Uma fábula
Esse era pra ser um post raivoso. Mas não será.
Por isso é uma historinha.
Era uma vez um bichinho de estimação. A lovely pet chamado “Eu”.
(É um nome ridículo, mas esse era o nome do bicho. Não fode. Lê a história.)
Eu andava na rua. Você era camarada com Eu quando encontrava com Eu na rua.
Eu gostava de te ver passar.
Daí você pegou Eu, curou umas feridas brabas e botou Eu em casa.
Foi legal. Eu queria ficar em sua casa para todo sempre.
Daí todo dia você chega em casa e traz um biscotinho ou qualquer coisinha bacana da rua.
E tudo anda bem.
Ok, Eu admite: de vez em quando Eu dava uma roída em seu sofá.
Eu ficava chateado de fazer isso, mas era a natureza.
Você sabia que Eu era um bichinho.
De rua.
Livre, solto, independente.
Legal, esperto, mas bicho.
Eu era bicho.
E você não gosta que roam seu sofá.
Duas legítimas formas de expressão da alma de dois seres.
Eu respeitava você como dono, você respeitava Eu como bicho.
E um belo dia você começa a trancar Eu na área de serviço, naquele cubículozinho fedendo a xixi.
Eu tava ficando puto.
Eu andava livre pelas ruas e agora Eu tava num cubículo fedendo a merda e pequenininho. Mas você traz biscotinhos, é legal quando você chega e tudo o mais.
Mas uma hora a porra empena.
Eu era um bichinho neurótico.
E começava a viajar no real significado de estar no cubículo.
Você, como dono da casa, poderia matar Eu.
Agorinha.
Poderia enfiar a faca mais afiada de seu faqueiro na garganta do bichinho e cortá-lo em bifes e servir ao poivre para as visitas de sua casa.
Eu começava a pensar que, de lovely pet, iria virar petisco.
Você dá mole e Eu sai porta afora.
O mundo é grande e é assustador, muitas vezes, sair sozinho pra rua.
Mas Eu tava disposto a assumir o risco..
Daí, um dia, você acha Eu na rua.
E Eu não te morde. Você era dono dele, e Eu lembrava disso com carinho.
Mas fica esquivo. Eu tava preso, lembra?
É natural que Eu fique esquivo.
Mas você quer que Eu reaja como aquele lovely pet que ficava no seu cubículo.
E diz: “porra, bichinho de merda, você que quis fugir, agora me trate como você me tratava quando a gente só se via na rua”.
E pega o primeiro porrete e bate bem no lugar onde você sabe que Eu tinha uma cicatriz.
Moral da história: Eu poderia até voltar a brincar, mas bater na cicatriz só faz com que Eu lembre da parte do porrete, não dos biscoitinhos. Quem tá apanhando não tem tempo pra ser legal com ninguém.
