Carnavale, carnavale…

Queridinhos, saudades imensas deste bloguezinho.
Mas, como todos sabem, foi carnaval e eu moro na Bahia, logo…

Eu sei que eu prometi escrever resenhas sobre os dias de festa.
Mas você é um bom leitor desta merda de blog, portanto deve ter gastado seu tempo carnavalesco fazendo sexo desprotegido com estranhos e gastando dinheiro excessivamente com bebidas alcóolicas, atividades bem mais arriscadas e divertidas do que ler este blog.

Então ficou combinado tacitamente: você não veio me ler, daí não escrevi nada.
Ou então você veio, não achou nada, sorriu languidamente com o canto da boca e pensou “este peralta deve estar na furicagem da folia baiana”.
Em ambos os casos, eu estou perdoado.
Se não por você, por mim mesmo e isso basta.

Mas, é óbvio, há muita resenha a ser feita. Não nos furtemos ao prazer de bater um papinho sobre as idiossincrasias, as vicissitudes e as veleidades carnavalescas.

***
Marcelo, primo, mandou um recadinho via orkut pedindo posts na quinta. Não deu.
Não vi o recado.
Aliás, por uma conjunção estranha não consegui encontrar meus primos na terça, o único dia em que iria para a rua para ficar na pipoca. Deixei o celular em casa e… enfim, fodeu, não consegui falar com mais ninguém. Fiquei puto, passei a tarde praguejando contra a vida e, à noite, fui enfiar a pica no meu visa num restaurante boçal e agradável chamado Doc.
Foi bacana.
Mas nem de longe substituiu a vontade de trocar uns dois tabefes com os cordeiros e tomar cerveja quente levantando as mãozinhas e tirando o pé do chão.

***

Este carnaval foi sui generis porque, sem querer, terminei fazendo diversas coisas que o povo que não gosta de carnaval faz. Na quinta não tava a fim de sair e fui ao Franz, que é sempre bacana de madrugada. Nno sábado – acreditem – fui ao cinema e, na segunda, viajei.
Tudo bem que não foi, de fato, uma viaaaaaagem – dei um pulo em abrantes, mas pra mim foi estranho não estar em Salvador por vontade própria. Pulo carnaval sozinho nas ruas desde os 14, 15 anos. Acredito que fui obrigado a sair de Salvador somente em um ano, na época em que ainda morava com meu pai, e silenciosamente planejei maneiras de enforcá-lo com a toalha da mesa e chorava toda noite.
De lá para cá, nunca mais deixei de estar na rua.
Meu grande problema é que fui educado para gostar disso. Meu pai levava a gente pra rua pra ver o trio Paes Mendonça com Margareth Menezes na fase Jaburu total (hoje é fase jaburu arrumadinho) e lembro nitidamente da primeira vez em que vi um trio elétrico funcionando – e eu deveria ter, no máximo, uns cinco ou seis anos de idade.
O impacto calou fundo na alma.
Não é uma coisa racional. É quase religioso.
Muita gente vem de famílias religiosas e continua religiosa na vida adulta porque foi educada assim.
Eu fui educado por minha família para ser um folião.
Fui levado para o carnaval da Barra quando ainda não existia um circuito na Barra.
E não consegui me livrar disso.
Não consigo ver a festa de um jeito diferente, por mais que os narizes quebrados, o fedor das ruas e o nível de violência da festa insistam em me dizer o contrário.

***

Porém, circulando em ambientes absolutamente estraanhos à festa, como shoppings e restaurantes, constateei um treco: quem não gosta de carnaval deve sofrer horrores nesta cidade.
Dá pra ver pela cara das pessoas em ambientes fora da festa.
Todos carregam aquele olhar cansado, acuado e entristecido.

O que é principalmente verdadeiro no que se refere ao “acuado”.
Prisioneiros dentro de suas próprias casas.

As pessoas que não gostam de carnaval tentam se refugiar em shoppings e restaurantes, mas no geral elas são cativas. Deve ser triste. Elas devem sofrer.

Mas, de todo modo, como xiita carnavalesco, eu torço mesmo para que elas sofram bastante.
Se alguém não consegue ver Santa Ivete como um orixá e se render a isso, tem algo de muito errado com essa pessoa.

***

Quando você está em casa e começa a ver a folia baiana na TV, a impressão é de que tudo é muito lindo, lúdico e foda.
Quando chove, então, o carnaval vira uma celebração dionisíaca da vida humana.
Mais ou menos do mesmo modo como a festa no apartamento vizinho é sempre mais animada que a pobreza daquela reunião capenga de amigos que você realiza no seu, ou do mesmo modo como o japonês nerd que você imagina existir sempre está estudando mais que você e vai roubar sua vaga no vestibular.

Não é.
Eu pulo carnaval sozinho na rua desde antes de ter uma quantidade apreciável de pentelhos.
Eu posso dizer: não é.

A quantidade de ladrões na rua é imensa. Policiais portam uns cassetetes grossos de madeira chamados informalmente de “fanta”, e se você der mole, a chance de tomar uma traulitada com aquele treco é bem próxima da chance de ser assaltado.

Eu já tomei uma fantada nas costelas. De graça.
E dói pra cacete.

Claro: um ou outro meliante recebe a chamada “merenda” de um ou outro policial mais afeito à ordem (toma um monte de bolos com a fanta), mas no geral a cidade fica tomada por um clima de liberalidade caótica e transgressora.

Em Salvador, é permitido fumar maconha e cheirar lança-perfume em praça pública, o que faz com que a cidade mãe do Brasil seja assim uma espécie de Amsterdã dos trópicos.

Quando chove, o mijo do povo que mija na rua se mistura aos restos de cerveja e outros liquidos (sêmen?) e o resultado é uma fuafa foda.
Se a transmissão televisiva do Carnaval de Salvador tivesse cheiro, a verdade seria revelada e nunca mais nenhum turista gastaria dois mil reais de passagem para vir ver de perto o esgoto a céu aberto que a cidade vira nos dias de festa.

***

Fui num camarote pago pela primeira vez na vida.
Tenho a impressão que o único preto desse camarote era eu, pois no geral só tinha gente loira e sarada e estrangeira.
Já havia ido para outros camarotes, por brodagem de clientes, ou amigos, ou pais, tanto meus quanto de namoradas. Dessa vez, resolvi pagar um dia pra ir.

É caro.
E por ser tão caro, os caras se esforçam realmente pra fazer uma ilha de irrealidade à sua volta.

Mas não dá pra dizer que não é legal. É foda.
No camarote a cerveja tá sempre gelada, o garçon com a bandeja de uísque aparece do nada do seu lado e toda hora pinta uma bebida diferente. Se não tem trio passando, liga-se na tomada uma boate portátil e um monte de gente bonita e mulher gostosa e embriagada vai pro meio do salão ficar se roçando.

Descrevendo assim, parece muito legal. E é.
É uma puta festa bacana.
Mas não é carnaval de verdade.
Carnaval de verdade é se retar com a tia que vende latão da Skol porque a cerveja tá só molhada e não gelada.

Como eu disse, minha idéia de carnaval é basicamente aquela coisa de trocar uns tabefes com cordeiro, beber cerveja quente, comer coisas estranhas pelas ruas e se lascar de dançar.
Ver um monte de patricinhas se escondendo de uns chuviscos não combina com minha versão roots.

***

Meu cunhado arrumou uns convites para a arquibancada da prefeitura no Campo Grande, no domingo. Eu adoro o Campo Grande – muito mais que a Barra -, mas fiquei meio receoso. Essa porra desse negócio de arquibancada chacoalhando me dá um medo fodido. Mas fui e foi ótimo, apesar de notar que todas as bandas cantam as mesmas músicas em frente aos postos de transmissão televisiva.
Aliás, a música do carnaval, aquele treco de Ivete, merece um post único, que virá.
E essa arquibancada do campo grande, com crianças pulando e velhinhas com tupperwares e sanduíches de atum foi o mais próximo do carnaval de verdade que eu cheguei nos últimos dias.

***

Eu, como você puderam ver, vejo todos os defeitos do carnaval de Salvador.
Eu sei que tem donos de bloco ganhando muito dinheiro e cordeiro ganhando 15 conto por dia e um sanduíche de mortadela.
Mas o fato é que, como acontece com qualquer droga, eu vou todo ano tentando repetir aquele mpacto fulminante que tive ao ver, pela primeira vez, um trio elétrico.
E, em alguns anos, em momentos raros e especiais, estar no meio da pipoca, no meio do chuvisco, entre uma cerveja e outra ou entre um pulinho e outro, proporciona uma sensação de alegria embriagante e plena que só se encontra no carnaval da Bahia.
E, nessa hora, você entende o porque de tanto engarrafamento, de suportar a fuafa das ruas e de gastar tanto dinheiro num negócio absolutamente dispensável.
Nessa hora, tudo se esclarece.
E nessa hora você promete a si mesmo que no carnaval do ano que vem você vai estar de novo ali.

23/02/09 | Veja mais | 4 comentários;

4 Comentários em “Carnavale, carnavale…”

  • Marcelo falou:
    07/03/2009 em 21:59

    Rolou um treco estranho, depois te conto por telefone.Terminou mais estranho ainda, sai no inicio da noite sozinho pra casa, com um sentimento esquisito, no meio da multidão, pensando um monte de coisas, mas, principalmente, porque não estva com vc. Peguei um taxi, fui pra casa e fiquei doente.podemos compensar no fran’z que é mais nossa cara apesar de nunca termos ido juntos

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