Nihil Obstat

Pra mim, é inconcebível amar uma pessoa que não sabia escrever bem.
Pode ser péssimo pensar assim.

Do mesmo modo como coisas diversas em outras áreas da vida me impossibilitam de amar verdadeiramente algumas pessoas. Não no sentido putarístico da coisa, mas no sentido cristão (ui!) da palavra.

A lista é longa:

pochetes,
qualquer acessório dourado (com raríssimas exceções),
suco de melancia,
não conhecer Magritte,
doce de graviola (OU MELHOR: qualquer coisa com graviola),
ser voluntário em ONG pela defesa das morsas do Ártico e não dar uma maldita nica de um real para o menino na sinaleira,
lasanha de berinjela,
religiões,
aquele negócio cheio de bolinhas que nego coloca no banco do carro e no volante,
adesivo em carro,
bichinho pendurado na janela do carro (falando tanto de carro parece uma coisa pessoal, mas não é),
preconceito,
falta de bom humor,
não amar Miró,
não entender ironias,
filé de fígado,
malabares,
incoerência,
achar que Beatles se resume a yeah yeahh yeeeeeeaaaaah,
drogas sintéticas (e apenas elas),
excesso de coerência,
participar de fã-clube,
baianidade nagô,
falta de sarcasmo,
listas de coisas que nos fazem não amar as pessoas,
não ler Chuck Palahniuk, Nick Hornsby, Mario Vargas Lloosa,
excesso de sarcasmo,
polianismo,
sandálias havaianas,
bobs nos cabelos,
gostar de Chaves,
não ser generoso.

Mas este não é um post sobre os outros.
Afinal, meu nihil obstat a respeito das pessoas é um assunto pequeno.
Nem todo mundo deseja ser amado por mim, por mais que o pequeno Napoleão governando o caos aboletado sobre uma barcaça de papel na ventania da minha mente insista em me dizer o contrário.

É mais sobre mim do que sobre qualquer outra coisa.
É mais sobre minhas incapacidades, que são inúmeras, como ser humano, do que sobre a falta de critério das outras pessoas a respeito das coisas que são, em útima instância, opiniões delas a respeito das coisas.

E, também, se falta critério, sobra em tantas outras coisas que seria uma canalhice só olhar pra um lado da moeda.
E a mim me falta de tudo um muito.
Ou, como diria Gil, a mim me resta disto tudo uma tristeza só.

Me é difícil baixar a guarda.
Abrir o peito, mostrar as entranhas, arriscar.
Pular sem medir o tamanho do tombo.
Ou, como diria Zeca Baleiro, passar agosto sem esperar setembro.

Feliz mesmo é a Mary Poppins, que acorda cantando e tem bichinhos em animação pousando na janela.

Aliás, se você tem bichinhos em animação 2d pousando em sua janela, eu posso vir a te amar desmesuradamente.
E posso relevar (perdoar nunca é o termo) o fato de você não escrever bem.

Como dá pra ver, posso amar as pessoas pelos mais variados motivos.
Se você souber fazer uma boa imitação de qualquer coisa, é meio caminho andado.
Se você me disser “o melhor disco de Hendrix é o “bold: axis as love”, você terá em mim um escravo devotado.

Assim, pessoas que dão uma nica na sinaleira ou que não gostam da Banda Calypso já sobem dezenas de degraus na minha escala amorosa.

Mas a quem eu estou tentando enganar?
Como diz Cazuza, não amo ninguém, e é só amor que eu sinto.

12/02/09 | Veja mais | 3 comentários;

3 Comentários em “Nihil Obstat”

  • lilaemarcelo falou:
    12/02/2009 em 8:28

    Amor é um sentimento naturalmente egoísta, você ama amar, não o objeto a quem destina o amor. Por isso acredito que podemos amar várias pessoas ao mesmo tempo, simplesmente somos educados para não fazê-lo!Só que você continua incoerente: eu amo lazanha de berinjela,filé de fígado, graviola e tenho adesivo no carro. Ainda assim vc me ama!

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