Pensando nas palavras

Eu sou uma pessoa cuidadosa com as palavras.
Mas tem umas coisas que eu penso, sério, e que preciso compartilhar com vocês.
Não me chamem de maluco.

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Não entendo porque tanta gente escreve cu com acento. Não assenta.
Cu é liso. Sem acento.
É que nem o coco. Nego bota acento no “côco” pra diferenciar de “cocô” mas, para mim, o coco com acento é muito mais próximo da merda que o coco nu, sem acento.

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Ou então nego escreve “vai se fuder”.
Eu acho muito mais bacana mandar alguém se “foder”.
Sonoro, aberto!
Quando alguém escreve “vai se fuder”, para mim, o que fica é um tentativa de menosprezar a expressão, de trazê-la para o chulo, de subordiná-la ao nível da patuléia.
Como se mandar alguém “se foder” fosse mais sério do que mandar alguém “se fuder”.
De certo modo é, mas prefiro, nesse caso, a grafia correta e etimológica dos palavrões.

Sim, porque eu sei a etimologia da palavra foder.

Foder vem do verbo “embainhar”.
Enfiar a espada na bainha.
Daí o tempo passou, ninguém mais anda enfiando espadas em nenhum tipo de bainha, mas o povo continua se fodendo.

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Do mesmo modo, “caralho” era aquela paradinha que fiicava na ponta do mastro dos barcos onde um carinha ficava para ver se havia navios piratas chegando.
Logo, quando você manda alguém pra casa do caralho, há um sentido nisso.
Mas não sou um esnobe. Normalmente prefiro a norma, nos casos em que citei.
Já acontece o contrário com outras expressões.

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“Viado” soa melhor que “veado”.
Quando alguém fala veado, só lembro das Brumas de Avalon, quando Artur se veste de Gamo Rei e parte pra cima da Morgana.
Traduzindo para a patuléia que não leu os livros: Artur se veste de veado e vai pro mato caçar Morgana, num ritual maluco de prova de virilidade lá dele. Depois descobre que a Morgana era sua irmã, mas aí já tinha enfiado a vara nela e a porra empena. O que se depreende disso é que o veado, em quase todas as culturas do mundo, é um símbolo de masculinidade. O cervo, o gamo, a corsa. Só aqui na Terra papagalis e no desenho da Disney a porra empenou e o veado é sinônimo de gay.

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Escrevendo o post e lendo, pensi nisso aqui:
Pegue a mesma frase daí de cima e tire do contexto:
“Artur se veste de veado e vai pro mato caçar”, e você logo imagina um cara vestido como o Rodrigo Santoro em 300 numa rave gay catando os bofes.
É estranho isso.
O pior não é nem a associação. É como uma palavra vira palavrão e isso é homofóbico e a gente nem nota.
“Fala, viaaaaaaaado!” é, provavelmente, o modo como eu mesmo cumprimento, sem nenhuma maldade consciente, a maior parte dos meus grandes amigos. O discurso oculto e homofóbico subjacente é claro, mas você só se dá conta de que é um comportamento reprovável quando você se bate com um brother que é, de fato, gay, e fica com vergonha de fazer a mesma brincadeira.

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É que nem a expressão “neguinho”. É racista.
Porque nunca o neguinho faz a parada correta, repare.
A frase é quase sempre assim:

“Neguinho gosta de se exibir, mas eu sou discreto”.
“Neguinho bebe pra caralho e depois finge que esquece as coisas”.
“Neguinho adora criticar, mas eu sou uma pessoa legal”.

Eu uso demais o “neguinho” em frases do tipo, no sentido de dizer que “o outro”, alguém que não sou eu, o errado, o vacilão, fez alguma coisa e eu não fiz, sacou?
O neguinho é o estranho, o estrangeiro, o outro, aquele que não sou eu, aquele que não somos nós.
E assim se alimenta um preconceito subjacente.
As palavras têm (e, pra mim, “têm”, mesmo como a reforma ortográfica) uma puta força oculta.

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Boceta é estranho e buceta é pior ainda.
Xana é coisa de sacana, se fala sibilando.
Grota é coisa de conto erótico peba.
Vagina é técnico, vulva é a puta que te pariu e os outros nomes não lembro, mas a xoxota é um termo com muitos sinônimos.

Prefiro xoxota.

Porque xoxota se fala de boca cheia. Às vezes, literalmente.
Não consigo enxergar essa apalvra como uma coisa chula.
Sempre que leio “boceta” lembro de um conto do velho Machadão em que ele fala sobre alguém que andava com uma caixinha de rapé e de vez em sempre “tamborilava na tampa da boceta de rapé”.

Imagine-se, imaginativo leitor, tamborilando na tampa de uma boceta.
Não tem lá muita graça tamborilar na tampa, uma vez que, em frente a uma boceta, seja de rapé ou seja da Nega Isabé, da música do Caymmi, a graça mesmo está em destampá-la.

Imagine-se, imaginativa leitora, com um filho da puta tamborilando na tampa da SUA boceta. Deve ser dolorido.

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Alguém, não lembro quem, disse que as palavras são como pontes frágeis rumo ao significado.
Se você passa por cima delas rapidamente, você chega ao outro lado.
Mas se você se demorar sobre elas elas desabam.
Desde pequeno, quando aprendi a ler, uma das coisas que mais gosto de fazer é olhar para uma palvra impressa até o momento em que ela se descola do seu significado e vira só um desenho bonito sobre o papel branco. Adoro fazer isso.
Sou só eu que sou maluco ou alguém mais já sentiu como se as palavras, depois de observadas intensamente, perdessem o significado?

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Sou publicitário, como vocês sabem, ou como minha pretensão me faz pensar que vocês saibam. E sou diretor de arte.

Uma das coisas mais fodas da profissão é nome de cor.

Cliente chega na agência falando que quer uma parada “bege clarinho” e cada um na criação tem uma cor específica que considera ser o bege clarinho. Ninguém se entende.
Mulheres enxergam cores e definem mais tonalidades do que homens. Se uma mulher olhar pra uma piscina e disser que é verde, eu acredito. Se um brodi falar também, eu duvido.
Isso sem falar em nomes de cores que são absolutamente afrescalhados, como fúcsia, alabastro, grená, magenta.

E sabe o que realmente me incomoda: será que o que eu chamo de azul será o mesmo que você enxerga como azul. De repente, o que eu nomeio de “cor-de-abóbora” é o que você entende como azul. Já pensou que piração seria entrar em sua cabeça e ver o mundo com as cores que você vê?

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Eu conheço o nome das fontes de olhar pra elas.
Não é dom, é treino, faz parte de meu trabalho.
E daí lá na agência todo mundo vive me consultando a respeito das fontes com que as coisas são escritas.
Uma ex-namorada minha confessou que tinha viagens desse tipo. Para ela, cada palavra tinha uma cor. Ela imaginava as palavras coloridas. Eu não imagino a cor das palavras, imagino suas fontes.

E assim passávamos muuuuito tempo juntos, ela dando cores pras palavras e eu as imaginando eem fontes manuscritas, góticas.
Não sei se ela pensava mesmo que as palavras tinham cores ou se ela inventava as cores à medida que eu ia pedindo para que ela me dissesse a cor das palavras “abajur, tangerina, rinite”.
Mas essa era uma das coisas mais apaixonantes nela.

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Como vocês sabem, adoro onomatopéias.
Smack, cabum, nheco, ploft, póin.
Sempre imagino onomatopéias como explosões de histórias em quadrinhos.

24/01/09 | Veja mais | 7 comentários;

7 Comentários em “Pensando nas palavras”

  • lilaemarcelo falou:
    26/01/2009 em 8:32

    eu prefiro pensar em cima das etmologias das palvras mesmo! Pensar porque cadeira chama cadeira(tudo bem, convenção!), mas que cadeira não parece com cadeira, não parece!Bom post!

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  • Shirley de Queiroz falou:
    29/01/2009 em 9:57

    Pensei que era só eu que pensava esse negócio das cores… Mas eu vou mais longe. Quem disse que o que eu sinto salgado vc não sente doce? Vai ver por isso uns gostam de chocolate e outros de coxinha…

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