Coisas de minha mãe
Eu fico receoso de escrever esse tipo de post pois quem conhece minha mãe sempre, invariavelmente, vira pra mim e fala “ih, Jorge, não fode, tua mãe é gente fina, cabeça aberta e fantástica. Vai chupar parafuso até virar prego”. Mainha é massa, mas depois de passar um ano morando só, a contingência de voltar a dividir um apartamento com minha mãe toma ares de comédia de costumes.
Por exemplo: Minha mãe tem uma memória assombrosa. Pra algumas coisas.
Tipo, se eu, numa conversa telefônica, comento com um brodi “velho, vai em sampa? não dá pra perder o sanduíche de mortadela do mercadão. Eu aprendi a gostar de mortadela lá”, fodeu.
Ela processa a frase como um “blá blá blá gosto de mortadela blá blá blá” e nunca mais, em minha existência sobre a Terra, eu poderei dizer “detesto mortadela”.
Vira ítem do mercado.
Não se compra mais, por exemplo, presunto.
Só verei mortadela em minha geladeira.
Todos os odiosos 365 dias de um ano.
Every single second.
Até o dia em que eu me revoltar com relação à ditadura da mortadela, virar e disser “porra, mãe, que saco, detesto comer mortadela” e ela ficar amuada no canto da sala como seu eu tivesse dito “mãe, queria que você tivesse câncer”.
No outro dia, comentei em casa.
“Porra, morando sozinho, várias vezes comia um miojo e tal pra economizar tempo”.
Daí que tem 250 pacotes de miojo na dispensa.
Ou “o gosto do kuat é legal”.
Isso pode soar como uma ironia (nem é) ou como um juízo de valor pouco estudado.
Não importa.
NUNCA MAIS, nessa encarnação, eu saberei como é o gosto de um guaraná que não seja o kuat.
Nunca, ever, jamais.
Esqueça que existe outro guaraná.
Esqueça.
Nunca, jamais, ever existiu nenhum outro guaraná no mundo que não seja o kuat.
Mas pra outras coisas ela se passa fodamente.
“Meu filho, vou fazer mercado. Quer alguma coisa de lá?”
“Ah, mãe, me faz um favor: minha lâmina de barbear tá parecendo um serrote. Compra um refil do mach 3?”
“Ok”.
E nunca, nunca, em um ano de convivência depois que morei só, ela conseguiu acertar o mach 3. Compra sensor, compra prestobarba, compra qualquer esfolador de cara, mas nunca o mach 3
Aí você fala: “ih, Jorge, não fode, malandragem, isso é carinho e muita gente gostaria de ter esse tipo de cuidado. Vai e compra a tua merda”.
Ok. Eu sei.
Talvez se ela acertasse tudo eu ficasse mimado.
Talvez se ela errasse tudo eu achasse engraçado.
Mas do jeito que é soa a complô.
Eu preciso voltar a morar só.
Nada contra ela.
É que é o supra-sumo da dignidade humana poder mudar solenemente de opinião a respeito do sabor da pasta de dente de mês em mês.
6 Comentários em “Coisas de minha mãe”
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Cris falou:
04/12/2008 em 9:48Protesto.Esse blog não é meu, mas eu protesto. Tudo bem a mãe é sua. Mas eu acho uma sacanagem falar de tia, mas tudo bem, a boca é sua…Sim mas se posso fazer comentários. EU posso falar que eu penso, e eu protesto.rs
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Paula falou:
09/12/2008 em 15:34aaaaff!! sua mãe é mt masssssssaa!!! mas é mãe!! e mãe (normal) é td igual! minha mãe é assim! eu tomei abuso a suco de melancia pq?
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Marcelo falou:
11/12/2008 em 10:54Eu parei de comer carne vermelha, como vc acha que está minha vida com sua madrinha?
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Jorge Martins falou:
11/12/2008 em 23:20Imagino, Marcelo, imagino, tia Eliana dando santo todo dia, se debatendo e babando no chão da cozinha, porque você não come carne vermelha.
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iaiá falou:
15/10/2009 em 17:32tem certeza que vc não é meu primo distante? sua mãe parece tanto com a minha…aliás tb preciso voltar pra minha casa.

04/12/2008 em 7:56
kkkkkkkkkkk Mãe é tudo igual mesmo!!! Mas coitadinha de Zezeu! Ela sabe q o nome dela tá rolando aqui??? Vou contar tudo a Zezeuuuuuuuuuu!!!!!!! TUDOOOOOOOO (com o dedinho em riste e os olinhos fechados)kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
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