Notas sobre o natal
Natal é bom por um motivo: é uma das poucas datas do ano em que você pode enfiar a pica no Visa e comprar um vinho bom sem pena e sem encheção de saco dos parentes.
Pinot noir é uma parada foda per si.
Da Borgonha, de fato, é muito mais foda.
Gastei 80 barão num vinho foda, francês, e o bebi de cabo a rabo, sozinho.
Ninguém se atreveu a pedir um gole.
Deve ser pelo modo como eu me agarrava à garrafa.
Além do mais, pro resto do povo tinha cerveja.
Meu pinot noir. Meu saudoso bourgogne.
Ele foi a melhor companhia do meu natal, apesar de minha casa cheia de gente.
***
Meia hora antes de chegar o povo em minha casa. Falta luz.
Minha mãe:
- Animado, filho?
- ô!
- E essa luz, hein?
- Deve ter sido a carga negativa de meu entusiasmo pela noite que virá.
***
Grandes amigos pintaram na cidade e fui beber com eles ontem. Tiago e Yappa. É sempre divertido. É bom saber que tenho amigos espalhados por aí.
Eu olho os meninos se dando bem lá em sampa e fico me perguntando: e se fosse eu?
Eu recebi, na vida, alguns convites escrotos para ir morar no Canadá, em Zurich. Tudo a trabalho. Se fosse Sampa eu iria. Amo aquela cidade.
***
- Poxa, Jorge, você não contou como foi seu natal…
- E precisa?
***
Tive uma discussão chata com Lila, uma de minhas irmãs.
Lila é, em diversos aspectos, a minha irmã mais próxima. Em outros tantos, a mais distante.
Mas ela é parecida comigo em aspectos fundamentais, e provavelmente nos aspectos em que mais diferimos do restante de nossa família.
Já ouvi, de minha mãe, por exemplo: você e Lila sentam pra conversar e ficam só vocês dois falando de coisas que ninguém mais entende.
E é verdade.
Daí fiz uma puta força pra passar com ela qualquer tempinho antes do natal. Engoli uma birra besta dela com relação a um amigo secreto maldito e tudo o mais. Mas fiquei me sentindo um bocó, mendigando a presença dela prum almoço maldito de natal.
E quebrei o cacete.
Ela fez falta. Assim como Marcelo.
A presença deles me faz crer que ainda existe gente com quem se pode conversar de verdade na vida.
***
Tô me sentindo sozinho e triste.
Minhas férias foram pro saco porque ficou um porrilhão de coisas pendentes na agência e vou ter de ir lá no dia cinco resolver.
Grande parte de meus grandes amigos viajou ou está passando o tempo com a família.
Eu realmente não tô bacaninha com isso.
***
Daí que fiquei com vergonha de ir sozinho ao cinema hoje, coisa que faço rotineiramente.
Ia pro cinema da aliança francesa ver Vicky Cristina Barcelona e, provavelmente, emendar com Queime depois de ler, o novo dos Irmãos Coen.
Primeiro que o cinema da Aliança Francesa me traz lembranças complicadas de uma pessoa em específico, e de programas que fiz com essa pessoa por lá.
Daí ir sozinho pra pedir um capuccino no barzinho sozinho iria soar a “assuma ser um fracassado emocional que não consegue manter um relacionamento de dez anos como seus melhores amigos”. Ou melhor: “assuma que seu destino é ir a cinemas de arte sozinho com todas a sua pose e arrogância características e tomar seu café posudo enquanto aguarda para ver filmes que ninguém mais vê”.
Espero que essa sensação de derrota não me impeça de ir ao cinema amanhã.
***
Saí como Mari e Saka hoje. E Carlinha, amiga de Mari. Como sempre divertidos. Como sempre é um prazer partilhar da inteligência, da constância e do carinho de ambos. Mas tem horas que fica foda.
- E aí, foi ao cinema?
- Não, fiquei em casa, vendo Quero ser John Malkovich.
- Ah, já vi. Bom.
- Porra, saka, achei do caralho!
- Ia no cinema ver o quê?
- O novo de Woody Allen. Vicky Cristina Barcelona.
- Não gosto de Woody Allen. Você gosta, Mari?
- Ah, amor, não gosto não, acho depressivo.
- Depressivo, mari? Que é isso? Allen é brilhante. Saka, você não gosta mesmo de woody allen?
- Não
- Mari, você não gosta de Woody Allen?
- Não.
- Carlinha?
- Quem é Woody Allen?
- Putz, um cara, diretor, brilhante, novaiorquino, judeu. Vendo a foto você conhece.
- Ah, não gravo nome de ator, não…
Joinha.
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Nota mental: não participar mais de amigos secretos onde haja a possibilidade de tirar alguém que você não conhece e com quem você não tem intimidade.
3 Comentários em “Notas sobre o natal”
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Marcelo falou:
28/12/2008 em 22:59Esse Marcelo qye vc sentiu falta sou eu? porque se for, vc pe um corno, deveria ter me ligado (mas eu iria tomar um gole do vinho rs), se não foi belezinha tb, meu primo, lembrei de vc por causa da mesma repulsa natalina.Quando li a parte sobre a sala de arte, principalmente por se tratar do Aliança, entendi porque mesmo tão distante me sinto tão próxmo de vc, ja assiti o filme de Woody Allen, Penelope está impagável (Almodovar deve estar querendo se matar, nunca conseguiu arrancar tanta paixão dela).Um café, qualquer dia desses, no Alinaça, ou no Fran’z, será muito bem vindo
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lilaemarcelo falou:
29/12/2008 em 17:01Tb senti muito sua falta e ainda estou sentindo! Adoraria ter tomado um gole do vinho, apesar de não gostar muito de pino noir.O resto do texto, lhe mando por email, afinal nem todo mundo precisa saber de tudo!

28/12/2008 em 8:34
Poxa ir para o Cinema da Sala de Arte é uma delicia, uma vez na vida sozinho é melhor ainda, tudo de bom….Fatal tb é muito bom, tá passando no Museu Geológico! Bom resto de final de ano. Bjos
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