eu tenho certeza que você vai pro festival.
- De jeito nenhum. Jamais.
- Deixa então a gente tomar mais umas duas cervejas e eu te pergunto de novo.
- Não, man, deixa quieto, eu vou vazar, vou pra casa e tal.
- Você sabia que o festival de verão é o maior festival de música da américa latina?
- É?
- Uma coisa assim não pode passar em branco.
- Vai se foder.
Eu ainda não queria ir ao Festival de Verão Salvador.
Amigos me telefonaram. Vamos fazer alguma coisa de noite e tal. A resposta padrão foi: “bora, sim, vamo sair hoje. Topo qualquer esquema, menos ir pro festival de verão”.
Eu ainda tava no Líder.
Chega mais cerveja, a coisa vai rolando. Daí Drummond, encarregado de espetar com um tridente as almas recém-chegadas do purgatório, começa a encher meu saco também.
- Mais umas duas cervejas e a gente vai embora. Precisamos chegar cedo no festival.
- Vixe, vai sair cedo assim? Mais um motivo pra eu não ir.
- Jorge, me explica porque você não quer ir pro festival.
- Porra, Drummond, não gosto do festival. Complicado pra estacionar, cerveja quente, blitz da SET em toda Salvador…
- Você não precisa ir de carro: a gente te pega em sua casa e te leva. Que mais?
- Deve ser caro.
- A gente dá um jeito. Você não tem assinatura do Correio da Bahia?
- Tenho.
- Então você tem o cartão do Clube Correio. Com ele você só vai pagar a metade da meia entrada.
- É?
- Tá vendo aí: você só vai pagar 16 reais para entrar, Jorge. Porra, vai ser massa. Bora, bora, bora…
- Não sei, rei…
- Deixa, Drummond… – interveio Pablo – amanhã ele vai acordar arrependido de não ter ido.
Bebemos mais algumas cervejas e, claro, depois que o nível alcóolico subiu um tiquinho, eu (e é claro que você já sabia) concordei em ir pro festival. Pablo, diretor de redação da sucursal do inferno, fechou o cerco. Eu ainda quis posar de bacanão.
- Eu vou. Mas primeiro eu vou em casa.
- De jeito nenhum: você é um peixe ensaboado, Jorge. Se você for pra casa você some, desliga o celular, eu te conheço. Você é fugidio.
- eheheheh. Relaxe, agora eu já decidi, vou sim!
- Vai nada: você tem um problema com compromissos, Jorge.
- Relaxe, eu vou.
- A gente passa em sua casa e te pega em 20 minutos. Se você sumir eu te acho e te mato.
Fui e, como esperado, preenchi a minha face ingerindo uma quantidade de bebida pantagruélica.
Estou com uma puta ressaca.
O show de Alanis foi ridículo e não lembro de metade das coisas que fiz.
Tô ligando pros brodis para tentar reconstituir, minimamente que seja, o que ocorreu ontem à noite.
Seguem abaixo as melhores definições para este episódio, que é, ao fim e ao cabo (como diria meu brilhante papai), uma demonstração insofismável de minha força de vontade inquebrantável:
Primeiro a de Drummond, proferida ainda na festa:
“Que você iria terminar aceitando e vindo TODO MUNDO já sabia. Mas o mais impressionante é que você marcou com 4 galeras diferentes para sair hoje de noite e terminou fazendo a única coisa que você falou que não faria de jeito nenhum, que era vir ao Festival”.
Hoje, via telefone, a de Pablo:
- Você, que nem queria ir, ficou loucão hein?
- Nem me fale man.
- Você é o exemplo de homem isopor, Jorge.
- Como é isso?
- É só colocar uma cerveja dentro que a gente te leva pra qualquer lugar.
6 Comentários em “Uma demonstração insofismável de minha pujante e inquebrantável força de vontade”
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Schebeu falou:
01/02/2009 em 21:38kkkkkkkkkkkkkkk.. pior q de todos nós, vc foi quem mais “acabou” no festival..kkkkkkkkkkkvc perdeu foi a gente no habbib’s.. todos cochilando nas mesas… kkkkkkkkk
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Cris falou:
01/02/2009 em 22:57kakakaka Agora eu ja sei,Isopor!!!
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lila falou:
02/02/2009 em 12:18Rei,a sua brilhante pessoa escapou até de tomar porrada.Um cara derrubou a sua cerveja e vc dando uma de bicho solto quase tomou uma voadora na cara.KKKKKK
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Beauvoir falou:
02/02/2009 em 19:26O que mais admiro em ti é, indubitavelmente, tua persistência…rsBeijos
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Laíse Almeida falou:
03/02/2009 em 16:16homem isopor?kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

01/02/2009 em 17:18
Rapaz ninguém te respeita mais! Precisa ter mais força de vontade. Por isso que hoje em dia eu não marco mais contigo; um dia acabo te encontrando! Inclusive ontem fomos na Líder, por volta das 18hrs, mas resolvemos ir para outro boteco porque as “meninas” que estavam lá precisavam trabalhar, e estavam achando que Marcelo era um potencial cliente!
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