Milton Nascimento
Sábado à noite, nada pra fazer, fui na Porteira, do Dique do tororó, com o povo pra comer uma carne de sol.
A Porteira é o legítimo bar-restaurante de tio. Tem um monte de tio tomando cachaça, tem criança correndo do lado de fora e tem uma dupla tecladinho-menininha. Os hits você sabe: Saigon, Jade, Corsário, Andança. Essas músicas de tio.
Mas o chope tava gelaado e a carne do sol tava bacana.
É o que conta.
Daí quando estamos nessa começa a tocar Canção da América. Aquela coisa hedionda que você cantou na escola no dia do amigo.
Eu detesto.
Todo mundo detesta e, se você gosta, desculpa, mas eu te detesto também.
Daí começamos a discutir.
Eu: Puta merda, eu DETESTO essa música. Acho ridícula. Principalmente a parte do “quem ficava voou no pensamento de quem voou na lembrança que o outro ficou”. É ininteligível.
Pablo: Porra, também detesto e não entendo.
Drummond (as always): Eu entendo.
Eu: então explica.
Drummond: é assim, ó: vou dar nomes pra facilitar o entendimento. Milton Nascimento, o eu-lírico, viu um amigo, Paul McCartney, chorando pela falta do outro amigo, John Lennon. Paul ficou, mas no pensamento voou, porque, com a lembrança de Lennon, um pedaço de Paul viajou. E, ao mesmo tempo, Lennon ficou porque a lembrança de Paul viajou. Entendeu?
Eu: Não. Nada.
Pablo: Drummond, você já viajou com o pedaço de alguém?
Drummond: Vai se foder, Pablo.
Eu: Porra, Drubs, pra mim só tinham duas pessoas na história. O amigo que foi e o amigo que ficou.
Drummond: Não, com certeza absoluta são três.
Eu: Para mim, Milton Nascimento era Paul McCartney.
