Depois do episódio do último post – que vocês bem lembram e eu não esqueço – a vida segue. Esse final de semana é o show de Paul McCartney e eu pensei, seriamente, em desistir de vir pro Rio. Toda a trabalheira de desmarcar passagens, hotéis e tudo o mais, além do apoio da galera de casa, me fez ver que o melhor a fazer era, realmente, cair no mundo. Por conta do nervosismo, da emoção pelo momento e tudo o mais, rodei a baiana (para os leitores não baianos: “rodar a baiana”, em bom baianês, é dar um piti, descer das tamancas, etc, etc…) na agência, em casa e em quase todos os lugares. Viajar só poderia me fazer bem.
Você, leitor atento, se pergunta: hotéis? Por que o plural?
Explicando uns trecos: há mais de um mês atrás, depois de comprar o ingresso pro show, fui ver no smiles, aquele programa de milhagem, algum esquema pra não ter de pagar a passagem pro Rio. Tava rolando uma promoção e, com menos da metade das milhas habituais, eu poderia pegar uma passagem pra qualquer trecho da América do Sul. E aí, por conta disso, eu vou sair daqui do Rio, onde escrevo este post, direto pra Argentina. Chato. Pode me invejar que eu curto.
Enfim: cheguei no aeroporto e embarquei direto – nem mofei esperando – e o voo foi, como sempre é pra mim, uma coisa chata e assustadora. Alguns dizem que o avião pousou, mas eu prefiro chamar aquilo que aconteceu de “cair com classe”. Eu tiro onda de porretinha e cosmopolita, mas, na verdade, sou um amontoado de clichês: quando a aeromoça gostosinha passou rebolando a bundinha e o piloto anunciou o pouso no aeroporto Antonio Carlos Jobim, começo eu a cantar o samba do avião no repeat mental (dentro de mais um minuto estaremos no galeão…)
Peguei um táxi e, no caminho pro hotel, fiquei impressionado com a beleza que é o horizonte no Rio. Uma caralhada de montanhas. O Rio, pelo pouco que vi, é uma Salvador que deu certo: uma cidade abençoada pela natureza e tudo mais, aliada com uma população mais educada que a baiana. Sempre me surpreende como as cidades são mais limpas que minha amada Salvador.
Chego no hotel, a mocinha nem aliviou: “senhor, a hospedagem vai custar o seu rim esquerdo”. Ok, não foi bem assim, mas foi quase: queria me cobrar quase o dobro do valor. Mas por que? “ah, senhor, é show do Paul, a tarifa dobrou”. Rodei uma baianinha, de leve, pra chegar chegando, e consegui fazer com que me hospedassem pelo valor que eu havia reservado.
Do lado da recepção, uma singela placa: “a bebida faz mal à família e à sociedade”. Foi o que faltava pra eu sair e procurar um bar. Deixei a carteira no hotel, morrendo de medo de ser assaltado (medo que se mostrou altamente infundado), botei um cartão de crédito no bolso da bermuda e saí flanando, sozinho, quase quatro da tarde. O hotel fica no centrão do Rio, perto da Lapa e do circo voador (rolou baile funk com os avassaladores – os caras daquele video “sou foda” – ontem, e anotei mentalmente a idéia de ir pra parada, à noite). Não deu certo – queria só dar uma reconhecida no ambiente, mas fiz amizade com uns brodis de BH, paquerei umas meninas de chapecó, fizemos uma roda de samba com uns cariocas, bati foto com pernambucanos, paulistas e todo tipo de gente num boteco charmosinho chamado Antoniu’s e, duzentos chopps e duas garrafas de red label depois, voltei pro hotel, bêbado, quase duas da manhã – e sem gastar um real, porque os brodis de BH resolveram que iam pagar a conta – nababesca – e quase se ofenderam quando eu puxei o cartão do bolso. Nem me senti no direito de reclamar quando o cara do restaurante do hotel cobrou nove barões num misto quente.
Acordei de madrugada, me arrastei até a recepção pra pegar uma água e tomar um sonridor pra ressaca, e aqui estou. A meta do dia é achar um jeito de ir pro engenhão – o que não deve ser difícil, porque todos os beatlemaníacos do Brasil estão aqui, no mesmo hotel. Umas menininhas foram ontem, com 24 horas de antecedência, pra dormir na fila – o que me faz pensar, com um certo pesar, nos efeitos maléficos que a falta de pica faz com a cabeça de algumas meninas neste mundão de meu deus.
Momento engraçado da noite de ontem: conversávamos ontem, eu, os brodis de BH e as meninas de Santa Catarina sobre sotaques quando eu disse:
- Porra, eu tenho um sotaque baiano forte – e sei disso – mas, também sou muito permeável: se eu passo três dias em qualquer lugar, saio falando do mesmo jeito que os locais – daqui pra amanhã eu já devo estar falando “naiscimeinto” e “poixto nove”.
A catarinense:
- Baiano adora inventar umas palavras diferentes… Permeável? Isso existe?