Rufem os tambores
Amigos, comemorem.
Inimigos, morram de inveja.
Leitores deste blog: regozijai-vos.
Troquei de carro.
Não por nada. É que eu tava com medo de pegar tétano na minha lata antiga.
Quem me conhece, sabe: aquilo não era mais um carro. Foi um carro digno em 97, quando foi produzido. Há tempos deixou de ser.
Era uma lembrança etérea e simpaticamente sujinha do que, um dia, foi um carro.
O novo (sorry: seminovo) é lindo, não tem nenhuma zuada e não preciso mais ter vergonha de visitar nenhum cliente com ele.
Mas ainda não o sinto como meu.
Deve ser o costume com o velho pálio de banco quebrado, porta batida, vidro que não abaixava e retrovisor do carona pendurado.
Ele, o pálio, foi um fiel companheiro.
Juntos, nos escorando um no outro, chegamos em casa bêbados uma soma assombrosa de vezes.
Comemos gente juntos. Choramos algumas separações de namoros juntos.
Fomos em lugares suntuosos e em locais bem suspeitos.
Viajamos juntos.
E ele, mesmo com sede, nunca negou fogo.
Com uma baforada de algo remotamente parecido com gasolina ele me levou aos confins do universo. E também a Valença, que, como todos sabem, fica depois dos confins do universo.
Ele, de certo modo, tinha minha cara. Esse novo é ainda assintosamente tiradinho.
Mas isso vai acabar. Ele será um novo companheiro e o palio antigo será uma lembranca antiga e engraçada numa mesa de bar.
“Lembra, Jorge, que tu tinha aquela desgraça velha e calorenta?”
Eu vou rir disso e confirmar.
Se as coisas tivessem memória meu carrinho estaria triste.
Por isso ele merece essa singela homenagem. Bom que fique marcado neste blog:
Querido pálio,
saudades eternas de seu cheirinho de óleo vazando e de seu volante mais duro que pão dormido com becel.
Juntos, fomos onde poucos nesta existência se dispuseram a ir. Fomos temidos na Bahia.
Muitos vão do berço à cova sem saber o que é andar por onde andamos juntos. E você, gato guerreiro transformado pela idade em pacata lataria, será lembrado como uma lenda, um mito, um marco na história dos que vivem e bebem nesta cidade.
Ide, Pálio! Teu futuro é incerto como a procedência de tantos uísques que tomamos juntos por esta cidade afora.
Mas tua alma jamais morrerá!
De teu dono (quiçá último, antes do ferro velho)
Jorginho da Bahia
5 Comentários em “Rufem os tambores”
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Jorge Martins falou:
12/12/2008 em 9:19Nunca disse que não tinha parcela pra pagar. Aliás, isso é o queu mais tenho…E minha lata nova não tem ar nem nada. Anda, apenas.O que, em comparação com o pálio, é muita coisa.
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Marcelo falou:
12/12/2008 em 12:11Uma “ode” ao carro velho, quase um epitáfio a um grande amigo.Que chique, sorte com o quase novo possante.
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Renne Boz falou:
12/12/2008 em 16:16hahahahahaha! Muito bom!
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Juliana Rocha falou:
13/12/2008 em 11:28Ô genteeee, o Pálio q me desculpe mas já havia passado da hora!! Da ultima vez q entrei nele, semana passada, o calor beirava o inferninho e o cheirinho não era dos mais agradáveis!!! Vamos marcar uma comemoraçã já! Vamos amanhã na pedra furada comermos as 3 carnes do sol q ganhamos semana passada!!!!! UHUHUHUUUUUUUUU E quero ir de carro novooooooooo! Q carro é gente???????Bjocas e PARABÉNSSSSSSSSSS

12/12/2008 em 8:53
Coincidências da vida: também troquei o meu na semana passada. Finalmente um carro com ar, 04 portas, vidro e trava! E o que é melhor: sem parcela para pagar!Agora me sinto menos pobre!
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